O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: A crítica de O Morro dos Ventos Uivantes possui spoilers e deverá ser apreciada com moderação.
MEDÍOCRE TALVEZ SEJA UM ELOGIO EXAGERADO PARA FALAR DA RELEITURA POP DE O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (Wuthering Heights, Emerald Fennell, 2026). Controverso desde o seu anúncio, a nova adaptação tropeça durante mais de duas horas sem nunca atingir lugar algum. Esperava-se um pouco mais de qualidade até para sustentar as polêmicas e provar que tinham razão.Infelizmente para nós, espectadores, o resultado é um desastre de proporções épicas.
A trama acompanha Catherine “Cathy” Earnshaw (Margot Robbie), uma jovem mimada que ganha um “irmão de estimação” do pai. A pobre criança, ou criatura, é batizada de Heathcliff (Jacob Elordi) e passa a ser a companhia favorita de Cathy. O tempo passa, a pobreza bate na porta, e Cathy ignora o amor por Heathcliff para buscar um ricaço sem graça e que provavelmente transa de meia. Frustrado por ter sido chutado para escanteio, Heathcliff desaparece por anos até voltar com muita grana (jogou no tigrinho, será?) e infernizar a vida de Cathy.
Isso é o melhor que consigo fazer para descrever o longa do jeito mais positivo possível. Foi um esforço imenso. Acredite em mim.
Os minutos introdutórios com um lettering estilizado sinalizam o que está por vir. A impressão é que a equipe da diretora ficou tão envergonhada que preferiu tornar seus nomes ilegíveis para dispensarem o risco de serem reconhecidos. Simplesmente não dá para ler quem é quem. Nunca vi isso na minha vida.
Eu não duvidaria se Elordi fosse escalado para interpretar o Batman em um projeto futuro da DC. Heathcliff simplesmente brota do nada nos lugares. Não há aviso, não há ruído. Somente mágica. Praticamente como se fosse um próprio delírio ou pensamento impuro, o personagem ganha uma desconfortável força sobrenatural. Se preferir, podemos ser bíblicos e dizer que o período em que ele permaneceu ausente e voltou rico é um mistério tão instigante quanto os anos de Jesus no deserto — mas se tem coisa que O Morro dos Ventos Uivantes não é, é bíblico.
As cenas de sexo tão aguardadas e antecipadas simplesmente não existem. Para uma diretora que filmou um longo plano sequência do seu protagonista balançando a benga ao som de “Murder on the Dancefloor”, de Sophie Ellis-Bextor, faltou ousadia. O clima está mais para um live-action das edições mais picantes da revista Capricho do que para qualquer vestígio remoto do que significa erotismo. Não me entenda mal. Existem sugestões excitantes (se você gostar de fugir do universo baunilha), mas elas são abafadas pela falta de coerência da obra. A diretora sufoca sua adaptação e não deixa ela ser absolutamente nada do que se propõe.
Por fim, talvez seja um tipo de recorde do cinema hollywoodiano, mas nunca ouvi tanto “eu te amo” de uma vez. Lembrei dos mais de 200 “Fuck” em Scarface. Pelo menos Al Pacino tinha motivos para ser profano. O Morro dos Ventos Uivantes até tenta corromper o amor, mas é tão raso que nem isso funciona e a sensação é de duas horas perdidas na sala de cinema com um romance com as duas criaturas mais chatas do universo.
Fennell consegue a proeza de transformar um filme estrelado por dois atores igualmente atraentes em uma galhofa broxante. Fora reforçar o quanto Cathy é mimada, Robbie não entrega nada além do básico. Não há nenhum tipo de exposição do seu corpo e fora uma cena de masturbação na montanha, tudo é muito comportado. O máximo de nudez está nas cenas em que Elordi aparece sem camisa — o que só me fez lembrar do quanto Frankenstein, de Guillermo del Toro, foi sem noção na construção do monstro.
Gosto muito de Bela Vingança e Saltburn, mas a verdade é que Fennell escolheu cair em grande estilo e fez um dos fortes candidatos a piores filmes de 2026. O Morro dos Ventos Uivantes é um romance adolescente cheio de pudores e sugestões mal-resolvidas. Falta desenvolvimento para seus personagens e principalmente aquele tempero picante para justificar toda a propaganda enganosa da sua divulgação. É quase um “musical da Xuxa” gótico: promete fogo, entrega gelo seco e cortes para o TikTok.

