Graciela Paciência e os filmes assistidos em junho

ESSE MÊS TEM A ESTREIA DA GRACIELA PACIÊNCIA NA NOSSA LISTA MENSAL DE RECOMENDAÇÕES PESSOAIS COM O QUE ASSISTIMOS AO LONGO DOS ÚLTIMOS 30 DIAS. Confira:

1) O Filho de Saul
É bem verdade que já existem diversos filmes passados durante a II Guerra Mundial e acredito que muitos deles ainda possam ter alguma relevância, mas não é o caso do húngaro O Filho de Saul, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro. A história de Saul é agoniante e gera torcida para o protagonista, mas não é nada além de um bom filme. A propósito, a câmera tão próxima do protagonista o tempo todo, apesar de bem intencionada, incomoda.

2) O Congresso Futurista
Utópico e complexo, o filme discute ética e tudo o que pode vir à tona a partir disso. Apesar de Robin Wright interpretar a si mesma, é evidente que a mistura de animação e live action explora todo o potencial da atriz, que nem sempre é mostrado com excelência. Demorei um pouco para digeri-lo, mas meu veredicto é positivo.

3) Alice Através do Espelho
Longe de ser memorável, mas é divertido e cumpre bem o papel de entreter. A sequência de Alice no País das Maravilhas conta com um personagem que rende muito, o Tempo. Pode não contar com a direção de Tim Burton, porém James Bobin (Muppets) foi bastante competente.

4) Anomalisa
A animação de Charlie Kaufman pode causar estranhamento em quem não está acostumado com seu trabalho, mas isso é momentâneo e a sutileza do filme conquista. Ao mesmo tempo em que se trata de um filme fofo, é perturbador quando mostra as consequências da solidão não aparente e evidencia o poder de uma pessoa sobre a outra.

5) O Novíssimo Testamento
A comédia belga de Jaco Van Dormael (Sr. Ninguém e O Oitavo Dia) apresenta Deus como um sádico que tem como diversão detonar a vida dos pobres mortais e controla tudo através de um computador. Mas a festa acaba quando sua filha rebelde Ea, de 10 anos, resolve comunicar a todos as datas de suas respectivas mortes e parte em busca de novos discípulos para escrever o novíssimo testamento. Apesar da aventura da garota, é Deus (Benoît Poelvoorde, de Românticos Anônimos) quem carrega a maior parte do tom cômico do filme. Começa muito bem, desliza na pieguice e volta triunfante para um final digno.

Rocky

6) Rocky – Um Lutador
A história de um lutador que levava uma vida simples e trabalhava como cobrador para um agiota é encantadora porque não conta a trajetória de superação após anos na curtição. Trata-se do crescimento pessoal e profissional de um cara simples que dificilmente teria uma oportunidade de se destacar e resolve aproveitar quando essa oportunidade surge. A simplicidade da vida do protagonista e suas boas intenções nos fazem torcer para que ele obtenha sucesso em todos os campos e seu intenso treino é estimulante.

7) A Bruxa
O primeiro longa de Robert Eggers é tenso e foge do terror tradicional. O clima opressor do século XVII é constante e, aos poucos, traça o destino da família que acusa a filha mais velha de ser uma bruxa. Fica evidente o julgamento pelo fato da garota ter opinião e nem sempre concordar com tudo o que lhe é imposto, apesar de ser obediente e seguir os costumes da época.

8) O Escaravelho do Diabo
Eu entendo a apreensão de quem leu o livro de Lúcia Machado de Almeida na infância ou adolescência. Afinal, trata-se de um suspense para o público infanto-juvenil escrito por uma autora brasileira numa época em que poucos tinham acesso a livros e ficou famosa através dos catálogos disponíveis nas escolas. Porém, a adaptação foi bem feita e mescla o clima de cidade pequena com a praticidade da tecnologia atual. Não dá pra dizer que o elenco é impecável, mas tem Marcos Caruso e Jonas Bloch pra nos salvar. É possível apreciá-lo, desde que o espectador esteja disposto a entrar no clima.

9) A Ovelha Negra
Grande filme do islandês Grímur Hákonarson que, infelizmente, ficou de fora da lista final de indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro (uma pena, já que está quase no nível de Cinco Graças e é muito melhor do que O Filho de Saul). A história dos irmãos que não se falam há 40 anos e precisam se unir por uma causa maior é divertida, sensível e comovente. O filme exibe o clima gélido da região, apresenta a rotina dos criadores de ovelhas através de poucos diálogos e ganha força quando a doença de um dos animais coloca os dois irmãos em uma posição de resistência.

10) Nossa Irmã Mais Nova
A história é sensível, belíssima e tem potencial, mas os personagens são pouco explorados e tudo acaba se prolongando demais sem necessidade, o que o torna o filme mais fraco que assisti do Hirokazu Koreeda, de Ninguém Pode Saber e O que eu Mais Desejo. Característica da obra do diretor, fica visível o mal uso que fazemos das relações humanas e seu maior êxito em Nossa Irmã Mais Nova é mostrar de modo tão singelo o dia a dia entre pessoas que se amam, apesar das discussões sem grande importância, além de nos fazer refletir sobre algumas birras que temos e muitas vezes não percebemos.

Graciela Paciência

Graciela Paciência nasceu e cresceu em São Paulo. Por muito tempo acreditou que seu futuro estivesse na direção de videoclipes, mas agora prefere gastar seu tempo livre no cinema, em frente à TV ou na companhia de um bom livro. Gosta de Stephen King, clássicos e cinema europeu. Suas metas de consumo estão (quase) sempre atrasadas, mas o importante é seguir em frente.