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Review Eden: Ron Howard constrói utopia com manual de montagem… e termina vendendo arma no terceiro ato

Utopia é fácil no papel e linda no cartaz. Difícil é morar nela. Eden, de Ron Howard, pega a história real dos alemães que, nos anos 1930, largaram tudo para “recomeçar” em Floreana (Galápagos) e transforma em vitrine do que a humanidade faz de melhor: estragar para, em seguida, dizer que “a natureza é cruel”. O filme é aquele amigo que fala “quero paz e silêncio” e, quinze minutos depois, está brigando pelo controle remoto.

Howard dirige com segurança de executivo — tudo claro, limpinho, com peças que se encaixam como Tetris (o roteiro é do Noah Pink, de Tetris, claro), e com direito a Chekhov armado: se um rifle aparece no primeiro ato, relaxa que no terceiro alguém puxa o gatilho. A eficácia da engrenagem é inegável; a alma, nem sempre.

Três utopias entram numa ilha. Adivinha quem sai?

Chegam primeiro Dr. Friedrich Ritter (Jude Law) e Dore Strauch (Vanessa Kirby), casal vegano-estoico cujo nível de comprometimento inclui o cara arrancar os próprios dentes para não depender de dentista. Eles não querem montar comuna, querem virar ideia — escrever a “filosofia que vai salvar a humanidade” enquanto Dore planta, rega e ama seu burrinho. Em seguida aportam os Wittmer: Heinz (Daniel Brühl), o filho e a nova esposa Margret (Sydney Sweeney), mais práticos, religiosos, focados em sobreviver. Aí, como se a ilha tivesse pedido um rojão, desembarca A Baronesa (Ana de Armas), de seda, batom e joias, carregada nos ombros pelos amantes/seguranças e anunciando: “hotel só para milionários”.

São três projetos incompatíveis dividindo um pedaço de rocha vulcânica sem água fácil, sem lei e sem manual de convivência. Cada grupo monta seu feudo. O que poderia ser laboratório social vira guerra fria com sol a pino: furtos de comida (com direito à melhor fala passivo-agressiva do ano: “pode me passar a carne roubada, por favor?”), sabotagens, cortejos, humilhações públicas e aquele momento inevitável em que o purista decide que também precisa de uma arma.

Natureza humana, essa velha conhecida

A graça de Eden não está em revelar que “a natureza é dura”, mas em mostrar como o verniz civilizatório descasca na primeira seca. Ritter detesta os “piedosos” Wittmer e a “decadente” Baronesa; a Baronesa usa todos como figurantes do próprio espetáculo; os Wittmer tentam manter decência enquanto carregam um mundo de contradições na fé. O roteiro de Pink amarra símbolos (o rifle, o burro, a água, as cartas de jornal) e os traz de volta no clímax, numa progressão que faria Tio Anton bater palmas. É redondo — às vezes bom demais, com aquela cara de problema resolvido em sala de roteiro.

Quando a coisa pede carne dramática, quem entrega é Sydney Sweeney. Sua Margret é o ponto de ancoragem moral: sem discursos, sem autopiedade, ela observa, aprende e (literalmente) pare sozinha numa das cenas mais fortes do filme. Ana de Armas entra como raio: magnética, perigosa, tão larger-than-life que o filme oscila de tom toda vez que ela pisa em cena — e isso é elogio e problema ao mesmo tempo. Jude Law abraça o fanático que quer ser ideia antes de ser gente; Vanessa Kirby dá peso e doçura a Dore, a pessoa mais explorada por uma utopia que não foi a dela; Daniel Brühl é retidão trincando, coerente do início ao choque final.

Ron Howard, o gerente da utopia

Visualmente, Mathias Herndl filma Floreana como o que ela é: hostil. Nada de cartão-postal: chão preto, vento que corta, mar que não perdoa. Hans Zimmer vem com uma trilha que lateja ansiedade, levantando pressão arterial à medida que os grupos colidem. Funciona. Howard, porém, gerencia tudo com mão corporativa: evita sujeira formal, expõe símbolo, sinaliza conflito, prepara payoff. Quando a narrativa exige mergulho mais sujo — as zonas cinzentas entre crença e controle, desejo e poder — o filme prefere organizar o quadro.

Isso pesa especialmente porque Eden tem três filmes dentro dele: a fábula filosófica do médico, o drama de sobrevivência dos Wittmer e a crônica barroca da Baronesa. Manter esses tons na mesma frequência é façanha; aqui, nem sempre bate. Há sequências que poderiam estar em O Ferro e o Fogo e outras que parecem A Praia com pedigree. O resultado é uma orquestra que volta e meia desafina até tocar afinadíssima no estouro final.

Darwin visita, a hipocrisia assina o livro

A entrada do milionário G. Allen Hancock (Richard Roxburgh), com seu olhar de cientista-turista, rende as leituras mais saborosas: “sobrevivência do mais apto” em Floreana vira aptidão para impor narrativa — seja no púlpito, na máquina de escrever ou no jantar absurdo onde se oficializa o furto. Utopias colapsam não por culpa da natureza, mas porque gente leva consigo o condomínio inteiro: hierarquia, vaidade, fome de sentido e de carne.

No fim, Eden acerta onde interessa: desmonta o mito da pureza. A ilha não redime ninguém; no máximo, acelera quem você já era. O purista arma o gatilho, a visionária cansa, a devota negocia, a baronesa encena. E a vida — essa inimiga do manual — faz o resto.

Vale a travessia?

Vale, com ressalvas. Você vai ver grandes atuações (Sweeney e de Armas em polos potentes), uma fotografia que corta na pele e uma trilha que ferve. Vai notar também a mão de Howard controlando o caos quando talvez o filme pedisse um pouco mais de febre. Eden é cinema de produção impecável sobre gente imperfeita; quando quer morder, às vezes mastiga demais antes de engolir. Ainda assim, deixa marcas.

Nota: 3,5/5 — a utopia dá vista linda; a queda, melhor ainda.