Clube do Filme CdB #181 | HEREGE: quando a fé vira tortura filosófica

O que o demônio faria se tivesse o charme britânico de Hugh Grant, a voz de professor de Oxford e um estoque ilimitado de tortas de blueberry? Ele abriria a porta, ofereceria chá e diria: “Entrem, meninas, minha esposa está só ali na cozinha.” Só que a esposa nunca aparece — e o inferno começa em silêncio.

Esse é o ponto de partida de Herege (2025), novo delírio da A24 dirigido pela dupla Scott Beck e Bryan Woods (Um Lugar Silencioso). Uma mistura de O Livro de Mórmon com Jogos Mortais, temperada com debates teológicos que fariam até Hannibal Lecter ajustar o colarinho.

Grant, vivendo a melhor fase como vilão cênico, interpreta Mr. Reed: entusiasta da religião, da manipulação psicológica e da decoração vintage. Quando duas missionárias mórmons (Chloe East e Sophie Thatcher) batem à sua porta, o que parecia uma visita doutrinária vira uma partida de xadrez existencial, onde cada pergunta é uma faca invisível.

O terror aqui não é sobre sangue — embora ele apareça. É sobre linguagem, silêncios desconfortáveis e a ausência perturbadora da tal esposa prometida. A fotografia de Chung-hoon Chung (Oldboy, A Criada) transforma a casa em um labirinto claustrofóbico, enquanto a montagem suga o espectador para dentro do mesmo jogo mental das protagonistas.

Destaque para Chloe East, que começa como estereótipo da pureza religiosa e vai rachando conforme o jogo psicológico se intensifica. Thatcher, por sua vez, é a razão que se perde no abismo. E ambas orbitam ao redor de Grant, que hipnotiza com a calma sádica de quem cita Nietzsche antes de servir sobremesa.

O roteiro não tem pressa: é conversa, é retórica, é provocação. E quando a virada vem — porque sim, ela vem —, o choque é menos sobre o que acontece e mais sobre o que você, espectador, é forçado a questionar.

A verdadeira heresia de Herege não é contra Deus. É contra você. Contra a estrutura em que você constrói a própria identidade. Por que você acredita no que acredita? E se, na verdade, sua fé — qualquer que seja — for só uma história repetida em eco?

No fim, Herege não entrega respostas. Ele quer ver você suando frio enquanto procura uma. E nisso, é um dos filmes mais ousados e eficazes de 2025.

A pergunta que não quer calar:
Você resistiria ao jogo de Mr. Reed… ou também cederia à dúvida?