Quer saber o que acontece no final do filme Foi Apenas um Acidente?
Foi Apenas um Acidente (It Was Just an Accident) é o novo thriller do diretor iraniano Jafar Panahi, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e está concorrendo ao Oscar 2026. O filme acompanha Eghbal, um homem comum com perna mecânica tentando viver uma vida pacata com a família — só que ele carrega um passado como torturador de presos políticos.
Quando Vahid, uma de suas antigas vítimas, reconhece o som inconfundível da prótese dele rangendo no chão, o pesadelo recomeça. O longa transforma um som aparentemente inofensivo num gatilho de trauma que persegue tanto torturador quanto vítima até os créditos finais.
Sinopse de Foi Apenas um Acidente
O filme começa com Eghbal dirigindo à noite com a família quando atropela um cachorro. O bicho não morre na hora, mas sofre. Eghbal dá de ombros e segue em frente. A mensagem é clara desde o começo: para ele, dor alheia sempre foi tratada como “apenas um acidente”.
Eghbal é conhecido entre ex-prisioneiros políticos pelo apelido de Perna de Pau (Peg Leg, no original), por causa da prótese que usa. Ele trabalhou como torturador durante um regime autoritário, mas agora tenta se esconder atrás de uma fachada de cidadão de bem, pai de família, funcionário comum.
Vahid é um ex-prisioneiro que sofreu nas mãos de Eghbal. Ele nunca esqueceu o som rangente da perna mecânica ecoando pelos corredores da prisão, anunciando a chegada do torturador. Anos depois, num encontro casual, Vahid reconhece aquele barulho e sequestra Eghbal.
A partir daí, o filme vira um thriller psicológico tenso: Vahid mantém Eghbal como refém, investigando se ele realmente é o Perna de Pau ou apenas um inocente com perna mecânica. Durante o cativeiro, outros ex-prisioneiros são chamados para confirmar a identidade do torturador.
Eghbal jura que não é quem Vahid pensa. Implora pela vida, diz que tem família, que é apenas um trabalhador. Mas o rangido daquela perna entrega tudo.
Final explicado Foi Apenas um Acidente: como acaba?
Vamos lá.
O som que nunca vai embora
No clímax do filme, a identidade de Eghbal é confirmada. Ele é, sim, o torturador conhecido como Perna de Pau. Confrontado por suas vítimas, Eghbal finalmente admite o que fez, mas com uma justificativa covarde: ele estava apenas cumprindo ordens, precisava sustentar a família, não tinha escolha.
Tradução: foi apenas um acidente.
Essa frase ecoa o começo do filme, quando ele atropela o cachorro e age como se nada grave tivesse acontecido. Para Eghbal, dor nunca foi intencional — foi sempre um efeito colateral de “circunstâncias inevitáveis”. Ele se coloca como vítima do sistema, como alguém que “só fazia seu trabalho”.
Mas o filme não compra esse discurso. E o final deixa isso bem claro.
O encerramento que apavora
A última cena de Foi Apenas um Acidente é puramente sonora: ouvimos o rangido característico de uma perna mecânica caminhando.
Vahid, mesmo longe de Eghbal, ouve esse som. A reação dele é imediata: pânico, terror, paralisia. Aquele rangido virou um gatilho eterno de trauma. Não importa se Eghbal está ou não por perto — o som ficou gravado na alma de Vahid como uma cicatriz que nunca vai sarar.
Panahi fecha o filme sem mostrar se Eghbal está realmente caminhando em direção a Vahid ou se é apenas a memória auditiva assombrando a vítima. O importante é: o torturador pode até tentar se esconder, mas o rastro que ele deixou nas vítimas é permanente.
O som da perna mecânica vira a metáfora perfeita para o trauma: sempre presente, sempre ameaçador, sempre ecoando mesmo quando o agressor já não está mais lá.
Qual o significado de Foi Apenas um Acidente
Foi Apenas um Acidente é um estudo sobre responsabilidade moral disfarçado de thriller político.
O título é irônico. Nada do que acontece no filme foi “apenas um acidente”. Tudo foi escolha:
- Eghbal escolheu aceitar o trabalho de torturador.
- Escolheu infligir dor em prisioneiros indefesos.
- Escolheu sustentar a família com dinheiro sujo de sangue.
- E, no presente, escolhe fingir que nada disso foi culpa dele.
A desculpa de “estava só cumprindo ordens” é velha conhecida de qualquer tribunal de crimes de guerra. O filme esmaga essa narrativa ao mostrar o impacto duradouro das ações de Eghbal: suas vítimas nunca conseguiram seguir em frente completamente.
Enquanto isso, Eghbal vive confortavelmente, cercado pela família, como se o passado pudesse ser apagado com uma perna mecânica nova e um emprego discreto.
Panahi também critica a normalização da violência institucional. Quantos “Eghbals” existem vivendo vidas pacatas depois de causar dor inimaginável? Quantos torturadores, policiais violentos, agentes de regime conseguem se aposentar em paz enquanto suas vítimas carregam o trauma para sempre?
Eghbal é vilão ou vítima do sistema?
Essa é a grande pergunta que o filme coloca — e depois responde com precisão cirúrgica.
Sim, Eghbal vivia sob um regime autoritário.
Sim, ele precisava sustentar a família.
Sim, recusar o trabalho poderia ter consequências.
Mas:
Nada disso o isenta de responsabilidade moral. O filme não nega o contexto opressor, mas também não permite que Eghbal use esse contexto como escudo. Ele tinha escolhas difíceis, mas ainda assim eram escolhas.
A cena em que ele atropela o cachorro e segue em frente já entrega tudo: Eghbal é alguém que aprendeu a se desligar emocionalmente da dor que causa. Não é maldade pura, é algo pior: indiferença cultivada.
Ele se convenceu de que, se não foi intencional, não foi culpa dele. E é exatamente isso que o filme desmonta tijolo por tijolo.
O que acontece com Vahid depois do final?
O filme não mostra o destino literal de Vahid, mas deixa claro que ele está preso num ciclo de trauma.
Mesmo depois de confrontar Eghbal, mesmo depois de obter alguma justiça (ou vingança, dependendo da leitura), Vahid não consegue paz. O rangido da perna mecânica virou parte permanente da paisagem mental dele.
Panahi sugere que justiça restaurativa não é suficiente quando o dano é tão profundo. Vahid pode até ter amarrado Eghbal, mas nunca vai amarrar o som que ecoa na cabeça dele toda vez que ouve passos.
Foi Apenas um Acidente é baseado em história real?
Embora o filme seja fictício, ele dialoga diretamente com a história recente do Irã. Jafar Panahi é um cineasta que vive sob censura e já foi preso diversas vezes pelo regime iraniano — ou seja, ele sabe muito bem do que está falando.
O personagem de Eghbal representa uma categoria real de pessoas que trabalharam em regimes autoritários e depois tentaram se camuflar na sociedade civil. A questão dos torturadores de prisões políticas é sensível em vários países que passaram por ditaduras, incluindo o Brasil.
Panahi usa o thriller psicológico como disfarce para falar sobre memória, justiça e a impossibilidade de apagar o passado — temas universais demais para ficarem restritos ao Irã.
Onde assistir Foi Apenas um Acidente
Foi Apenas um Acidente está em exibição nos cinemas e deve chegar aos streamings em breve. O filme conquistou a Palma de Ouro em Cannes e está na corrida do Oscar 2026 para Melhor Filme Internacional.
Vale muito a pena acompanhar, especialmente se você curte thrillers que doem na alma sem precisar de jump scares ou violência explícita. Aqui, o terror é psicológico, histórico e permanente.
e é isso

