Chloé Zhao poderia estar tranquila, vivendo de Oscar por Nomadland e cheques da Marvel por Eternals. Mas não: ela decidiu adaptar Hamnet, livro de Maggie O’Farrell sobre William Shakespeare, Agnes e a morte do filho, e entregar um dos dramas mais devastadores da temporada. E ainda vem com um nível de papo filosófico que faria muito “autor” poser pedir pra voltar pra pós-graduação em cinema.
Em entrevista recente ao The Playlist, a diretora falou sobre Hamnet, sobre sua relação com dor, luto, maternidade e arte – e cravou a frase que resume tanto o filme quanto o jeito que ela enxerga o próprio trabalho:
“Não é meu trabalho dizer às pessoas como elas devem se sentir. Meu trabalho é segurar o espelho.”
Traduzindo: ela não vai te explicar a metáfora, não vai enfiar lição de moral no terceiro ato, não vai segurar a sua mão. Vai te largar no meio do luto e ver o que sai daí.
Hamnet: Shakespeare, Agnes e a ferida que o cinema adora esconder
Baseado no romance de O’Farrell, Hamnet imagina a vida de William Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes (Jessie Buckley) longe do pedestal acadêmico: casamento torto, três filhos, a Inglaterra rural e um buraco no meio da família quando o menino Hamnet morre.
O filme não está interessado em cosplay de “biografia de gênio”. Zhao quer outra coisa:
-
olhar pra Agnes como uma espécie de consciência feminina ferida,
-
investigar a tal “ferida materna”,
-
e mostrar que, antes de virar Hamlet e monólogo imortal, esse luto era só uma dor doméstica esmagadora.
É Shakespeare, sim, mas não aquele que o professor de literatura queria. É a versão em que o gênio foge pra imaginação porque a vida real dói demais – e a mulher que ficou com o cadáver emocional da situação é obrigada a segurar tudo em pé.
“Não estou aqui pra pregar nada”: Zhao, o espelho e a recusa em ser guru
Zhao fala de Hamnet como quem está em sessão de terapia há seis horas seguidas: ela vê o filme como um “espelho” para o público projetar o que quiser. Nada de mensagem pronta, nada de hashtag motivacional.
Segundo ela, o trabalho da diretora é:
-
capturar presença – aquele momento entre atores, clima, luz, até vaca que invade set,
-
engarrafar isso no filme,
-
e não deixar o corte final virar panfleto.
Ela deixa claro: não quer “forçar emoção”, não quer te empurrar uma lição, não quer ser pastora de plateia.
Se você ver Hamnet e:
-
cair no choro,
-
travar,
-
sentir raiva do filme,
-
ou achar tudo “exagerado demais”…
pra Zhao, tudo isso é válido. O importante é alguma coisa mexer. Nem que seja só pra você perceber o tanto de coisa que está evitando sentir fora da sala de cinema.
Agnes, a “mãe ferida” e a parte do feminino que o cinema costuma enterrar
Um dos pontos mais interessantes do que Zhao fala é como Agnes virou uma espécie de projeção do que ela mesma reprimiu.
Ela assume que nunca tinha mergulhado tão fundo numa personagem com essa “consciência feminina” madura – no máximo arranhou isso com a Sersei de Eternals. Em Hamnet, ela coloca:
-
maternidade,
-
luto,
-
culpa,
-
conexão com a natureza,
-
e essa sensação constante de que existe um buraco não resolvido entre mães e filhos, mulheres e o mundo,
tudo dentro da Agnes de Buckley, que atua como se tivesse engolido um vulcão e decidido sorrir por cima.
Zhao não disfarça: isso tem tudo a ver com a própria vida dela, com traumas antigos e com essa tal “ferida materna da espécie” que ela acredita que a gente carrega. Se o filme é dolorido, é porque a diretora resolveu cutucar onde dói – nela e em você.
Shakespeare, trauma e a pergunta “se eu curar isso, ainda vou querer criar?”
Do lado de Shakespeare, Zhao também se projeta sem pudor: o cara que foge para o mundo imaginário porque o corpo, a vida real, a presença física… não são lugares seguros.
Ela admite que entende bem esse impulso:
-
escapar pra arte,
-
virar storyteller,
-
transformar trauma em narrativa porque é muito mais fácil escrever sobre a dor do que sentar e sentir a bendita.
E aí vem a parte que faz qualquer artista suar frio:
se eu curar esse trauma, será que ainda vou querer contar histórias?
Hamnet encena esse conflito como uma espécie de guerra interna entre Agnes e Shakespeare, dois arquétipos que no fundo são lados diferentes da mesma pessoa:
-
a parte ferida que precisa de cuidado,
-
e a parte criadora que usa essa dor como combustível.
No final, quando eles se encaram, Zhao está falando menos sobre o casal e mais sobre qualquer pessoa que vive de transformar cicatriz em obra.
Chorar, odiar, travar: qualquer reação é válida (e ela não vai te explicar nada)
Zhao sabe que muita gente sai de Hamnet desidratada, chamando o final de um dos mais emocionantes em anos. Mas ela insiste que não montou o filme pensando “como faço eles chorarem aqui?”.
O compromisso dela é outro:
-
proteger a verdade das cenas,
-
honrar o que aconteceu ali no set, mesmo que depois algum executivo queira “acelerar” o ritmo,
-
e criar um espaço onde o público possa sentir aquilo que não se autoriza fora do cinema.
Se a sua reação for amor absoluto, ódio mortal, tédio, raiva:
ela aceita todas. Pra Zhao, arte não existe pra entregar “mensagem certa”, existe pra criar atrito. Se você saiu irritado, parabéns: alguma coisa bateu.
Teatro, livro, horror e o abismo: o que vem depois de Hamnet?
Entre um mergulho filosófico e outro, Zhao ainda deixou escapar umas pérolas sobre futuro:
-
quer experimentar teatro, tipo uma montagem de Our Town em que ela mesma estaria em cena, fazendo ponte entre palco e plateia;
-
quer muito escrever um romance e admite que, se conseguir, provavelmente vai filmar menos – afinal, cinema é estressante e novela não tem reunião com executivo perguntando sobre “quadrante demográfico”;
-
e, sim, se alguém chegasse com um novo “Blair Witch Project”, ela toparia na hora… mas ainda acha que seria péssima dirigindo um horror comercial “fácil” (ninguém acredita, mas tudo bem).
O resumo? Zhao se vê como alguém que nasceu pra ficar na borda do abismo, lidando com emoções difíceis desde cedo. Ela não quer o caminho confortável. Quer o difícil, o dolorido, o que faz a mão tremer.
E é exatamente por isso que Hamnet funciona: porque vem de alguém que não está tentando te consolar, nem te ensinar nada. Ela só segura o espelho na sua cara.
O resto – o choro, o incômodo, a catarse ou o ódio – é por sua conta.

