Resenha: Chet Baker – Apenas um Sopro @ CCBB – BH

Começamos com cinema há oito anos. De lá pra cá, a música sempre foi um flerte, mas as séries de televisão e a literatura ganharam espaço cativo no nosso portal de informação e cultura. A partir de hoje, o Cinema de Buteco começa a falar também sobre o teatro. Nossa estreia não poderia ser melhor: Chet Baker – Apenas Um Sopro, uma obra estrelada por Paulo Miklos, que une música e cinema ao longo de sua carreira.

A peça fala sobre o retorno do lendário jazzista Chet Baker aos estúdios depois de um período afastado. Baker era uma figura polêmica e seu vício em heroína fez com que se metesse numa confusão com um grupo de pessoas que o agrediram até quebrar seus dentes. Para um trompetista, os dentes são fundamentais e na falta deles, Baker precisou se reinventar. O curioso é que ele já havia perdido um dente quanto era adolescente e isso moldou o seu estilo de tocar.

Cercado de suspeitas e desconfiança dos companheiros, Baker aparece para essa sua primeira sessão de gravação e a peça é um retrato de como teria sido esse momento. Tudo acontece num único cenário, com os personagens sendo introduzidos aos poucos (o último deles, claro, o próprio Baker) e o roteiro inteligente ficando com um humor ácido cada vez mais afiado. A música é fundamental: todos o elenco experiência tanto no campo musical quanto teatral (na verdade, alguns possuem até mais no lado musical, como é o caso de Ladislau Kardos, Piero Damiani e até de Paulo Miklos, que nunca havia atuado no teatro antes).

Kardos interpreta Phil, um jovem baterista que recebe a chance de ouro de tocar ao lado de seus ídolos. Os minutos iniciais ficam por conta de um solo de bateria empolgante, o que já me fez ter a certeza que mesmo se o texto fosse ruim, já voltaria para a casa com um sorriso imenso por causa do feeling daquele baterista. Quando Rick (Jonathas Joba) surge, a peça, inevitavelmente, passa a ser comparada com Whiplash. Rick é um cara bonachão, arisco, desbocado e que faz questão de humilhar o pobre coitado do baterista até o seu limite. Não que Whiplash tenha inventado a roda se tratando de um professor enchendo o saco de seu aluno. Afinal, quem trabalha com música certamente já cruzou o caminho de algum maluco com ouvido absoluto ou com um metrônomo inserido no cu para brigar por cada vez que você cometesse um erro. Rick faz muito bem esse papel e o público se delicia com seu senso de humor peculiar. Anna Toledo demonstra toda a sua força e independência, mesmo interpretando uma cantora que é representação das várias ex-amantes da vida de Baker, ela não se prende a sombra do artista e, assim como seus companheiros de cena, justifica o seu valor. Damiani vive o pianista David, que é um dos personagens mais equilibrados psicologicamente.

A pressão (leia-se bullying) em cima do jovem baterista é lentamente substituída pela conversa cada vez mais tensa dos músicos questionando se Chet realmente apareceria no estúdio. Ou se sequer ainda seria capaz de conseguir tocar. A direção da peça é sábia em usar o roteiro como preparação da expectativa do público, já que Chet demora um bom tempo até entrar em cena. Quando isso acontece, percebemos que os ânimos dos músicos já estão a flor da pele, e o público num estado de ansiedade tremendo. O clima é perfeito para o trompetista surgir e, mesmo com toda a sua arrogância, demonstrar sua vulnerabilidade. Excelente trabalho de linguagem corporal de Paulo Miklos, diga-se de passagem.

A parte musical me chamou mais atenção que o roteiro porque não é todo dia que tenho a chance de ouvir jazz ao vivo – mesmo por tão pouco tempo. O elenco usa o texto para realmente criar todo aquele clima de um estúdio musical, e isso é outro ponto muito positivo de Chet Baker – Apenas um Sopro. O ritmo da peça dosa momentos mais pesados do roteiro com outros de humor (na maioria das vezes usando Rick ou os comentários maldosos de Chet), o que acaba funcionando bem para cadenciar o desenvolvimento da narrativa sem deixar o público entediado.

São pouco mais de 75 minutos de duração e de muitos números musicais arrepiantes. É o suficiente para Chet Baker – Apenas um Sopro conquistar a atenção de amantes da música e de histórias bem contadas.

Serviço:
CCBB – Belo Horizonte
Praça da Liberdade, 450
14 a 25 de julho
20h
Ingressos: R$ 20

Tullio Dias

Dizem que sou legal, mas eles estão mentindo só para me agradar. Gosto de Molejo, acho Era Uma Vez no Oeste uma obra-prima, prefiro baixo de quatro cordas do que os de cinco, tenho um MBA de MKT Digital e um curso de Publicidade, não tenho filhos, não tenho um coração, mas me derreto por caipirinhas.