Feud: Bette and Joan – Review de temporada

Ryan Murphy está cada vez mais consolidando seu império televisivo, lançando série atrás de série, e em sua grande maioria sucessos de público e crítica, se tornando um dos principais nomes da TV americana atual, além de, junto com Charlie Brooks (criador de Black Mirror) ser um dos responsáveis por tornar antologias populares novamente, apelando para assuntos de relevância social e política e trazendo discussões e reflexões extremamente válidas e necessárias para o público que as assistem.

A nova empreitada de Ryan no universo das antologias é Feud, idealizada por ele em parceria com Jeff Cohen e Michael Zam e exibida pelo canal americano FX, com a premissa de explorar rixas de pessoas famosas e destrinchar os motivos reais por trás dessas rixas, e sua primeira temporada abordou uma das mais famosas da história de Hollywood: a entre as atrizes Bette Davis e Joan Crawford.

A temporada trouxe Susan Sarandon como Bette e Jessica Lange como Joan, e acompanha a vida das duas desde o início das gravações do filme O Que Terá Acontecido a Baby Jane, em que as duas contracenam juntas, ate o final da década de 70, quando a carreira de ambas havia declinado e a rixa entre as duas havia chegado ao limite.

Como disse acima, o intuito de Feud é trazer à tona os reais motivos por trás dessas rixas, e no caso de Bette e Joan, o principal motivo por trás de seus problemas tinha um nome: sexismo. Desde o início de suas carreiras as duas foram incentivadas pelas pessoas ao seu redor (em especial os homens) a se odiarem, com os donos dos estúdios com os quais trabalharam e a imprensa criando um clima de rivalidade que não tinha motivos para realmente acontecer, apontando coisas em uma delas para tornar a outra mais invejosa e competitiva; Joan sempre foi considerada um ícone de beleza e classe, mas não se destacava muito por seu talento como atriz, além de deixar sua vaidade comprometer muitas vezes seu trabalho, enquanto que Bette, que muitos viam como feia, sempre colocou seu talento acima de tudo, e aos 30 anos já havia ganhado dois Oscars, se tornando no final da década de 30 uma das atrizes mais respeitadas e elogiadas de Hollywood. Assim, durante muitos anos Joan era comparada a Bette por não ser tão talentosa, enquanto que Bette sempre era comparada a Joan por não ser tão bonita. Tudo isso contribuiu para que as duas não dessem bem uma com a outra.

Em 1961, as duas se uniram para as gravações de Baby Jane, terror psicológico sobre duas irmãs que eram atrizes no passado até que um acidente condena uma das duas a uma cadeira de rodas, e que atualmente viviam juntas em uma antiga mansão de Hollywood, num ambiente carregado de inveja e ressentimento, muito similar ao ambiente que as duas atrizes viviam, e durante o período de gravações todo esse clima de competição foi ainda mais incentivado (em especial pela imprensa e por Jack Warner, dono da Warner Brothers na época, que queria garantir que o ambiente das gravações fosse o mais carregado possível, visando o sucesso do filme), o que acarretou numa luta de egos de proporções catastróficas para a vida de ambas.

A história de Feud é o tipo de história que precisa ser contada como forma de alerta para as consequências do sexismo na nossa sociedade, e a série conseguiu contar essa história com maestria, combinado os talentos de Ryan Murphy como o grande contador de histórias que é, com os talentos do excelente elenco, que consegue traduzir quase que impecavelmente tudo que aconteceu na época. Jessica Lange, colaboradora frequente de Ryan, que já havia recebido dois Emmys e um Globo de Ouro por seu trabalho em American Horror Story, traz um trabalho excepcional como Joan Crawford, carregando todas as suas inseguranças e medos em sua performance, e apesar de não ter muitas semelhanças físicas com Joan, Jessica consegue superar isso e entrega uma interpretação não só fiel mas também justa e redentora, a representando da forma mais honesta e humana possível, diferente de interpretações diferentes da atriz, como a de Faye Dunaway no infame Mamãezinha Querida, filme inspirado em um livro escrito por uma das filhas adotivas de Joan a descrevendo como uma pessoa abusiva e descontrolada, e que prejudicou ainda mais sua já ruim reputação. O roteiro da série não tenta diminuir seus erros e problemas pessoais, mas sim mostrar o ser humano por trás da lenda, nos ajudando a entender o porquê dela agir como agiu, mostrando que um erro não define uma pessoa, e Jessica consegue passar toda essa vulnerabilidade brilhantemente.

Mas é em Susan Sarandon que encontramos o real destaque do elenco de Feud. Há muito tempo não via um trabalho de caracterização tão perfeccionista quanto o de Susan na série. Ela conseguiu capturar a essência de Bette Davis desde características marcantes como sua voz intensa e pontuada e seu constante sarcasmo, até detalhes mínimos e quase imperceptíveis como seu olhar e seu meio sorriso. Logo na primeira cena de Susan, que consiste em apenas uma fala numa peça de teatro você já acredita totalmente que aquela é realmente Bette Davis, e a performance a partir dessa cena só melhora conforme o restante da temporada. Surgiram inclusive piadas na internet sobre a série dizendo que a própria Bette se apossou do corpo de Susan para gravar a série, o que explicaria tamanha semelhança. Com certeza uma das atuações com maiores chances a ganhar tudo na temporada de premiações.

A série também tem um mérito muito louvável que é a evolução do talento de Ryan Murphy como diretor. Pessoalmente seu estilo de direção me incomoda, especialmente em American Horror Story, em que em muitos momentos ele tenta criar momentos de tensão com uma edição e câmera frenéticas, sendo que algo mais simples e contido seria muito mais apropriado. Mas a história é outra em Feud; ele tem um domínio extremamente seguro da câmera e da cena, e isso rende momentos simplesmente geniais, como o episódio que mostra o Oscar de 1962, em que Joan tenta sabotar a vitória de Bette, na minha opinião o melhor episódio da temporada, especialmente pela direção, que consegue traduzir toda a tensão do momento sem cair na armadilha de parecer forçado demais. Um trabalho realmente magnífico de Ryan como diretor.

Feud: Bette and Joan convida o público a refletir em problemas sociais que estão tão intrínsecos em nossa sociedade que muitas vezes podemos não perceber que existem, especialmente quando paramos para pensar que quando Ryan Murphy foi perguntado sobre qual rixa ele abordaria na segunda temporada da série, os exemplos pensados foram basicamente entre mulheres: Mariah Carey e Jennifer Lopez, Madonna e Lady Gaga, Katy Perry e Taylor Swift, ou que as próprias Susan Sarandon e Jessica Lange foram questionadas sobre haver uma rixa entre as duas, o que nos faz chegar à triste conclusão de que as coisas não mudaram tanto desde os anos 60, o que torna a série tão necessária, para que discutamos mais sobre o assunto e possamos contribuir para que a história de Bette e Joan (e de tantas outras mulheres) não se repita no futuro.

Lucas Victor

Estudante de Produção Multimídia, nerd e escritor de contos inacabados que ninguém lê. Percebeu que era cinéfilo aos 4 anos, quando estragou um vídeo cassette assistindo A Bela e a Fera sem intervalos, e desde então o vício só aumentou. Prefere DC à Marvel (fato pelo qual é extremamente criticado) e seu maior objetivo é escrever um episódio de Doctor Who.