Existem filmes que envelhecem como vinho, e outros que envelhecem como… um mistério sociológico. Sob o Mesmo Céu, dirigido por Cameron Crowe (o gênio por trás de Quase Famosos), caiu na segunda categoria. Com apenas 20% de aprovação no Rotten Tomatoes, o longa é frequentemente citado como o “ponto baixo” na carreira impecável de Emma Stone. Mas, como o streaming ignora selos de “podre”, o filme é hoje um dos mais assistidos de 2026.
Mesmo após mais de uma década de seu lançamento original e de ter sido massacrado pela crítica na época, o filme escalou para o topo dos rankings da Disney+. Mas o que atrai tanto o público? Seria apenas o brilho de Emma Stone e Bradley Cooper, ou a curiosidade mórbida sobre um dos maiores escândalos de escalação da história de Hollywood?
Descubra abaixo no nosso artigo dissecando a polêmica, os números e se vale a pena (ou não) dar o play.
A Polêmica: O “Whitewashing” de Allison Ng
O centro do furacão atende pelo nome de Allison Ng. No roteiro, a personagem vivida por Emma Stone é descrita como sendo 25% chinesa e 25% havaiana. O problema? Emma Stone é descendente de suecos, alemães e ingleses, sem qualquer ancestralidade asiática ou polinésia.
A escalação gerou uma acusação imediata de whitewashing (embranquecimento). Na indústria cinematográfica, esse termo descreve a prática de escalar atores brancos para papéis que deveriam pertencer a minorias étnicas. Segundo dados de organizações como a University of Southern California (USC), personagens de origem asiática representavam, na época do lançamento do filme, menos de 5% dos papéis com falas em Hollywood, o que tornou a escolha de Stone uma afronta direta à representatividade.
O Pedido de Desculpas e a Defesa de Crowe
Cameron Crowe tentou se explicar na época, afirmando que Allison Ng foi baseada em uma pessoa real do Havaí: uma mulher ruiva que não se parecia em nada com suas origens étnicas e que vivia frustrada por ter que explicar sua ancestralidade o tempo todo.
Entretanto, o público não comprou a ideia. Durante o Globo de Ouro de 2019, a atriz Sandra Oh brincou no palco que Crazy Rich Asians era o primeiro filme de estúdio com protagonista asiática desde Ghost in the Shell e… Aloha. Da plateia, foi possível ouvir Emma Stone gritando um sincero “Sinto muito!”. Anos depois, Stone declarou que a experiência foi um divisor de águas, fazendo-a aprender sobre a história da exclusão de atores BIPOC (pretos, indígenas e pessoas de cor) em Hollywood.
Por que as pessoas estão assistindo agora?
O algoritmo da Disney+ não julga questões éticas; ele julga o poder das estrelas. Ver os nomes de Emma Stone, Bradley Cooper, Rachel McAdams, John Krasinski, Bill Murray e Alec Baldwin em um mesmo card é um convite quase irrecusável para o espectador casual. Além disso, a paisagem exuberante do Havaí funciona como o cenário de “conforto” ideal para um domingo à tarde.
Onde Assistir
Atualmente, “Sob o Mesmo Céu” está disponível nos seguintes catálogos (sujeito a alterações regionais em 2026):
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Disney+
Veredicto: Vale o Play?
Nota: 4.5/10
Se você busca uma obra-prima de Cameron Crowe, passe longe e vá assistir a Quase Famosos ou Jerry Maguire. Sob o Mesmo Céu é um filme confuso. O roteiro tenta misturar misticismo havaiano, espionagem militar e um triângulo amoroso mal resolvido, mas nada parece conectar-se de forma orgânica.
Pontos Fortes:
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A química entre Bradley Cooper e Rachel McAdams (que interpretam ex-namorados) é palpável e superior à trama principal.
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A fotografia do Havaí é deslumbrante.
- Trilha sonora inspirada [Relembre as músicas aqui]
Pontos Fracos:
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A “energia” de Emma Stone no filme é estranha; ela interpreta Allison Ng com um entusiasmo que beira o hiperativo, o que torna a controvérsia da escalação ainda mais evidente e desconfortável.
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O vilão vivido por Bill Murray parece pertencer a outro filme, muito mais cartunesco.
Conclusão: Vale o play apenas por curiosidade histórica ou se você for um completista da filmografia da Emma Stone e quiser entender o que ela aprendeu com esse erro. Para um romance real, existem opções muito melhores no catálogo.

