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Guia de Consumo: O Cinema de George Miller

Filmografia comentada: Conheça um pouco mais da obra do cineasta George Miller, indicado ao Oscar 2016 por Mad Max: Estrada da Fúria. Texto por Alex Gonçalves, do Cine Resenhas.

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Entre as décadas de 1970 e 1990, o cinema australiano passou a ser movido com a potência de novas vozes, resultando em produções que ultrapassaram as barreiras da terra dos cangurus para invadir Hollywood e o mundo. Não somente alguns intérpretes como Nicole Kidman, Russel Crowe, Hugo Weaving, Guy Pearce, Toni Collette e Paul Hogan se transformaram em astros, como também muitos diretores migraram para conduzir grandes produções em outros países.

Bem como Peter Weir, Jane Campion, Baz Luhrmann, P.J. Hogan, Phillip Noyce e tantos outros, George Miller começou a carreira com um filme independente cujos ecos foram notados por públicos de todos os cantos do mundo, transformando a cinematografia australiana em uma arte com um diálogo universal. Porém, somente Miller tem hoje uma saga a qual continua revisitando para as novas gerações: Mad Max.

É com ela que o cineasta de 70 anos atinge um novo ápice em sua carreira, sendo o vice-campeão em indicações ao Oscar 2016, incluindo menções nas categorias de Melhor Filme e Melhor Diretor. Porém, não é só a ação pós-apocalíptica que pulsa a filmografia de George Miller, que o traz em curiosas expedições ao cinema infantil, dramático e cômico.

Mad Max

O fascínio de George Miller pelo conceito de um futuro apocalíptico o persegue desde o início da carreira, com Mad Max marcando o seu debut como diretor em um período que o cinema australiano se preparava para ganhar o mundo com uma safra de obras originais como a de nenhuma outra cinematografia. Nesta primeira aventura do personagem-título imortalizado por Mel Gibson, Miller supera o orçamento limitado com escolhas muito criativas, como a montagem ágil da dupla Cliff Hayes e Tony Paterson, e ainda deixa o terreno preparado para o que viria a ser uma franquia bem-sucedida.

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Mad Max 2: A Caçada Continua

Dois anos depois de Mad Max, George Miller conseguiu um valor quatro vezes superior para viabilizar Mad Max 2: A Caçada Continua e fez uma estratégia que viria a repetir com Estrada da Fúria: ater-se somente aos elementos primordiais do argumento original para priorizar a ação e garfar um público ainda mais amplo. O resultado foi extremamente positivo e, 35 anos após o lançamento, as perseguições nas estradas desertas da Austrália seguem impressionantes. Também cerca de interesse a transformação a qual Max é submetido, de um policial em busca de vingança pela morte de sua família para um guerreiro sem a distinção da autoridade em luta pela sobrevivência.

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Mad Max: Além da Cúpula do Trovão

Com propostas tentadoras para migrar para Hollywood, George Miller resistiu para fechar o ciclo de Mad Max com um terceiro episódio, Além da Cúpula do Trovão, partilhando a direção com George Ogilvie. Para os não aficionados por cinema, era o único Mad Max com existência conhecida devido às inúmeras reprises na tevê aberta e à Tina Turner como a líder de um grupo de crianças órfãs – a cantora é quem também interpreta a maravilhosa canção “We Don’t Need Another Hero”. A realização foi duramente criticada por suavizar a ação, que fez despencar a classificação indicativa para o lançamento nos cinemas. Ainda assim, uma revisão pode colaborar para um julgamento mais brando, pois Além da Cúpula do Trovão é um bom filme.

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As Bruxas de Eastwick

Livre, leve e solto das responsabilidades de sua saga Mad Max, As Bruxas de Eastwick veio como a melhor alternativa visualizada por George Miller para ingressar em Hollywood, sendo uma comédia descompromissada com um elenco central contando com as maiores estrelas à época. No entanto, falta um toque especial na adaptação do romance de John Updike, pois a guerra dos sexos que se estabelece entre Jack Nicholson e Cher, Susan Sarandon e Michelle Pfeiffer solta apenas faíscas. Na premissa, as três atrizes vivem amigas solteiras seduzidas pelo mesmo homem (interpretado por Nicholson), um ricaço egocêntrico e sedutor, o que irá gerar consequências nefastas. Alguns diálogos bem escritos e defendidos, como se vê em uma clássica troca de farpas entre Cher e Nicholson, potencializam o humor.

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O Óleo de Lorenzo

Aos seis anos de idade, o menino prodígio Lorenzo Odone foi diagnosticado com uma doença raríssima chamada adrenoleucodistrofia, que prejudica progressivamente a funcionalidade da visão, da audição e da fala. Sensibilizado com a luta dos pais de Lorenzo em buscar uma cura para prolongar a vida de Lorenzo (os médicos revelaram que ele não passaria dos oito anos), George Miller se uniu ao roteirista Nick Enright para levar a história aos cinemas, encarregando-se também da direção. Infelizmente, não se conteve ao seguir os protocolos dos filmes “quero Oscar”, dramatizando em excesso o retrato real suficientemente doloroso de uma família. Incomoda principalmente o modo como Nick Nolte é orientado a compor o seu personagem, sem nenhuma sutileza. Mesmo emocionando parte do público, O Óleo de Lorenzo foi um fracasso comercial e obteve somente duas indicações ao Oscar, uma de roteiro original e outra de atriz para Susan Sarandon, que interpreta a mãe de Lorenzo.

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Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade

Quando um filme destinado ao público infantil faz um tremendo sucesso, mas tem um argumento que não permite a criação de novos episódios, a tendência é providenciar uma sequência caça-níquel e de qualidade inferior somente para engordar os cofres de um estúdio. Esse definitivamente não é o caso de Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade, um filme tão doce quanto o original dirigido por Chris Noonan. No entanto, George Miller, que se voluntariou a dirigir a continuação, se viu diante de críticas infundadas sobre a inadequação de seu material para as crianças e de estratégias equivocadas para o lançamento, o que provocou a Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade o embate direto com as animações Vida de Inseto e Os Rugrats e a demissão de Casey Silver, o então chefão da Universal. A obra injustiçada da filmografia do australiano.

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Happy Feet: O Pinguim

George Miller levou nada menos que oito anos para se recuperar do fracasso comercial monumental de Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade assumindo novamente o risco de liderar um projeto voltado aos pequenos: a animação Happy Feet: O Pinguim. A Warner Bros. vendeu bem o peixe e, além do êxito nas bilheterias, Happy Feet rendeu o primeiro e (até o momento) único Oscar para Miller ao vencer a categoria de Melhor Animação em 2007. Mais do que um filme para toda a família,Happy Feet é um musical encantador, trazendo hinos românticos contagiantes como “Somebody To Love”, “Kiss”, “Heartbreak Hotel” e “My Way” nas vozes de Elijah Wood, Brittany Murphy, Robin Williams, Nicole Kidman e Hugh Jackman. Os passos de dança dos pinguins, obtidos com o uso de sensores em dançarinos profissionais, confere um caráter realista à técnica animada.

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Happy Feet 2: O Pinguim

Nos nove longas que compõem a filmografia de George Miller, há cinco sequências. O dado curioso é uma comprovação de que a ausência de um argumento original pode acarretar em falta de inspiração. Ao contrário de Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade, Miller não apresenta em nenhum momento de Happy Feet 2: O Pinguim alguma justificativa para a sua existência. Ao contrário: o ritmo é claudicante, os números musicais desapontam, o pano de fundo familiar não emociona e a inserção de novos personagens, como os crustáceos dublados por Brad Pitt e Matt Damon, não cumprem qualquer função relevante para a narrativa. É o pior filme de sua carreira.

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Mad Max: Estrada da Fúria

Absolutamente tudo conspirava para o fracasso de Mad Max: Estrada da Fúria: a substituição do grande Mel Gibson pelo pouco carismático Tom Hardy, as constantes mudanças de cronograma para as filmagens e os adiamentos no lançamento nos cinemas, um indício de que há muitos problemas a serem revertidos na ilha de edição. Felizmente, as estimativas pouco favoráveis não condizem com o resultado final, no qual George Miller outra vez revê a saga que o levou a fama ao capturar temas pertinentes ao nosso contexto, como o esgotamento de recursos naturais e o empoderamento feminino, como combustíveis de uma ação insana e em movimento contínuo.

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Alex Gonçalves

Jornalista em formação, é editor do Cine Resenhas, no ar desde 2007. Apaixonou-se por cinema aos seis anos ao alugar filmes de terror na saudosa Voyage, começou a pesquisar sobre a linguagem ao conhecer a obra de Brian De Palma e tem uma queda por Nicole Kidman e Parker Posey. É também um leitor voraz e um viciado em música, da erudita ao house.