Guia de Consumo: O Cinema de Lenny Abrahamson

Filmografia comentada: Conheça um pouco mais da obra do cineasta Lenny Abrahamson, indicado ao Oscar 2016 por O Quarto de Jack. Texto por Alex Gonçalves, do Cine Resenhas.

14/12/2015 Director Lenny Abrahamson who has directed a new film called 'The Room'. Photo: Clodagh Kilcoyne

Ao sair a lista de indicados ao Oscar 2016, muitos já tinham sido arrebatados por “O Quarto do Jack”. Entretanto, a presença de Lenny Abrahamson entre os finalistas a Melhor Diretor pegou praticamente todos desprevenidos. Embora os fãs de “Carol” e “Perdido em Marte” o acusem de ter ocupado uma vaga que as previsões apontaram ser ocupada por Todd Haynes ou Ridley Scott, é justo dizer que realizou um trabalho tão bom (quanto George Miller e Tom McCarthy) ou melhor (que Adam McKay e Alejandro González Iñárritu) em comparação com os colegas finalistas.

O que poucos cinéfilos sabem é que “O Quarto de Jack” é o alcance de uma excelência que teve uma carreira não composta previamente apenas por “Frank”, dramédia musical com Michael Fassbender que fez sucesso no circuito alternativo. Outros três longas compõem a filmografia de Abrahamson, todos inéditos no Brasil.

Nascido em Dublin em 1966, Lenny, que antes de “O Quarto de Jack” assinava como Leonard, estudou física e psicologia, mas manteve uma trajetória paralela como diretor de curtas e comerciais. Rodado em 1991, “3 Joes” é o primeiro registro de sua filmografia, tendo inclusive no elenco o hoje famoso Dominic West. Inclinado ao mundo da publicidade, voltou a se interessar por cinema 13 anos depois, debutando no longa-metragem com “Adam & Paul”. Posteriormente, assinou “Garage” (2007) e “What Richard Did” (2012), representando um período de altos e baixos, natural para um diretor que hoje experimenta o sabor da consagração.

Adam & Paul

Adam & Paul - Lenny Abrahamson

Aos 38 anos, Lenny Abrahamson estreou na direção com o pé direito em “Adam & Paul”. Usa a sua Dublin natal como o cenário em que transitam os personagens-título, dois jovens viciados em drogas com os pés na reta que separa o convívio social da marginalidade, revendo figuras então constantes em seus cotidianos ao mesmo tempo em que driblam adversidades como a falta de dinheiro e a de um teto para dormirem. O uso de humor de algum modo colabora para tornar ainda mais mordaz o registro e Mark O’Halloran (que também assina o roteiro) e Tom Murphy (morto em 2007 após uma batalha contra um câncer) são tão autênticos como Adam e Paul que chegaram até mesmo a ser confundidos como moradores de rua durante as filmagens.


Garage

Garage - Lenny Abrahamson

Ainda que tenha recebido bons elogios da crítica irlandesa especializada e chamado a atenção no Festival de Cannes (onde venceu um prêmio especial da Confédération Internationale des Cinémas d’Art et Essai), sente-se que Garage não passa de um drama de observação sobre o cotidiano banal de um protagonista atolado em uma existência inexpressiva. Em nova parceria com o roteirista Mark O’Halloran, acompanhamos Josie (Pat Shortt), um quarentão que trabalha em um posto de gasolina. Durante o verão rural, decide contratar um rapaz de 15 anos como ajudante, vindo assim uma relação que permitirá aflorar um pouco da intimidade desse sujeito solitário. Um conflito preparado para o clímax não colabora para o filme alçar voos mais altos.


What Richard Did

What Richard Did - Lenny Abrahamson

Quando um diretor começa bem e segue com um trabalho inexpressivo – ou vice-versa -, fala-se muito sobre a “crise do terceiro filme”, aquela que poderá definir os rumos que uma carreira tomará. Em retrospecto, nada muito otimista seria dito sobre Lenny Abrahamson, pois What Richard Did é o seu pior trabalho. Qualquer tentativa em construir um conto moral relevante é imediatamente arruinada pelo desenho nada convidativo de Richard Karlsen, personagem central interpretado por Jack Reynor. Se a primeira metade da narrativa trata apenas de acompanhar a vida aborrecida de um mauricinho desinteressante, a segunda frustra ainda mais ao tentar criar um elo de empatia com o público diante de um ato inconsequente que se converte em tragédia. Superprotegido, Richard recebe até mesmo de seu pai as chaves de sua casa na praia, um refúgio para lamúrias que só nos fazem ter ainda mais desprezo por sua figura e, consequentemente, pelo filme.


Frank

Michael Fassbender as Frank

Com a carreira estabelecida em Hollywood, Michael Fassbender foi ousado ao se propor a viver Frank, líder de uma banda de rock que passa todo o tempo com uma cabeça gigante para ocultar a sua verdadeira face. No mínimo esquisita, essa dramédia musical confirma pela primeira vez as pretensões Lenny Abrahamson em expandir o seu cinema para além da Irlanda. Também trazendo a bordo o irlandês em ascensão Domhnall Gleeson e Maggie Gyllenhaal, Frank acompanha com graça o percurso do sucesso artístico ao inserir as excentricidades à altura de conjunto underground fictício. O filme só parece atingir um limite em sua reta final, expondo um drama sobre traumas que não harmoniza adequadamente com o todo.


O Quarto de Jack

file_611874_room-picture

Mesmo que as principais virtudes de seus trabalhos prévios sejam reconhecidas de algum modo, Lenny Abrahamson renasce em O Quarto de Jack. Não à toa, é o primeiro trabalho como diretor em que não assina como o habitual Leonard Abrahamson. A partir do roteiro assinado por Emma Donoghue, por sua vez adaptado de seu próprio romance, acompanha-se o cárcere angustiante de Ma (Brie Larson) e seu filho Jack (Jacob Tremblay), que completa cinco anos sem ter visto uma vez sequer o mundo fora da “prisão” de poucos metros quadrados em que são mantidos por razões que desconhece. Há dois momentos em O Quarto de Jack: a imaginação e o amor maternal em um espaço restritivo e a readaptação e a desproteção de uma realidade externa e ampla. Por situar tão bem os seus personagens em ambos, inclusive com soluções visuais, a escolha de Lenny Abrahamson entre os finalistas ao Oscar de Melhor Diretor é uma surpresa que celebra o ápice de sua carreira e gera expectativas para o seu próximo projeto em desenvolvimento, A Man’s World.

Alex Gonçalves

Jornalista em formação, é editor do Cine Resenhas, no ar desde 2007. Apaixonou-se por cinema aos seis anos ao alugar filmes de terror na saudosa Voyage, começou a pesquisar sobre a linguagem ao conhecer a obra de Brian De Palma e tem uma queda por Nicole Kidman e Parker Posey. É também um leitor voraz e um viciado em música, da erudita ao house.