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Top 10 – Os Melhores filmes europeus de 2016

 

O cinema europeu é muito rico, diversificado e rende títulos com diferentes abordagens. Em 2016 vimos uma variedade de boas histórias e selecionamos as 10 mais expressivas. Apreciem sem moderação!

10) Loucas de Alegria (Itália)

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Com passagens que lembram Thelma e Louise, o filme do italiano Paolo Virzi expõe a depressão. Partindo de duas mulheres completamente diferentes, Beatrice e Donatella, o diretor cria situações em que a melancolia e a solidão falam mais alto, ainda que as personagens tentem reverter a situação. Não pense que Loucas de Alegria é um filme triste. Paolo Virzi conseguiu construir uma história em que suas protagonistas clamam por alegria e são pouco compreendidas. Um dos pontos positivos da narrativa é não se prender a personagens politicamente corretos. Em diálogos discretos, podemos identificar a xenofobia, o racimo e o preconceito na cabeça de alguém que não tem dinheiro algum no bolso, mas gosta de muito luxo. Além da direção admirável, merece reconhecimento também o trabalho das atrizes Valéria Bruni Tedeschi e Micaela Ramazzotti, que conseguem mostrar a complexidade dos sentimentos e das ações de quem sofre de depressão.

9) Julieta (Espanha)

O filme de Pedro Almodóvar causou um certo estranhamento no primeiro momento, mas é necessário ter sensibilidade e analisar a situação. Ainda que não seja um novo A Pele que Habito ou Fale Com Ela, é um filme sobre mulheres e, mais do que isso, é sobre relação entre mãe e filha. A adaptação de três contos da canadense Alice Munro mostra uma mulher que tem tudo pronto para mudar de país, mas um encontro inesperado com a amiga de sua filha a faz voltar atrás e relatar sua história em uma carta. Mesmo que mais contido, menos explícito e incompreendido, Julieta ainda tem muitos elementos do trabalho do cineasta espanhol. As mulheres, as cores, os planos e as mudanças na história estão presentes e percebemos que o resultado é, sim, um bom trabalho de Almodóvar.

8) O Novíssimo Testamento (Bélgica)

Questionamentos sobre a existência de Deus são feitos todos os dias. O filme de Jacó Van Dormael mostra grande ousadia ao retratar um Deus machista, sádico e opressor que, usando o computador, se diverte ao transformar a vida dos humanos em um inferno. O que ele não imaginava é que sua filha de apenas 10 anos pudesse acabar com essa rotina confortável. Ea instala o caos na Terra e busca seus próprios discípulos para escrever o novíssimo testamento. O filme pode pecar um pouquinho na pieguice em alguns momentos, mas a volta por cima vale a pena.

7) Desajustados (Islândia)

Um verdadeiro retrato da solidão na atualidade, o filme mostra através do tímido Fúsi o desdém com que as pessoas se tratam hoje em dia. Ele sofre bullying no trabalho diariamente, mas não reage e não verbaliza o acontecimento. Prefere dedicar seu tempo livre aos pequenos prazeres da vida, como sua paixão por reconstruir batalhas da 2ª Guerra Mundial. Ao conhecer a garotinha Hera, ele consegue desenvolver uma nova amizade, mas o que parece algo inocente para alguns, pode ter outra conotação para outros. Fúsi conhece também uma mulher apaixonada por flores chamada Sjöfn e, somado aos outros acontecimentos de sua vida monótona, isso pode trazer uma nova perspectiva a Fúsi e forçá-lo a tomar algumas providências. Aos poucos, o personagem precisa conquistar uma vida adulta, por mais difícil que ela seja.

6) Marguerite (França)

Você consegue imaginar um pintor sem habilidade manual? Um escritor sem imaginação? Ou um dançarino que não sabe dançar? Da mesma maneira é inconcebível pensar em uma cantora lírica sem talento aparente e desafinada. No começo do longa, é possível se permitir dar risadas leves porque a situação parece improvável, mas com o desenrolar da história sobre a cantora que promovia concertos privados em sua mansão, é mais provável que o espectador se mostre solidário e tenha vontade de acabar com a ilusão de Marguerite. Quando ela decide se expor e cantar para o público a preocupação das pessoas mais próximas é como contornar a situação. A cantora se torna o exemplo perfeito de “pobre garota rica”, pois vemos que sua riqueza lhe permite alimentar uma ilusão sem fim, enquanto ninguém parece ter coragem de falar a verdade.

https://www.youtube.com/watch?v=fTYikeCrlPc

5) Chocolate (França)

Não pense que se trata “apenas” do filme sobre o primeiro artista de circo negro. Chocolate denuncia o racismo forte entre o final do século XIX e o início do século XX. Rafael Padilha (Omar Sy) trabalha na companhia de um palhaço branco e o acompanha em sua ascensão no ramo. Porém, o que muitos não percebem, é que a aceitação do artista negro é limitada. Ele pode ser aplaudido ao se submeter às apresentações que conotam humilhação que ninguém admite, mas é repreendido quando se sente seguro e se permite andar pelas ruas bem vestido e bem acompanhado. Pior do que isso, ao tentar se impor e exigir o que é seu por direito, o artista encontra desdém e descaso em diversos lugares. Com direção emocionante de Roschdy Zem e interpretações memoráveis de Omar Sy e James Thiérrée, Chocolate emociona, mas também choca os desavisados.

4) Boa Noite, Mamãe (Áustria)

Com ecos de Violência Gratuita (1997), de Michael Haneke, Boa Noite, Mamãe mostra dois irmãos que vivem no campo e gostam da companhia um do outro no dia a dia. Eles são cúmplices nas brincadeiras diárias e começam a se questionar depois que a mãe volta do hospital após uma cirurgia no rosto e demonstra uma crescente frieza, principalmente em relação a um deles. Com gazes que ocultam a maior parte das expressões da mulher, os dois irmãos decidem partir para o tudo ou nada e torturar a mãe até ela contar-lhes a verdade.

Entre perguntas que podem surgir no início ou ao longo da história, o filme responde aos poucos os nossos questionamentos, e isso o torna ainda mais arrepiante.

3) A Ovelha negra (Islândia)

O filme de Grímur Hákonarson representou a Islândia no Oscar 2016, mas infelizmente não ficou entre os finalistas. Mostra o dia a dia de dois irmãos que são criadores de ovelhas e não conversam há 40 anos. A rotina deles muda quando percebem que uma doença pode estar afetando os animais, então é necessário que eles esqueçam as diferenças e se unam por uma causa maior. Começa de maneira divertida e com poucos diálogos, mas aos poucos fica sensível e comovente. O espectador se torna cúmplice dos irmãos e sente a claustrofobia que o clima gélido da região pode causar.

2) Elle (França)

O estupro que introduz o espectador a Elle teria o poder de abalar qualquer pessoa, mas Michèle (Isabelle Huppert) não se permite ter um momento de fraqueza ou se declarar vítima. Ao invés disso, ela prefere se manter firme e, até mesmo, disposta a enfrentar seu agressor se for necessário. Michèle tem o poder de roubar toda atenção do espectador e suas ações são as que mais afetam as pessoas próximas a ela, mas isso não é problema pra quem não se importa com ninguém. É admirável o suspense do filme, que vira drama e exibe personagens que sabem jogar, mas que desconhecem o perigo desse jogo.

1) Cinco Graças (França)

Quando uma garota apresenta os primeiros sinais de que vai atingir a puberdade, uma postura rígida é cobrada dela. Aprendemos desde cedo a não nos expor e a impor limites a todos, sem levar em conta as nossas vontades ou curiosidades. Essa cobrança surge cada vez mais cedo e é costume ocorrer antes da garota saber o que é malícia. Cinco Graças mostra essa cobrança de postura “adequada” entre irmãs que são criadas pelo tio e pela avó e possuem opiniões e vontades distintas, mas com algo em comum: a sede de felicidade e de liberdade. O filme expõe esse comportamento adulto de maneira simples e realista, mas comovente.

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