Kimo Stamboel (o mesmo de The Queen of Black Magic) resolve fazer o “zumbi definitivo” da Netflix: tem família rica disfuncional, suplemento milagroso, rejuvenescimento, traição, mordida, aldeia tomada, POV de cadáver rastejando, ataque a caminhão abarrotado e litros de vísceras. É o famoso “joga a pia da cozinha e vê o que gruda”. O problema? Gruda sangue, mas não gruda ideia.
A sinopse que o marketing não tem coragem de escrever
Uma empresa familiar indonésia tá por um fio. O patriarca Pak (Donny Damara) pensa em vender tudo e se aposentar, até que um elixir herbal o deixa revigorado e com vontade de tocar o terror corporativo — e doméstico (ele é casado com Karina – Eva Celia – ex-melhor amiga da própria filha Kennes, Mikha Tambayong). A família já é Succession com vitamina C; quando descobrem que o tônico da juventude dá vida eterna com apetite de morto-vivo, a coisa degringola do jantar de domingo para a infestação canibal em tempo recorde.
O que funciona (e funciona bem)
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Energia e brutalidade: quando Stamboel pisa no acelerador, The Elixir vira um parque de diversões do horror. A sequência do caminhão lotado sendo invadido e o plano do cadáver sem pernas engatinhando são ideias de direção que lembram por que a Indonésia é potência no gênero.
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Zumbis com “êxtase”: nada de somente grunhir. Eles sorriem, estalam, ofegam de prazer como marionetes possuídas. É creepy, é diferente e dá personalidade ao enxame.
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Ambiente rural: sair do corredor de hospital e do shopping de sempre ajuda. O vilarejo, os becos, as casas apertadas — tudo vira diorama ideal para cerco e carnificina.
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Elenco entrega: Eva Celia e Mikha Tambayong seguram as pontas dramáticas quando o filme pede fôlego (e ele pede MUITO).
O que desmonta (e desmonta feio)
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Fome de tudo, barriga de duas horas: o filme quer abraçar todos os clichês de zumbi e ainda fazer drama familiar e falar de classe e criticar a indústria de “wellness”… Resultado: nem assusta com consistência, nem emociona com sustança.
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Subtexto de vitrine: a metáfora é ouro (uma pílula de vaidade que vira praga social), mas o roteiro só encosta: ricos tóxicos x trabalhadores, exploração farmacêutica, culto à juventude — tudo aparece como cenografia, não como motor de narrativa.
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Melodrama “abre-alas”: a cada 10 minutos de massacre, vem declaração chorosa ou acerto de contas previsível. Sim, personagem precisa de arco; não, arco de novela no meio da hecatombe não ajuda o pulso do terror.
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Kitchen-sink syndrome: perseguição? Tem. Cerco? Tem. Triângulo? Tem. Golpe corporativo? Tem. Reviravolta? Tem. Foco? Não tem. O filme vira bingo de set pieces — e, entre um estouro e outro, a tensão evapora.
Direção, sangue & som
Stamboel ainda tem o olho perverso para enquadrar violência com inventividade. A mixagem de cli-clic-clac dos mortos, os estalos de mandíbula, o uso de câmera alta e obstruções (portas, grades) criam espacialidade e desconforto. O CGI é econômico; o efeito prático brilha quando precisa. Se o roteiro cortasse 15–20 minutos, a crescendos sustentariam o clímax.
Veredito (ou: como o elixir azeda)
The Elixir é aquele energético de posto: dá um gás na primeira meia hora e depois te deixa tremendo, cansado e pensando nas suas escolhas. Como show de carnificina, diverte. Como filme de zumbi com algo na cabeça além de dentes, falta proteína. Quando decide ser tudo ao mesmo tempo, fica preso no entrelugar: grandes altos, baixos que puxam. No fim, a praga pega — a de excesso de ambição.

