O prêmio que ficou do lado de fora

Hollywood gosta de diversidade — desde que ela não atrapalhe o trânsito principal. Gosta tanto que, no Critics Choice Awards 2026, resolveu inovar: o prêmio de Filme Estrangeiro foi entregue no tapete vermelho. Antes da cerimônia. Antes do palco. Antes de todo mundo entrar para a festa de verdade. Um gesto simbólico, claro. Só não ficou claro o símbolo de quê.

Foi nesse cenário que Wagner Moura fez o que Hollywood menos gosta: apontou o detalhe que estraga a foto. Ao anunciar a categoria principal mais tarde, lembrou — com ironia limpa, sem elevar a voz — da tal entrega antecipada e soltou a frase que atravessou o salão como um estilhaço educado:

“Ou como chamamos no Brasil, filme estrangeiro.”

Risos nervosos. Aplausos automáticos. A indústria reconheceu a piada — mas não o espelho.

Porque o tapete vermelho, ali, não era glamour: era ante-sala. O lugar onde se premia sem atrapalhar o roteiro principal. Onde o “mundo” é celebrado desde que chegue mais cedo e saia antes. O prêmio estava dado; o problema era onde e quando.

Wagner não acusou ninguém. Não precisava. Bastou alinhar os fatos: filmes de fora do eixo central continuam sendo tratados como exóticos de luxo — bonitos, aplaudidos, mas mantidos na área externa, longe do palco onde se define o que importa. Hollywood chama de “internacional”. No Brasil, a gente chama de “estrangeiro”. E a diferença entre os termos é exatamente o ponto.

Ao lado, Kleber Mendonça Filho funcionava como a prova viva de que o cinema feito fora do centro não pede favor, pede equidade. Não quer tapete — quer palco. Não quer tradução — quer circulação. Não quer ser apresentado como curiosidade antes da cerimônia — quer disputar a narrativa durante.

No fim, a noite seguiu como sempre. Luzes, discursos, selfies. Mas aquela entrega no tapete vermelho ficou como metáfora involuntária: o mundo é bem-vindo, contanto que não entre pela porta da frente.

Hollywood aplaudiu Wagner Moura.
O que não significa que tenha ouvido.