O novo filme Socorro! marca um retorno explosivo de Sam Raimi ao território que ele domina como poucos: o horror que ri enquanto morde. Mas quem espera apenas sustos, exageros visuais e humor macabro vai perceber rapidamente que o longa é mais ambicioso — e mais desconfortável — do que parece à primeira vista.
O que começa como uma sátira corporativa ácida evolui para um thriller de sobrevivência claustrofóbico e, por fim, se transforma em algo ainda mais perverso: um estudo sobre dinâmica de poder, corrupção moral e o prazer perigoso de inverter hierarquias. No centro desse furacão está Rachel McAdams, em uma das performances mais físicas, afiadas e perturbadoras de sua carreira recente.
Do escritório ao inferno: três filmes em um só
Raimi nunca foi um diretor de uma nota só. Em Send Help, ele assume isso de vez. O filme se estrutura como se fossem três atos radicalmente diferentes, mas conectados por um mesmo nervo temático.
No início, acompanhamos Linda Liddle (McAdams), uma consultora brilhante sistematicamente subestimada pelo chefe, Bradley Preston (Dylan O’Brien). O ambiente corporativo é retratado como um campo de abuso elegante: apropriação de ideias, humilhação velada e jogos de poder travestidos de meritocracia.
Quando uma viagem de trabalho termina em desastre e apenas os dois sobrevivem a um acidente aéreo, o filme muda de pele. Isolados em uma ilha deserta, longe de cargos, crachás e títulos, a hierarquia começa a ruir. E é justamente nesse momento que Raimi encontra seu verdadeiro interesse: o que acontece quando quem sempre foi oprimido passa a ter controle?
Poder não redime — ele revela
Ao contrário de uma fantasia de vingança simples, Send Help se recusa a oferecer conforto moral. Raimi deixa claro que o filme não é sobre justiça, mas sobre contaminação.
Linda não se torna automaticamente uma heroína quando o poder muda de mãos. Pelo contrário: à medida que ela percebe sua vantagem física, intelectual e emocional sobre o antigo chefe, surge uma pergunta incômoda — até onde ela está disposta a ir?
Essa virada é o que transforma o longa em algo mais complexo do que uma comédia de sobrevivência. O horror não vem apenas da situação extrema, mas da lenta transformação psicológica da personagem. O filme sugere que estruturas de poder não apenas oprimem — elas ensinam.
Rachel McAdams em estado bruto
Nada disso funcionaria sem uma atriz capaz de atravessar tons tão instáveis sem perder coerência. E é aqui que Rachel McAdams entrega um trabalho que lembra por que ela é uma das intérpretes mais subestimadas de Hollywood.
Raimi não economiza elogios à atriz, destacando sua capacidade rara de alinhar corpo, emoção e intenção dramática. McAdams não “atua” a degradação moral de Linda — ela habita esse processo. Cada gesto, pausa e mudança de postura acompanha a mutação interna da personagem.
A parceria entre diretor e atriz já havia dado frutos em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, mas em Send Help Raimi leva McAdams a um território muito mais cru, longe do conforto dos efeitos visuais e das convenções do blockbuster.
O caos controlado de Sam Raimi
Visualmente, o filme é um exemplo do estilo Raimi em estado puro: câmera inquieta, humor físico desconfortável, violência abrupta e uma montagem que acelera o batimento cardíaco. Mas há um controle rigoroso por trás da aparente anarquia.
Raimi credita grande parte da força do filme ao roteiro original, que ele descreve como uma base sólida que permitiu exagerar, distorcer e radicalizar. A partir daí, o diretor fez o que sempre soube fazer: empurrar os limites sem perder o foco emocional.
O resultado é um longa que começa rindo do mundo corporativo, passa pela tensão do isolamento e termina encarando o espectador com uma pergunta nada agradável: se você tivesse o poder, faria diferente?
Um terror que fala do agora
Embora a premissa seja extrema, Send Help conversa diretamente com ansiedades contemporâneas: burnout, abuso institucional, desigualdade de reconhecimento e a ilusão de que competência é suficiente para garantir justiça.
O horror aqui não é sobrenatural — é estrutural. E talvez por isso incomode tanto.
Em entrevista concedida ao The Playlist, Raimi deixa claro que o que o atraiu ao projeto não foi o espetáculo, mas o colapso moral que emerge quando sistemas artificiais de poder desaparecem.
Por que Socorro! importa
Mais do que um retorno de Sam Raimi ao terror, Send Help funciona como um comentário ácido sobre ambientes onde o poder é normalizado — e sobre como ele nunca desaparece, apenas muda de mãos.
Com uma atuação impressionante de Rachel McAdams e um diretor em pleno domínio de suas ferramentas, o filme prova que Raimi ainda sabe provocar, divertir e incomodar ao mesmo tempo.
E talvez essa seja a maior virtude do longa: ele não oferece saída fácil. Só o espelho.

