Quando Martin Scorsese fala, Hollywood escuta.
E dessa vez, o lendário diretor de Taxi Driver e Os Bons Companheiros usou seu megafone sagrado do cinema para exaltar Ari Aster e seu novo filme, Eddington, que estreia nos cinemas amanhã (13 de novembro).
Com Joaquin Phoenix, Pedro Pascal e Austin Butler no elenco, Eddington é o novo mergulho de Aster no abismo da mente humana — só que, dessa vez, com o pano de fundo mais caótico do século: a pandemia de 2020.
Um retrato do caos americano em tempos de pandemia
O filme se passa em Eddington, Novo México, onde um conflito entre o xerife local (Phoenix) e o prefeito (Pascal) transforma uma pequena cidade em um barril de pólvora.
Enquanto a paranoia e as teorias conspiratórias se espalham pelas redes sociais, o diretor de Hereditário e Midsommar usa a desinformação como combustível para um terror muito mais real — o de uma sociedade incapaz de dialogar.
“Em maio de 2020, um impasse entre um xerife e um prefeito coloca vizinho contra vizinho em Eddington, Novo México”,
diz a sinopse oficial.
No meio desse caos, surge Vernon Jefferson Peak, vivido por Austin Butler, um líder de culto carismático que ganha fama online e promete “libertar” os cidadãos — uma mistura de influencer, messias e incendiário digital.
️ Scorsese: “Ele externaliza a violência emocional”
Em entrevista ao The New York Times, Scorsese elogiou o trabalho de Aster, destacando o modo como o diretor traduz o mal-estar social e psicológico em imagens poderosas:
“Ari Aster consegue externalizar a violência emocional que está na tela.
Ele mergulha no lado da vida americana que muita gente não suporta olhar ou admitir — ninguém quer ouvir o outro, e isso é assustador.”
O cineasta também chamou atenção para a coragem de Aster em enfrentar a desordem moral dos Estados Unidos pós-pandemia, algo que poucos diretores têm ousado abordar de forma tão crua.
Aster, o “herdeiro do desconforto”
Scorsese não é novo no fã-clube de Ari Aster.
Em 2023, ele já havia descrito o diretor de Beau Is Afraid como
“uma das vozes mais extraordinárias do novo cinema mundial.”
Com Eddington, Aster parece consolidar seu papel de cronista do desespero moderno, trocando o terror sobrenatural por um horror mais mundano — aquele que nasce da solidão, do extremismo e do algoritmo.
Joaquin Phoenix, em um dos papéis mais inquietantes de sua carreira recente, encarna um homem obcecado por notícias, preso num looping de doomscrolling enquanto o mundo ao redor implode.
Entre o terror psicológico e o comentário social
Eddington não é só um thriller político ou um retrato da pandemia — é um espelho distorcido da era digital.
Aster captura o ruído ensurdecedor das redes sociais, onde fake news e desinformação se transformam em combustível para tragédias reais.
Com fotografia granulada e uma paleta de cores sombria, o filme evoca o espírito paranoico de O Enigma de Outro Mundo com o realismo sujo de Rede de Intrigas.
O resultado? Um terror que não precisa de monstros — apenas Wi-Fi.
⭐ Crítica inicial: “Imperfeito, mas urgente”
O site Far Out avaliou o filme com 3,5 estrelas, destacando que, embora Eddington não seja isento de falhas, sua mensagem central é poderosa o suficiente para redimir qualquer irregularidade:
“Enquanto não é perfeito, a urgência de sua mensagem central redime suas imperfeições, reiterando nossa necessidade de nos reconectar e buscar a verdade coletiva.”
Em tempos de polarização e desconfiança, Eddington surge como um grito estético e moral, filmado com o rigor de um documentário e a tensão de um pesadelo kafkiano.
Scorsese e Aster: um diálogo de gerações
O elogio de Scorsese não é apenas cortesia entre diretores — é o reconhecimento de um herdeiro espiritual.
Aster, como o veterano, usa a câmera não para confortar, mas para ferir e provocar reflexão.
Se Scorsese revelou a podridão urbana de Taxi Driver, Aster agora expõe a podridão digital de Eddington: uma América em colapso interno, onde a empatia é a primeira vítima.
Conclusão
Com Eddington, Ari Aster transforma o trauma coletivo da pandemia em arte política e visceral — e o aval de Martin Scorsese é a cereja no bolo radioativo.
Um filme que promete dividir o público, mas deixar críticos e espectadores presos à tela, tentando entender onde termina a ficção e começa o colapso real.

