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Em nova obra, Guillermo Del Toro finca seu pés nas nuances humanas

 

No mundo do cinema, existem artistas que acabam ficando totalmente conectados a alguns gêneros específicos. Enquanto podem até procurar trabalhar com outro estilo, conseguindo executar peças com o mesmo vigor – até mesmo para mostrar que são mais do que um “mágico de um truque só” –, a associação entre esses artistas e os seus gêneros originais é bem difícil de dissipar.

Pode-se dizer que esse é o caso de grandes artistas como o ator Bela Lugosi e o diretor Alfred Hitchcock. Por sua habilidade de se apresentar frente às câmeras de forma sinistra, Lugosi acabou se tornando um dos maiores atores de sua geração quando o assunto são os gêneros de horror e terror. Já Hitchcock, por meio de sua direção e habilidade de filmar cenas que instigavam suspense, terror e horror simultaneamente em seus espectadores, é até hoje tido como um gênio desses três estilos cinematográficos, tendo sido aclamado pelo lançamento de grandes filmes como Os Pássaros, Psicose e Um Corpo que Cai.

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Existem várias contrapartes modernas para esses dois artistas. Entre eles, encontra-se o célebre diretor mexicano Guillermo Del Toro. Diretor de filmes como O Labirinto do Fauno – que é um dos melhores filmes de suspense dos anos 2000 – e A Forma da Água, Del Toro está associado ao ato de contar histórias fantásticas, que unem elementos de contos de fadas com o mundo real. Do choque entre o mundo físico e as lendas e fantasias que permeiam o folclore latino e até mesmo mundial, nascem várias tramas que vão do horror ao romance.

Del Toro, no entanto, não é um “mágico de um truque só”. E isso é algo que muito provavelmente será mostrado em Nightmare Alley, uma de suas próximas obras. Uma história muito mais tradicional do que as de suas obras anteriores e que pode ajudar Del Toro a se firmar como um grande diretor de cinema no geral.

Um novo filme, mas sem fantasias

Nightmare Alley é uma adaptação do livro de mesmo nome escrito por Willian Lindsay Gresham, que ganhou adaptação aos cinemas em 1947 – somente um ano após seu lançamento. Enquanto o livro foi um sucesso praticamente imediato graças à sua qualidade, o filme não conseguiu atingir marcas semelhantes por conta da polêmica em torno de sua temática.

No caso, a trama de Nightmare Alley – que no Brasil ganhou o nome de Beco das Almas Perdidas – tem como personagem central um charlatão no mundo do entretenimento. Em sua trajetória, ele se associa a uma psicóloga tão escusa quanto ele para extorquir quantias monetárias de grandes artistas que faziam parte da cidade de Chicago, nos Estados Unidos. Mesmo sem ter sido um sucesso de bilheteria, o filme se tornou um ícone do estilo noir, e em breve, teremos a chance de ver se Del Toro trará algo parecido para sua adaptação.

O filme que tem o mexicano como diretor contará com grande elenco, incluindo nomes como Bradley Cooper, que fará o papel do protagonista Stanton “Stan” Carlisle, Cate Blanchett, que interpretará a não mais psicóloga, e sim psiquiatra, Lilith Ritter, e Willem Dafoe, que dará vida a Clem Hoately, o anunciante do circo onde Stan começa a treinar seus truques. Inicialmente, o filme teria Leonardo Di Caprio interpretando o protagonista. Entretanto, as negociações presumidamente falharam e Cooper entrou em seu lugar.

Pontapé inicial

Ainda que Del Toro possa estar de fato buscando sair da “sina” de criar filmes sobre criaturas fantásticas, é inegável que o diretor tem muito talento para executar tais peças nas telas. As provas disso são inúmeras, desde os já mencionados O Labirinto do Fauno e A Forma da Água até filmes mais “pipoca”, como Hellboy e Blade II.

Entretanto, quem acompanhava o cinema na década de 1990, não ficou surpreso com o desenvolvimento de Del Toro nem com o fato de ele ter se tornado um dos mais celebrados diretores de seu nicho. Afinal, a qualidade de suas histórias retratando criaturas das nossas fantasias é algo que acompanha o diretor desde a sua primeira obra, Cronos, que foi lançada no México em 1993.

Em Cronos, o antiquarista Jesus Gris encontra um artefato inusitado que se instala em seu corpo. De imediato, ele sente seu vigor físico e até sua juventude retornarem. Em contrapartida, ele também desenvolve uma sede quase insaciável por sangue. O primeiro filme de Del Toro é apenas um entre vários grandes exemplos da temática vampiresca em nossas mídias, que, graças ao fascínio que temos não só com vampiros, mas com criaturas fantásticas em geral, geralmente alcançam sucesso. Isso é algo que pode ser verificado desde o livro Drácula, escrito por Bram Stoker, que impacta crítica e vendas desde seu lançamento, apesar de toda a polêmica em torno da obra. O longa Entrevista com o Vampiro, lançado em 1994 e dirigido por Neil Jordan, como podemos ler no site Adoro Cinema, foi também grande sucesso entre crítica e público. Na esfera virtual, temos o caça-níquel Blood Suckers, desenvolvido pela NetEnt e disponibilizado no site de caça níquel online Betway. O jogo abrange toda a temática vampiresca, lançando mão de túmulos, velas, representações de grandes vampiros e até das armas necessárias para combater tais criaturas. Por fim, o jogo de RPG Vampire the Masquerade ganhou uma bem-sucedida adaptação para videogames, que em breve receberá uma sequência – quase 20 anos após seu lançamento.

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Considerando as evidências, pode-se dizer que usar de vampiros como protagonistas de uma história é um recurso que tem altas chances de trazer bons resultados. Mas isso não significa que tais resultados sejam garantidos, afinal uma trama digna de nota torna-se necessária para que o produto por completo se torne um sucesso.

No caso de Del Toro, Cronos destacou-se por ser uma trama em que seu protagonista não se torna vampiro de forma tradicional, mas sim por meio de um artefato que o mesmo encontra dentro de uma estátua de arcanjo em seu antiquário. Ao contrário da forma tradicional de se transformar em um vampiro, seja por meio da criatura sugando seu sangue ou por uma maldição, Del Toro adiciona um elemento físico e mecânico no objeto que leva Jesus Gris a desenvolver sua sede por sangue.

Pé no chão

Diferentemente de Cronos e de outras tantas produções de Del Toro, Nightmare Alley é um filme de roteiro adaptado com grande elenco e com um viés de thriller muito mais forte do que suas outras tramas. Além disso, o diretor não poderá lançar mão de elementos fantásticos para “sustentar” sua história, dependendo assim muito mais da qualidade do roteiro e da sua própria capacidade de direção de cenas para que a sua nova obra seja bem-sucedida.

Pelo menos Del Toro já mostrou parte dessas qualidades em uma obra que ainda continha criaturas fantásticas, mas com uma história mais tradicional. Em A Forma da Água, que deu a Del Toro as estatuetas do Oscar nas categorias de Melhor Diretor e Melhor Filme em 2018, o foco das câmeras não é na criatura fantástica por quem a zeladora Elisa Esposito se apaixona, mas sim em Elisa, com a atriz Sally Hawkins dando um show de interpretação frente às lentes.

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Se Del Toro conseguir trazer esse nível de direção ao seu novo filme, seus fãs pouco terão a temer. Ao mesmo tempo, o diretor tem consciência de que essa será sua oportunidade de mostrar que ele é mais do que o contador de histórias fantásticas usando grandes lendas. Agora, ele contará histórias fantásticas usando pessoas de carne e osso como nós.