Vale a pena luta de classes

Denzel enfrenta um rap de verdade e Spike Lee volta à velha forma em Luta de Classes, o filme mais insano e pessoal do diretor desde Inside Man

Quem diria que, aos 68 anos, Spike Lee lançaria seu filme mais enérgico da década com Denzel Washington enfrentando o caos, a culpa e… um rap battle? Luta de Classes começa como um remake comportado de Kurosawa, mas explode em uma obra autoral, provocativa, barulhenta e gloriosamente Black — um verdadeiro Spike Lee Joint de corpo inteiro.


️ Sobre o que é Luta de Classes?

David King (Denzel), ex-produtor musical lendário e hoje CEO de uma gravadora, vive confortavelmente em sua cobertura luxuosa, cercado por pôsteres de Muhammad Ali e fantasmas do passado. Seu plano? Recuperar o controle total da empresa. Mas tudo muda quando sequestradores tentam pegar seu filho — e acabam levando o garoto errado, filho do motorista vivido por Jeffrey Wright.

Começa aí uma espiral de culpa, tensão e reconexão com as raízes. Spike Lee pega a estrutura de High and Low, de Kurosawa, e transforma numa reflexão sobre ego, envelhecimento, fama, racismo e legado — tudo regado a James Brown e com direito a uma das melhores cenas de metrô da história recente do cinema.


Para quem é?

Se você ama Spike Lee em modo provocador (Malcolm X, BlacKkKlansman, Da 5 Bloods), esse é o seu filme. Se curte Denzel quando ele liga o modo “ator sério em crise moral”, também. Mas se espera um thriller linear ou um remake fiel do clássico japonês, prepare-se: Spike muda o tom no meio do caminho e entrega um terceiro ato tão estiloso quanto imprevisível. E sim, tem Denzel Washington rimando contra A$AP Rocky.


Quem está no elenco?

Denzel Washington entrega uma performance densa, amarga e, quando necessário, absurdamente divertida. Ele vive um artista que se perdeu no topo e precisa descer — literal e simbolicamente — pra lembrar quem é. Jeffrey Wright é o coração do filme, Ilfenesh Hadera é força e vulnerabilidade como Pam, e A$AP Rocky brilha como Yung Felony, um vilão/miragem/rapper com presença real. E sim, Rosie Perez e Anthony Ramos aparecem num festival que mistura crítica social com musical.


Onde assistir Luta de Classes?

O filme estreou fora de competição em Cannes e está disponível no Apple TV+. Se você não tem assinatura, vai ter que escolher entre ver esse filme ou continuar pagando R$ 14,90 no serviço só para assistir Ted Lasso pela 12ª vez.


Veredicto: Luta de Classes é bom?

É mais do que bom. É Spike Lee em seu modo mais sincero, experimental e revigorado. Começa devagar, desconcertando, como se o próprio diretor estivesse perguntando “ainda confia em mim?”. E então desce o soco cinematográfico com estilo, política, música e sentimento. Denzel, agora maduro, entrega um personagem cheio de falhas e orgulho, enquanto Lee se diverte misturando estética digital, filme granulado, música soul e crítica à indústria cultural.

É filme pra ver, rever, discutir e, como o próprio título sugere, descer do pedestal e repensar onde está o verdadeiro valor da arte e da vida. Se esse é o último grande ato de Spike Lee, ele está saindo como entrou: provocando, ousando, e fazendo história.


Assista ao trailer