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Soltos em Floripa é a pior coisa da quarentena

Reality da Amazon prova que nada é tão ruim que não possa piorar.

PRODUZIR BOM ENTRETENIMENTO no formato de um reality show não é tarefa das mais difíceis. É naturalmente interessante aos olhos humanos observar seus pares convivendo sob o mesmo teto e sendo filmados (especialmente quando eles competem por algo). A interação entre essas pessoas nem sequer precisa ser enriquecedora para a audiência – como sabiamente afirma o colunista Chico Barney, não há necessidade de que o nível intelectual de seus diálogos ultrapasse “grunhidos”. Ao sintonizar num programa do tipo, o espectador tem plena consciência da recompensa que lhe aguarda: alguns minutos de diversão e uma boa dose de conflitos palpáveis. Ótimo que seja assim.

Com o perdão do nariz de cera, isso serve apenas para dizer que Soltos em Floripa é absolutamente incapaz de oferecer qualquer uma dessas coisas – e isso é grave. Grave porque, sobretudo em tempos de colapso social, econômico, de saúde pública, excesso de notícias ruins e ausência de novelas inéditas na televisão, o brasileiro merece ocupar seu tempo livre com alternativas mais dignas do que aberrações como La Casa de Papel ou coisa parecida. No que depender da nova produção da Amazon Prime Video, no entanto, temos a pior oferta do audiovisual para o período de isolamento. 

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Ao apostar todas as fichas em pilares do seu filão – um conjunto de jovens (oito) sexualmente ativos, uma mansão vistosa e um cenário paradisíaco (Florianópolis) -, o projeto ignora que isso são apenas acessórios; na ausência de um elenco bem selecionado, nenhuma relação minimamente atrativa seria gerada. Na maior parte do tempo, parecemos assistir a um interminável encontro entre estudantes do Mackenzie, frequentadores do reveillon de Jurerê, e praticantes de Crossfit. E estamos sóbrios enquanto tudo acontece.

Considerações

Não se trata de um julgamento intelectual dos indivíduos. No De Férias com o Ex, da MTV Brasil, há figuras igualmente vazias e estereotipadas, mas que geram tramas e nos fidelizam a elas. A partir de histórias pregressas (os envolvimentos anteriores dos integrantes), temos uma base sólida para narrativas de ciúmes, falso desapego, possessividade, retomadas românticas, disputas de affairs e outros atritos com os quais o público se identifica e – eis a palavra-chave – se diverte.

Na mesma medida, a casa do Big Brother Brasil, da TV Globo, magnum opus do segmento, não tem habitantes particularmente notáveis. No entanto, ao criar uma motivação (1,5 milhão de reais e alguma fama) para eles, o programa movimenta suas interações e mune de segundas intenções cada aproximação. Onde há conflitos, há personagens que os movem. É isso o que nos faz voltar a cada dia ou semana. Fossem apenas pessoas, fazendo o que quisessem fazer, não haveria razão para interesse.

Entre os participantes do Soltos em Floripa, nada se cria. Passados quatro episódios, é compreensível não se lembrar do nome de nenhum deles ou de quem se envolveu com quem.

Sexo não é tudo

Sem conseguir oferecer qualquer virtude que diferencie (ou aproxime) o seu de outros reality shows, a Amazon Prime Video investiu no sexo. Ao se aproveitar da frequência voluptuosa do grupo de solteiros e não esconder quase nada das câmeras, cada episódio apresenta uma porção de cenas bastante explícitas. Não à toa, foram seus únicos momentos a viralizar no Twitter. Faz sentido, pois temos uma geração de jovens que, embora faça menos sexo, consome muito mais conteúdo pornográfico na internet.

Para se ter uma ideia, durante o ano de 2018, o PornHub, maior portal do segmento, teve uma média de 92 milhões de acessos diários. A popularidade atinge não apenas os sites pornô, como também páginas nas redes sociais (no Twitter, em especial) integralmente dedicadas a vídeos, imagens e GIFs que estimulam a libido de seus seguidores. As cenas de Soltos em Floripa apareceram ali, mas certamente não envolveram o público para além dos minutos exibidos em suas timelines.

Ainda assim, a produção parece acreditar que “mostrar tudo”, como nenhuma outra atração televisiva faz, basta. Não à toa, as cenas sexuais se constituem apenas do ato, sem explorar tramas ou tensões anteriores. Em produtos como o BBB e o De Férias com o Ex, esses momentos são atrativos apenas porque são consequências e movem as narrativas do programa. Uma transa concretiza um casal surgido na tela ou potencializa uma briga entre participantes. O ato, em si, é o que menos importa. Por isso que as câmeras da Globo e da MTV não dão tanta atenção a ele.

Conselho

Para ver apenas duas pessoas transando (e não temos mais nada de interessante por aqui), é muito mais prático acessar um vídeo pornô. Além de gratuitos, duram cerca de um décimo do tempo de um episódio de Soltos em Floripa. A depender do seu tempo de satisfação, é claro.