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365 Filmes em um Ano #219 | PERDAS E DANOS: quando o desejo invade a sala de jantar

Infidelidade no cinema quase sempre vem temperada com erotismo, culpa e tragédia. Em Perdas e Danos (Damage, 1992), de Louis Malle, a premissa parece feita sob medida para incendiar plateias: um homem poderoso se envolve com a noiva do próprio filho. Mas, em vez de ser uma obra explosiva, o filme escolhe um tom mais frio, contido, e aposta no drama psicológico — nem sempre com o impacto esperado.

O enredo gira em torno de Stephen Fleming (Jeremy Irons), um ministro inglês casado, pai de família exemplar e político respeitado. Tudo isso desmorona quando ele cruza olhares com Anna Barton (Juliette Binoche), mulher misteriosa, sedutora e marcada por um passado traumático. A atração é imediata, irracional, selvagem. O detalhe? Anna está noiva de Martyn (Rupert Graves), filho de Stephen.

A relação entre eles é filmada como uma sucessão de encontros proibidos, cada vez mais possessivos e irresponsáveis. O desejo vira vício, e o que poderia ser uma aventura passa a consumir tudo: casamento, família, carreira. Anna, com seu olhar distante, carrega a marca da tragédia pessoal — a relação quase incestuosa com o irmão morto, a culpa que nunca cicatrizou, a fuga constante de qualquer vínculo real. É a Perséfone de Malle: dividida entre inocência e condenação, entre a filha e a esposa arrancada para o submundo.

A força do filme está nas atuações: Irons transmite a fome e a vergonha de um homem que se perde para nunca mais voltar; Binoche é um enigma de gelo e fogo, distante e arrebatadora; Kristin Scott-Thomas, como a esposa, dá dignidade ao silêncio. O problema é que o roteiro, adaptado do livro de Josephine Hart, evita mergulhar no potencial erótico da trama. As cenas de sexo são sugeridas ou encurtadas, quando deveriam traduzir o turbilhão emocional dos personagens. O clímax chega na nudez de Irons correndo atrás do corpo do filho morto — uma metáfora potente, mas que também expõe o quão tímido o filme foi no caminho até ali.

Perdas e Danos levanta dilemas incômodos: até onde se deve ir para satisfazer o desejo? É possível viver plenamente sem destruir o que está em volta? Existe justiça para quem ousa atravessar esses limites? Malle responde com pessimismo: cedo ou tarde, a conta chega, seja no exílio da culpa ou na ruína completa.

A pergunta que não quer calar:
Você escolheria viver intensamente, mesmo sabendo que a queda é inevitável… ou prefere se proteger num casamento sem desejo?