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Review: O Justiceiro

Frank Castle, também conhecido como o Justiceiro, teve uma vida difícil no cinema. Foram três filmes lançados com três atores diferentes. A recepção horrorosa fez os direitos do personagem voltarem para a Marvel, que decidiu utilizá-lo inicialmente como cereja do bolo da 2ª temporada (medíocre) de Demolidor.

Jon Bernthal (o Shane de The Walking Dead) é a encarnação perfeita de Castle. Se alguém ainda tinha dúvidas disso depois de ver Demolidor, agora pode ter certeza absoluta de que o personagem finalmente está bem representado e cuidado pelos produtores da Marvel/Netflix.

Em 13 episódios com uma regularidade que surpreende até os fãs da 1ª temporada de Demolidor, e até hoje única produção realmente de qualidade da Marvel/Netflix, O Justiceiro se garante como uma das melhores séries do ano e se une ao time de produções de heróis mais adultas lançadas em 2017, como é o caso de Logan, de James Mangold.

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Gosto de tramas que apresentam elementos clássicos dos quadrinhos e não tenham medo de ousar em mudar origens para criar vilões memoráveis. No caso da série, poderíamos ficar extremamente frustrados com uma surpresa que acontece logo nos episódios iniciais, mas essa sensação muda a partir do momento em que o destino do vilão começa a ficar mais grandioso e promissor, mesmo com sua eventual queda.

Abaixo você poderá ler o review completo de O Justiceiro, a série da Netflix que resgata a esperança de ver os personagens da Marvel recebendo um tratamento mais sombrio, adulto e menos engraçadinho. Tudo com spoilers, obviamente.

Review de O Justiceiro

Em “3 AM”, episódio que inicia a temporada, conhecemos um Frank Castle isolado da realidade e do mundo. Após ser dado como morto, ele assume uma nova identidade como pedreiro e fica de boa longe de toda a violência que cerca a sua vida.

Castle até tenta se esconder nas sombras, mas ele recebe o chamado para retomar seus velhos hábitos. É brilhante a forma como o episódio permite Castle se desenvolver lentamente diante o conflito interno de permanecer ignorando seu destino. Não há pressa, não há correria. Tudo caminha naturalmente para um arco descompromissado que chega ao clímax nos minutos finais com muita violência.

Já nesse episódio somos introduzidos a Lewis, um jovem que ficou biruta depois de voltar para casa após cumprir seus deveres militares. Existem referências explícitas ao clássico do cinema Taxi Driver, o que torna “3 AM” um dos pontos altos dessa temporada. Além disso, é um episódio com começo, meio e fim. Caso alguém assista e decida abandonar a série, vai pelo menos guardar a lembrança de que viu algo conclusivo.

“Two Dead Men” introduz Micro, um aliado inesperado para a jornada de Castle para vingar a sua família. Inicialmente, Frank quer apenas descobrir quem é o “cara morto” que tem a coragem de fazer hora com a sua cara, mas logo percebe que pode tirar proveito dessa relação inusitada.

Karen Page faz a sua aparição nesse episódio e deixa no ar aquela sensação de que existe uma tensão sexual muito grande entre ela e Castle. Sabendo do seu destino nas HQ’s, me pergunto se a 3ª temporada de Demolidor não poderá colocar o Demônio de Hells Kitchen em rota de colisão com o Justiceiro mais uma vez…

Destaque para a melhor sequência de luta da série quando Castle invade a casa do policial corrupto e eles trocam socos ao som de “Ain’t That a Kick In the Head”, de Dean Martin. Inclusive, tem um post inteiro para as músicas de O Justiceiro. Acesse aqui!

A dinâmica entre Lieberman e Castle vai ficando cada vez mais interessante. Após ver Castle se aproximando de sua família e notando sua esposa um tanto atraída pelo cara, Lieberman aos poucos começa a dar indícios de ciúmes.

A série explora muito bem esse arco sem se deixar cair no besteira de dedicar tanta atenção ao ponto de estragar os personagens. O beijo previsível acontece quando a senhora Lieberman recebe Castle em sua casa depois de tomar alguns copos de vinho. Ter sabedoria de incluir arcos secundários fazendo cada trama somar na história principal é o maior trunfo de O Justiceiro.

Quando Lieberman reencontra a família nos episódios finais, nós somos presenteados com um momento belo e conclusivo. Um autêntico final feliz num mundo em que o personagem principal nunca terá a sua família de volta e recusa qualquer chance de se aproximar de pessoas novas, vide sua relação com Karen.

Aliás, o que não falta é qualidade na maneira de trabalhar cada possibilidade de O Justiceiro. A questão dos veteranos de guerra sendo tratados como lixo ou incapazes de se readaptarem à nova realidade, é algo bastante sério.

Lewis é o retrato de terroristas norte-americanos que voltam completamente pirados da guerra e acham que podem fazer o que quiser. Manipulado por um enganador, Lewis se torna uma verdadeira arma. Inevitável que recebesse uma atenção e fosse transformado numa ameaça capaz de desviar a atenção de Castle.

Enquanto muitos veículos criticaram o episódio 9 pela discussão sobre a questão das armas e uma participação desnecessária de Karen, que supostamente compromete a evolução da série por parecer apenas que estão forçando para relacionar todas as séries da Marvel. Bem. Eu acho isso uma estupidez tremenda, já que “Front Toward Enemy” está entre meus episódios favoritos da temporada.

Lewis é uma bomba relógio armada desde o 1º episódio e prestes a detonar. Karen é uma peça fundamental na discussão e os produtores souberam muito bem incluir a discussão sobre armamento numa série que é basicamente sobre um cara atirando e fazendo justiça com as próprias mãos.

A sua participação é encerrada de forma brilhante no episódio 10, “Virtue of the Vicious”, que apresenta uma narrativa fragmentada a partir da perspectiva de vários personagens envolvidos num atentado dentro de um prédio. Outro ponto alto da temporada, sem dúvida.

Lewis vira um tipo de vilão das circunstâncias. Ao decidir causar a morte de Karen e outras pessoas, ele transforma um prédio inteiro num verdadeiro inferno. Frank Castle surge como a única opção de salvação para os personagens, ainda que isso signifique correr riscos de ser capturado pela agente Madani. O resultado disso tudo é um dos melhores momentos de O Justiceiro, incluindo a conclusão com a explosão de Lewis. Literalmente.

Agora que falei de Madani pela 1ª vez, que tal tentar entender as motivações da personagem? Forte e decidida, ela começa a temporada em baixa e subestimada pelo seu chefe corrupto. Aos poucos começa a fazer suas investigações e tirar conclusões que comprometem grandes figurões do governo e da CIA.

Claramente, Madani sofre preconceitos por ser uma mulher num papel de liderança e por isso tem o seu trabalho questionado constantemente. Mesmo seu parceiro demonstra uma certa resistência em obedecer as ordens, mas é o único que mantém uma lealdade inabalável. Por isso, que quando ele é assassinado, Madani fica emocionalmente destruída e sem forças para seguir com sua investigação.

Por último, Billy Russo, conhecido pelos fãs das HQ’s como Retalho, é o personagem mais canalha da série. Egoísta e interessado apenas no próprio bolso, Russo não hesita em trair seu amigo Frank. Para ter tudo sob seu controle, até finge interesse romântico em Madani, mas tudo não passa de estratégias de manipulação para saber de tudo e estar sempre um passo a frente.

O encerramento da temporada apresenta o nascimento do Retalho numa cena em que Castle lava a alma e se vinga marcando para sempre o rosto do ex-amigo. Não é uma cena para os fracos de estômago, né?

O Justiceiro encerra seu primeiro ano como uma grande promessa para o futuro das séries da Marvel enquanto a parceria com a Netflix durar. Mesmo depois de causar furor em Demolidor, o personagem conseguiu preservar sua chama e superou qualquer expectativa nesses 13 episódios.

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