Cinema por quem entende mais de mesa de bar

O melhor do cinema nacional em 2016

#5 O Roubo da Taça, de Caito Ortiz
Raridade em nossas comédias, O Roubo da Taça consegue fazer com que a narrativa iguale o mesmo refinamento de sua estética. Com senso de ritmo, Caito Ortiz também é dono de um bom timing cômico, jamais permitindo que o humor se exceda ao ponto de fazer chacota de uma história verídica com alguns traços sombrios. Outra distinção é como os personagens parecem estar diante de uma linha invisível que separa o heroísmo da vilania, um alívio em uma safra popular do cinema nacional que se preocupa tanto em fabricar lições de moral.

#4 O Silêncio do Céu, de Marco Dutra
Segunda parceira com o produtor Rodrigo Teixeira (com quem trabalhou em Quando Eu Era Vivo), O Silêncio do Céu permite a Marco Dutra evoluir como um contador de histórias deixando um pouco de lado os elementos sobrenaturais de sua obra sem antes resgatar a excentricidade que eles têm. Não é à toa que o sentimento de estranheza se manifesta como nunca na presença da extraordinária Mirella Pascual, fazendo do arrastar de pé de sua personagem o melhor símbolo para expressar uma deformidade coletiva. É o melhor trabalho até aqui de Dutra.

- Advertisement -

#3 Nise – O Coração da Loucura, de Roberto Berliner
Se o recorte selecionado deixa o público no escuro quanto à privacidade de Nise, por outro a enriquece como a articuladora de um processo de recuperação de seus “clientes”, aproximando-nos de um universo a princípio complicado de se dialogar que vai se modelando a partir de telas que dão cores a um ambiente acinzentado e formas a traumas e anseios antes abstratos. Mais atento a observação do que a exploração de dados sobre Nise, Roberto Berliner faz um importante testamento de um acontecimento verídico em que a arte novamente se mostra como o meio de verbalização para a recuperação de nossa estabilidade.

#2 Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil, de Marco Del Fiol
O cineasta Marco Del Fiol faz um registro esteticamente singular da peregrinação de Marina Abramovic e não se furta de exibir flagras íntimos da artista de 69 anos. Mas é no poder em nos transformar em testemunhas estrangeiras de nosso próprio território que está o encanto de Espaço Além. Autora de uma arte preocupada em repensar o tempo, a purificação da alma e como um ambiente é apropriado por um corpo, Abramovic agora se volta para a beleza que há em uma diversidade de crenças que deve ser reconhecida.

#1 Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
Há 20 anos sem protagonizar um longa-metragem brasileiro (o último pôster que estampou foi o de “Tieta do Agreste”, de Carlos Diegues), Sonia Braga é o coração que pulsa “Aquarius”. A veterana atriz se entrega de corpo e alma à Clara, um papel que não se exime de também compreender a vivacidade que há na velhice e que ainda a presenteia com instantes de fortes explosões dramáticas, especialmente quando a sua relação com o personagem de Humberto Carrão passa a ter as máscaras da cordialidade caídas.

Além da contribuição inestimável de Sonia Braga, Clara expõe outras dimensões quando problematizada pelo texto, tendo em seu encalço uma figura de grande influência tentando persuadi-la ao mesmo tempo em que os abismos sociais são deflagrados em uma Recife com territórios literalmente demarcados. Trata-se do investimento em um discurso que dá ao todo um excesso que poderia ser eliminado, mas que não nos faz desviar do principal atrativo de “Aquarius”: os valores de gerações que se atraem ou se repelem a partir da defesa de seus interesses particulares.