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Review Unfamiliar: A Netflix entrega um thriller de espionagem onde a única coisa mais perigosa que os russos é o seu próprio cônjuge.

Se você acha que o maior desafio de um casamento de dezesseis anos é decidir quem tira o lixo ou aguentar o DJ set da filha adolescente, Unfamiliar está aqui para te dar um choque de realidade com sabor de Guerra Fria.

O novo thriller alemão da Netflix parte de uma premissa que parece saída de uma reunião de condomínio entre The Americans e Mr. & Mrs. Smith, mas com aquele toque de melancolia europeia onde ninguém sorri e o café sempre parece estar frio. Aqui, Meret e Simon Schäfer gerenciam um restaurante enquanto mantêm um “puxadinho” clandestino: um serviço de proteção para pessoas que precisam sumir do mapa e têm euros suficientes para não fazerem perguntas. O problema do passado é que ele é como um credor insistente; ele sempre sabe onde você mora.

Quando um cliente surge com uma bala no joelho e uma história mal contada, o castelo de cartas dos Schäfer começa a balançar. A série revela, com a precisão de um cirurgião bêbado, que o casal de ex-agentes do BND (o serviço de inteligência alemão) operava sob identidades de irmãos em Belarus lá em 2008. E é aí que a coisa fica divertida. O suspense aqui não é apenas sobre quem está atirando em quem, mas sobre o vazio existencial de descobrir que a pessoa com quem você divide a cama pode ser o maior estranho da sua vida.

A direção não perde tempo com firulas. O primeiro episódio já nos joga em um flashback em Belarus onde um tal de Koleev — um vilão russo que parece ter saído do manual “Como ser um antagonista soviético ameaçador” — deixa um rastro de sangue e uma informante grávida para trás. A série planta a semente da dúvida com a sutileza de uma granada de efeito moral: a filha dos protagonistas, Nina, é realmente filha deles ou o “espólio” de uma missão mal sucedida que eles decidiram criar como se fosse um Bonsai doméstico? É o tipo de reviravolta que serve para nos lembrar que a família é apenas um grupo de pessoas que concordaram em mentir umas para as outras até que a morte (ou um agente do GRU) os separe.

O que diferencia Unfamiliar do lixo processado que a Netflix costuma despejar no catálogo é a sua honestidade em relação à manipulação. A série te dá migalhas de informação suficientes para você se sentir inteligente, enquanto esconde o banquete principal sob uma camada de cinismo alemão. Susanne Wolff e Felix Kramer entregam performances que exalam cansaço e desconfiança. Eles não parecem super-espiões; parecem pessoas que só queriam vender Schnitzel em paz, mas que agora precisam lidar com o fato de que a confiança mútua tem o prazo de validade de um iogurte aberto no sol.

Há uma toupeira no BND, há um russo buscando vingança e há uma adolescente DJ que provavelmente vai descobrir que sua certidão de nascimento é tão real quanto uma nota de três dólares. A série flerta com o estilo de um thriller de mistério literário, mas sem as coincidências absurdas que geralmente fazem você querer jogar o controle remoto na parede. É um jogo de gato e rato onde ambos os lados estão perdendo o fôlego. Se você gosta de ver segredos sendo desenterrados com uma escavadeira enquanto o clima de “vivi uma mentira por duas décadas” paira no ar, este é o seu prato principal.

No final do dia, Unfamiliar nos lembra que a espionagem é apenas uma versão extrema da vida doméstica: todo mundo está escondendo algo, todo mundo tem um plano de contingência e, no final, alguém sempre acaba mentindo sobre quem ligou no meio da noite. É tenso, é ácido e é um lembrete de que a única coisa mais perigosa do que um inimigo declarado é um parceiro que sabe exatamente onde você guarda a sua arma de emergência e as suas piores lembranças.