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100 filmes favoritos: as escolhas da equipe, parte 2

UMA SEMANA DEPOIS DA PUBLICAÇÃO da lista dos 100 filmes favoritos de todos os tempos do Cinema de Buteco, encerramos nossa série “top 100” com a segunda parte do post sobre as escolhas dos membros da equipe do site.

Na primeira parte, Aline Monteiro, Larissa Padron, Lucas Paio e Tullio Dias contaram como selecionaram seus 15 filmes favoritos (e as inevitáveis menções honrosas) para o top 100. Agora é a vez de Eduardo Monteiro, João Andrade, João Golin, Leonardo Lopes e Nathália Pandeló:

top1

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Eduardo Monteiro

1) As Vantagens de Ser Invisível
2) O Poderoso Chefão
3) 12 Homens e Uma Sentença
4) Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças
5) Titanic
6) Antes da Meia-Noite
7) A Origem
8) Cisne Negro
9) WALL•E
10) Los Angeles – Cidade Proibida
11) Pequena Miss Sunshine
12) Era Uma Vez no Oeste
13) Ratatouille
14) 21 Gramas
15) Beijos e Tiros

Confiando na precisão de minhas anotações, já vi cerca de 2500 filmes ao longo dos meus 23 anos. Penso que seja humanamente impossível extrair desse montante uma lista precisa, justa e ordenada de 15 melhores utilizando critérios objetivos – e, dessa forma, após inicialmente rejeitar a ideia de entrar nessa brincadeira, chutei o balde e abracei a subjetividade, que me permitiu participar do projeto sem desgaste ou peso na consciência.

Não ouso dizer que não vi filmes melhores que os 15 citados, mas compilei a lista levando em conta não só a memória afetiva e o vínculo emocional, mas também a importância que cada um deles desempenhou em momentos variados da minha cinefilia.

top2

João Andrade

Janela Indiscreta (Alfred Hitchcock, 1954)
Ano Passado em Marienbad (Alain Resnais, 1961)
Blow Up (Michelangelo Antonioni, 1966)
2001 – Uma Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968)
Pink Flamingos (John Waters, 1972)
Gritos e Sussurros (Ingmar Bergman, 1972)
O Sacrifício (Andrei Tarkovski, 1986)
Hannah e Suas Irmãs (Woody Allen, 1986)
O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e Seu Amante (Peter Greenaway, 1989)
Os Sonhadores (Bernardo Bertolucci, 2003)
Kill Bill Vol 1 (Quentin Tarantino, 2003)
Closer (Mike Nichols, 2004)
A Lula e a Baleia (Noah Baumbach, 2005)
A Origem (Christopher Nolan, 2010)
Cisne Negro (Darren Aronofsky, 2010)

Uma lista de melhores filmes:
uma lista de filmes que respondem a perguntas fundamentais para mim;
uma lista de filmes que me fez perceber que a relação com a arte pode ser, acima de tudo, afetiva;
uma lista que contenha 15 maneiras primordiais de se realizar um filme;
uma lista de filmes que me fez (re)descobrir o cinema.
Como exercício, organizei a lista pela data de lançamento dos filmes – o que me fez perceber por exemplo, que Pink Flamingos foi lançado no mesmo ano que Gritos e Sussurros; e que Os Sonhadores é do mesmo ano de Kill Bill.

top3

João Golin

1. Taxi Driver
2. O Poderoso Chefão
3. Três Homens em Conflito
4. A Árvore da Vida
5. Acossado
6. Sangue Negro
7. Deixa Ela Entrar
7. Janela Indiscreta
8. Deus e o Diabo na Terra do Sol
9. Dr Fantástico
10. A Vida de Brian
11. Annie Hall
13. A Viagem de Chihiro
14. Clube dos Cinco
15. Rei Leão

Menções honrosas:
Apocalypse Now
Bonny & Clyde
Fonte da Donzela
Exit Through The Gift Shop
Indiana Jones e a Última Cruzada
Scott Pilgrim Contra o Mundo
De Volta Para o Futuro
Rocky Horror Picture Show
Os Bons Companheiros
Monstros S.A.

É complicado explicar o motivo do meu top 15 (com algumas menções honrosas) ser o que ele é, afinal, foi uma decisão bem difícil de se tomar e eu não sei se é o que condiz mesmo com os meus favoritos (se eu fosse fazê-lo novamente, certamente seria diferente). Talvez seja necessário abandonar a precisão para fazer uma lista dessas, mas a precisão não é realmente tão importante assim. De qualquer forma, eu enrolei vários dias para terminar a lista e levei várias horas para completá-la. Mudei a ordem dos filmes diversas vezes e coloquei alguns que estavam no ranking nas menções. E mesmo assim, depois de enviá-la eu fiz modificações e faria mais algumas agora, mas eu simplesmente tive que terminá-la.

top4

Leonardo Lopes

1. Os Intocáveis
2. Sociedade dos Poetas Mortos
3. Cidadão Kane
4. Clube dos Cinco
5. O Poderoso Chefão
6. Forrest Gump – O Contador de Histórias
7. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain
8. O Enigma de Outro Mundo
9. Onde os Fracos Não Têm Vez
10. A Marselhesa
11. Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros
12. Scarface
13. Encontros e Desencontros
14. A Lula e A Baleia
15. Meia-Noite em Paris
16. Gênio Indomável
17. O Grande Ditador
18. Pi

Realizar uma lista como esta reflete muito sobre o que você sente no contexto pessoal, à altura de sua realização. Por isso mesmo, se eu a realizasse novamente hoje, certamente haveriam grandes mudanças em sua composição. Até aí, nada de novo.

Quatro títulos na lista – Os Intocáveis, Onde os Fracos Não Têm Vez, Meia-Noite em Paris e Jurassic Park –, considero de importância incalculável para eu ter me tornado um amante do Cinema. Outros quatro, sendo Sociedade dos Poetas Mortos, Gênio Indomável, Amélie Poulain e Clube dos Cinco, entraram por eu me identificar plenamente com o que eles narram, nesta época de minha vida. Pi, por exemplo, provavelmente entrou pelo tamanho do choque provocado, enquanto O Poderoso Chefão, considero atingir a perfeição na narração de uma história em tela. É difícil explicar tudo; há muito de pessoal, particular, e sentimental, equilibrado, também, com um pouco de racional, na visão cinéfila. Mas creio que nem precise de grandes explicações, afinal de contas, nenhum cinéfilo gosta de diálogos expositivos.

top5

top5Nathália Pandeló

1 – Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças
Uma das histórias de amor mais inventivas dos últimos anos, Brilho Eterno é um daqueles filmes que cativam por ser o exato oposto do que se esperaria dele. Embora trate do romance entre Joel e Clementine, o longa de Michel Gondry vai além ao trazer para a tela toda a rica imaginação de Charlie Kaufman – tanto o diretor quanto o roteirista são conhecidos por brincarem com conceitos estruturais e visuais, e transformaram uma “história de amor do século XXI” em muito mais que isso. Truques de câmera, sets e efeitos inimagináveis apenas ajudam a dar forma a uma narrativa colorida, com personagens multidimensionais e uma história que se torna um verdadeiro mosaico caótico que, no fim, faz toda aquela loucura valer a pena. Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças é tão importante para tanta gente porque ajudou a derrubar as barreiras do que muitos de nós conhecemos como modelos narrativos e deixou claro o quanto é possível inventar e contar histórias sempre de perspectivas novas, com frescor e criatividade.

2 – O Poderoso Chefão
Uma aula de cinema em sua forma mais nobre. Em 1972, Francis Ford Coppola trouxe para as telas uma obra-prima até hoje sem comparação por sua maestria no desenvolvimento de um épico familiar grandioso, dono de uma narrativa incomparável, lindamente filmado e, mais de 40 anos depois, uma referência em desenvolvimento de trama, personagens e execução técnica primorosa. Prova disso não são apenas suas sequências memoráveis (sim, eu curto O Poderoso Chefão 3), mas também seu papel permanente na cultura pop até hoje, maior marco do gênero.

3 – Fale Com Ela
Fale Com Ela pode não ser um dos filmes mais espalhafatosos de Pedro Almodóvar, mas é certamente um dos mais impactantes. Com menos cores, mas com uma história com temperos dramáticos, sombrios e até fantásticos, o diretor espanhol inverte um pouco do centro de sua obra, tão frequentemente focada em personagens femininas, para voltar a atenção para dois homens que cuidam de mulheres em coma profundo – um enfermeiro, outro companheiro, mas igualmente dedicados e ligados pelos corredores de um hospital. O que surge ali é uma história sobre os limites do amor e da obsessão que causa estranheza no espectador, apenas para orquestrar um conto grandioso e lindamente filmado que intriga, provoca e emociona. Foi uma grata surpresa encontrar esse filme passando na TV, não conseguir mudar de canal e conhecer ali o trabalho de um dos mais competentes diretores da atualidade.

4 – Se Meu Apartamento Falasse
Um dos pais da comédia romântica que teve o auge nos anos 80 e 90, Se Meu Apartamento Falasse não costuma entrar no top 3 dos filmes de Billy Wilder (cineasta que nos deu Crepúsculo dos Deuses [mais abaixo], Sabrina, Quanto mais quente melhor, Pacto de Sangue, Farrapo Humano e O Pecado Mora ao Lado, entre outras pérolas), mas quase faz parte do meu. De tão franco, modesto e singelo, o filme raramente ganha a alcunha de “grandioso” – e realmente não é – mas foi um dos marcos da criatividade na forma de retratar homens e mulheres apaixonados no cinema. O humor ligeiramente desconfortável e ansioso de Jack Lemmon encontra na adorável Shirley MacLaine o contraponto ideal para tornar essa hilária comédia de erros uma história sobre os encontros e desencontros do amor. É o tipo de filme que deixa, no final, o desejo de que outros tantos fossem mais como ele.

5 – Os Bons Companheiros
Martin Scorsese sempre se mostrou um mestre ao contar histórias que envolvem crime e violência, mas em Os Bons Companheiros ele chegou ao auge. Em 1990, Marty já trazia no currículo filmes como Caminhos Perigosos, Taxi Driver e Touro Indomável, mas em Os Bons Companheiros o diretor narra a ascensão e queda de um grupo de mafiosos com a força, o glamour e a malandragem jamais vistos em algumas das maiores referências dentro do gênero. Trabalhando novamente com Robert De Niro, também aqui no auge da maturidade que ainda o levaria a Cassino e Cabo do Medo, Scorsese adaptou a história real de Henry Hill Jr. ao lado de Nicholas Pillegi, autor do livro que inspirou o filme, transportando para as telas, com pitadas de excessos inerentes ao trabalho de Marty, para contar uma história tão impactante que nem parece real. Um verdadeiro formador de caráter para qualquer um que tenha interesse no mundo da máfia italiana.

6 – Pulp Fiction
O cinema de Quentin Tarantino em toda a sua glória. Múltiplas histórias de crime, paixão, ódio e traição com um elenco estelar e competente e uma trilha sonora pra ninguém botar defeito. Mostrando um amadurecimento considerável desde seu filme anterior, Cães de Aluguel, e com bem mais dinheiro para gastar, o diretor pode trazer à tona a sua rica imaginação com personagens exagerados, sangue e adrenalina – em uma das cenas, literalmente. Pulp Fiction foi marcante em 1994 e continua sendo para quem assiste agora, 20 anos depois (!), porque brinca com os limites do cômico e do trágico sem pedir desculpas, revelando um contador de histórias que combina uma gama de influências para construir uma linguagem própria com um potencial pop sem paralelos.

7 – Encontros e Desencontros
Sofia Coppola tinha muito a provar, e sabia disso. Talvez por esse motivo tenha ido na direção oposta dos trabalhos mais marcantes de seu pai, construindo em seu segundo filme uma narrativa minimalista que foca apenas na relação entre dois personagens – e eles sequer estão se pegando. Encontros e Desencontros é um filme difícil de se categorizar justamente porque é uma obra com bastante propriedade e personalidade. Com calma e destreza, Sofia constrói uma relação que, ao mesmo tempo em que cativa de cara, causa estranheza e faz o próprio espectador ponderar noções de amor, amizade, sucesso, companheirismo e solidão sem soar forçado. A simplicidade da história dos turistas americanos que se conhecem no bar do hotel em Tóquio tem na própria cidade, cultura e língua japonesas um personagem que ronda Bob (Bill Murray) e Charlotte (Scarlett Johansson) em sua confusa relação com aquele lugar, com as pessoas em sua vida e com eles mesmos. Talvez a definição tenha ficado perdida na tradução – não que tenha feito falta.

8 – Harry e Sally: Feitos um para o outro
Nora Ephron ensaiou criar personagens femininas inesquecíveis em Harry & Sally, que ela escreveu e Rob Reiner dirigiu. Curiosamente, todas elas eram Meg Ryan (também em Sintonia de Amor e Mensagem pra você), e nesse caso não poderia ser diferente. Nora e Rob desenvolveram personagens que iam muito além do macho sedutor e mocinha carente, colocando de forma divertida e despretensiosa questões como amizade entre homens e mulheres na mesa sem cair nos maiores clichês da “guerra dos sexos”. Diálogos deliciosos e marcantes tornam esse filme divertidíssimo e prova a relevância das protagonistas femininas (porque, acredite se quiser, o filme É da Meg Ryan) e a sua capacidade de entreter, fazer rir e ainda vender ingressos e DVDs até hoje. Reiner fez isso sem ser condescendente, e Nora deu voz a todas as Sallys daquela geração.

9 – Crepúsculo dos Deuses
Essa é talvez a obra mais grandiosa de Billy Wilder, e com razão. Vindo de filmes como Farrapo Humano e Pacto de Sangue, o diretor conseguiu ir ainda mais adiante falando sobre o próprio cinema ao contar a história de Norma Desmond, diva da era dos filmes silenciosos e que teme cair em completo ostracismo com a chegada de uma tecnologia que mudou tudo: o som. No fundo um conto trágico sobre a solidão e a natureza cíclica da própria vida, Crepúsculo dos Deuses é uma das obras mais importantes realizadas até hoje pelo impacto de sua narrativa e de seu papel na cultura popular, se fazendo relevante na era em que a chegada do som ao cinema parece tão distante.

10 – Taxi Driver
Martin Scorsese é um daqueles diretores que nunca descansam. Ele já tinha provado a que veio com Caminhos Perigosos, em pleno 1973, mas é um cara incansável que vez ou outra prova a sua relevância como um dos cineastas mais competentes que já existiram. O que o destaca entre os outros é a personalidade que traz para suas histórias com um olhar único sobre a existência humana e o que nos move – o poder, o dinheiro, o amor. Ele fez isso recentemente em O Lobo de Wall Street, mas nenhum filme de Marty tem tanto poder quanto Taxi Driver. É uma história dura, pungente e surpreendente, graças à narrativa desenvolvida com o roteiro de Paul Schrader, mas que diz tanto no diálogo quanto nas imagens e na expressividade de um Robert De Niro no auge de suas performances mais memoráveis. O diretor marca ao construir uma história de dentro da cabeça do protagonista para fora como nunca tinha sido visto antes – e provavelmente também não foi visto depois.

11 – Manhattan
Manhattan é uma comédia romântica às avessas. Sim, é engraçado e tem histórias de amor. Mas é tudo um tanto quanto triste, como as coisas tendem a ser nos filmes de Woody Allen. Nem por isso o filme deixa de ser recheado de ótimos diálogos sobre a vida, o universo e tudo mais, com uma fotografia linda em preto e branco de Gordon Willis (que também trabalhou com Woody em Noivo neurótico, noiva nervosa, A rosa púrpura do Cairo e fez toda a trilogia O Poderoso Chefão com Coppola) e ainda por cima Meryl Streep. No fim das contas, Manhattan é uma deliciosa crônica sobre relacionamentos e uma singela carta de amor à cidade onde tudo pode acontecer.

12 – O Fabuloso Destino de Amélie Poulain
A magia do cinema é mesmo uma coisa inexplicável. Enquanto permite construir verdadeiras obras de arte que estarão para sempre no panteão de filmes que serão passados adiante, também gera pequenas joias raras que, se não são eternas (só o tempo dirá), fala diretamente com uma geração ou outra. Se Amélie Poulain não se encaixa no primeiro caso, certamente faz parte do segundo grupo. O filme conquistou um pequeno grupo de admiradores com sua história doce, sua protagonista adorável e sua fotografia marcante. E para essas pessoas ele sempre trará de volta os sorrisos que provocou na primeira vez que assistiram à história da menina que decide ajudar àqueles à sua volta e encontra a amizade, o amor e a solidão em um mundo de personagens cativantes.

13 – Clube da Luta
Só depois de ler o livro de Chuck Palahniuk que deu origem ao filme de David Fincher é que percebi o quanto essa é uma adaptação muitíssimo bem feita. O seu maior acerto foi conseguir preservar boa parte do que veio da mente inventiva do autor, um dos mais contundentes de sua geração. O filme consegue brincar com as nossas próprias hipocrisias sem dar sermão e constrói uma história que prende o espectador ao assento com personagens bem desenvolvidos. Clube da Luta é o tipo de filme que engana pelo título, mas te entrega muito mais do que você pediu – no melhor sentido.

14 – Fargo
É difícil escolher um filme preferido dos irmãos Coen, mas Fargo foi o que me apresentou a esse mundo adoravelmente maluco. Bem escrito, bem dirigido e com ótimas performances, o filme foi o responsável por me abrir um mundo de possibilidades para uma geração que estava chegando com histórias novas, diferentes e cheias e personalidade para contar. Tanto foi um marco que agora está ganhando uma série de TV.

15 – Abril Despedaçado
Não importa que Tonho tenha que vingar a morte do irmão na terra do “olho por olho”. Abril Despedaçado é um filme sobre família – das origens que unem à dor da despedida. Walter Salles desenvolve mais uma história cativante e subvalorizada que traz visualmente tanto a solidão quanto a beleza do sertão em cenas verdadeiramente inesquecíveis. Essa é uma história difícil, mas ainda assim simples. Triste, mas sem dúvidas bonita em sua execução. Sinal de que são as histórias mais cotidianas, movidas por ótimos personagens, que nos marcam.