Os 80 anos de Roman Polanski

Roman Polanski

A vida conturbada de Roman Polanski muitas vezes rouba os holofotes de seus filmes. Nascido em 1933, na Polônia pré-Segunda Guerra, o então garoto foi um sobrevivente, mas acabou perdendo sua mãe em um campo de concentração. Anos depois, sua esposa, a bela atriz Sharon Tate, com apenas 26 anos e grávida de oito meses de um filho do cineasta foi brutalmente assassinada em sua casa pela seita de Charles Manson.

Na década de 70, foi acusado de estuprar uma garota de 13 anos. Ele então fugiu para a Europa e desde então nunca mais pode pisar nos Estados Unidos. Casou com a atriz francesa Emmanuelle Seigner, 33 anos mais nova do que ele, e terminou o filme O Escritor Fantasma da cadeia (cumprindo pena pelo crime cometido 30 anos antes).

No entanto, não seria nada justo deixar toda esta história ocultar o brilhantismo de Polanski, que tem como marca registrada retratar o mais íntimo de seus personagens nos ambientes em que vivem, normalmente apartamentos claustrofóbicos.

O diretor e roteirista que sabe extrair o que há de mais interno de seus complexos personagens completa 80 anos hoje,e o Cinema de Buteco te dá cinco motivos pelos quais a carreira de Polanski deve ser celebrada.

Aproveite sem moderação.

Repulsa ao Sexo

Repulsa ao Sexo, 1965

O filme conta a história de uma mulher reprimida sexualmente e que após ficar sozinha no apartamento durante uma viagem da irmã com o amante, começa a enlouquecer. Catherine Deneuve (Dançando no Escuro) interpreta Carole, uma bela e frígida mulher que lida da pior maneira possível com o seu inconsciente e dramas do passado. O trabalho da atriz é incrível, ganhando ainda mais força com o uso da trilha sonora em momentos importantes e que conduzem o filme para a sua inevitável conclusão.(…)

O grande trunfo de Polanski e seu Repulsa ao Sexo é a maneira como o terror psicológico é desenvolvido de maneira incômoda e perturbadora, onde não se sabe ao certo até onde Carole é vítima de si mesma ou de outras pessoas. A esquizofrenia da personagem fica ainda mais interessante se observado alguns detalhes relevantes do roteiro: o fato dela trabalhar num salão de beleza e sempre estar próxima o suficiente de ouvir uma mulher reclamando de seu marido; a maneira como os homens a observavam na rua, o que a tornava um zumbi frígido e belo; e claro, o fato de Deneuve ser uma das mulheres mais bonitas do cinema. Repulsa ao Sexo tem o seu lado crítico dos padrões de beleza, mas o interessante é realmente observar a decadência de uma mulher enquanto ela se deixa vencer pelo medo de viver e superar seus dramas. (Tullio Dias)

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A Dança dos Vampiros, 1967

Em 1968, o cineasta Roman Polanski provou ao mundo a sua genialidade para o terror com O Bebê de Rosemary. No entanto, poucos lembram que no ano anterior ela já havia sido demonstrada, mas com um divertido toque de humor, em A Dança dos Vampiros. No longa, o diretor interpreta Alfred, que viaja com o professor Abronsius para caçar vampiros em um castelo na Transilvânia. Lá ele se apaixona pela filha dos proprietários, interpretada pela linda Sharon Tate, que depois casou com Polanski e todos sabem o final trágico dessa história (se não sabem, o Google ta aí). O nome em português remete à famosa e divertida cena do baile, na qual apenas três pessoas, em todo o salão, são refletidas em um espelho. (Larissa Padron)

O Bebê de Rosemary

O Bebê de Rosemary, 1968

O Bebê de Rosemary, filme que se tornou terror cult dirigido por Roman Polansky é intrigante. Mais do que a história de Rosemary (vivida por uma jovem e bela Mia Farrow), que grávida se vê envolvida com rituais de bruxaria ligados ao nascimento do possível filho do demônio é uma história que trata de um eterno mistério. O fato é que nunca se sabe o que é real ou o que é uma alucinação de Rosemary, fruto de uma possível depressão pós-parto. Fato também é que essa tensão garante mais suspense ao filme, porque se as pessoas não acreditam no que a protagonista diz, nós também nunca teremos certeza. As coincidências são grandes. A cena da possessão demoníaca é assustadora e macabra. As interpretações estão sensacionais (o filme ganhou o Oscar de Atriz Coadjuvante). A cena inicial, com a inocente Rosemary e sua musica de ninar inocente…

A cena final, mostra que o amor de mãe é realmente incondicional, acima do bem e do mal que existe, está a espreita, esperando a melhor hora para vir à tona. Detalhe para o fato de que o filme é uma adaptação do Best Seller de Ira Levin, autora também do livro que deu origem ao ótimo filme da década de 70, Stepford Wives (refilmado com Nicole Kidman no elenco).  (João Paulo Andrade)
Chinatown
Chinatown, 1974

A influência Noir bateu forte na era da chamada “Nova Hollywood”. Uma das obras que mais seguem essa linha é o clássico Chinatown.O filme se passa no ano de 1937, em Chicago. Jake Gittes é um detetive da região, mas já foi policial em Chinatown. Segundo Gittes, tudo era pior naquele bairro de chineses. (…)

O time envolvido em Chinatown é de primeira: Roman Polanski como diretor, o roteirista Robert Towne, o grande Jack Nicholson como protagonista e a atriz Faye Dunaway. O resultado é um filme impecável, sóbrio e ao mesmo tempo gelado. A beleza da obra está em todas as partes: o roteiro, no cenário, figurino, fotografia… Até Nicholson ficou bonitão.

Polanski passava por momentos difíceis. O diretor havia ficado viúvo de Sharon Tate (morta brutalmente em 1969) e por isso vivia um momento de fúria e reclusão. Ao retratar Chinatown de forma nua e crua, o diretor foi certeiro e fez juz à sua geração hollywoodiana: não havia mocinho ou bandido, todos eram culpados por algo. Essa conversa de “final feliz” já acabou há muito tempo.  Em resumo: o filme é genial. (Thaís Vieira)

O Pianista

O Pianista, 2002

Com apenas sete anos de idade, durante a Segunda Guerra, o polonês (meio judeu, meio católico), Roman Polanski levou uma surra de um oficial nazista que quase o matou. Com a mesma idade, ele conseguiu escapar de um gheto ao fingir que iria visitar a família católica, mas passou os cinco anos seguintes vivendo nas ruas. Aos 12 foi forçado a ajudar um oficial nazista enquanto este fuzilava pessoas. Com a mesma idade conseguiu reencontrar o pai, que foi um sobrevivente de um campo de concentração austríaco. Sua mãe não teve a mesma sorte e foi assassinada em Auschwitz.

Poucas décadas depois, Polanski se tornou um famoso diretor de cinema. Mas foram necessários quase 60 anos para que ele conseguisse colocar a Segunda Guerra em película com O Pianista. O filme narra a história real do pianista Wladyslaw Szpilman, que sobreviveu a mesma guerra com a ajuda de judeus, do seu talento e até mesmo de oficiais nazistas, mas não sem passar por muitas dificuldades, medos e de presenciar cenas como ver uma criança morrer a golpes de cassetetes ao tentar atravessar um muro.

Toda a espera parece ter valido a pena. Polanski realizou o seu filme mais emocionante, corajoso e justo, já que mesmo tendo todos os motivos do mundo, o diretor não vilaniza nenhum personagem nazista. O nazismo como um todo é o vilão que a História confirma. A coragem e talento foram recompensados, com uma Palma de Ouro e três oscars: Melhor Ator para Adrien Brody, Melhor Roteiro Adaptado para Ronald Harwood e Melhor Diretor para Polanski. (Larissa Padron)

Veja também as críticas de Faca na Água, Busca FrenéticaO Último PortalO Escritor Fantasma e Deus da Carnificina.

Larissa Padron

Larissa Padron é jornalista pela UFMG e apaixonada por cinema desde pequenininha (o que ela ainda é). Nas horas vagas dança sem música na cozinha, treina o discurso para o Oscar com o shampoo e coloca uns vídeo no Youtube.