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Review Filhos do Chumbo: Produção da Netflix se destaca pela temática e qualidade

Um dos lançamentos mais recentes da Netflix, a minissérie “Filhos do Chumbo” (direção de Maciej Pieprzyca), está chamando muita atenção pela temática e por sua qualidade. A série aborda a história real ocorrida na década de 70 em uma cidade da Polônia, quando muitas crianças da cidade começam a adoecer gravemente e passam a ser acompanhadas por uma médica pediatra, Jolanta Wadowska-Król.

Jolanta, vivida pela atriz Joanna Kulig, recém-chegada na cidade, começa a perceber que os sintomas das crianças, que incluem forte anemia, estão diretamente relacionados a uma possível contaminação por chumbo, causada pela proximidade das residências à uma metalúrgica de chumbo e zinco, a principal responsável pelo sustento da cidade.

Porém, o que aparenta ser “apenas” uma questão de saúde pública a fim de garantir a proteção das crianças acaba se tornando uma disputa política travada com o governo soviético.

A condição conhecida também como “saturnismo” é consequência do acúmulo do chumbo no organismo por vários meses ou anos antes de causar sintomas no caso de pessoas adultas. Já as crianças menores de seis anos de idade são mais vulneráveis à essa contaminação, pois mesmo pequenas quantidades podem afetar gravemente seu desenvolvimento físico e mental, situação que ocorreu no distrito industrial de Szopience.

A minissérie conta com seis episódios, com ótimas atuações, excelente ambientação e uma trilha sonora bem sóbria, como o contexto e o tema merecem. Eu sou suspeita para falar pois sou apaixonada por séries, filmes e documentários que retratam histórias reais, especialmente sobre eventos e episódios tão impactantes e relevantes para a história mundial, sobretudo quando há uma protagonista feminina envolvida.

O caso real comprovou a partir de estudos realizados posteriormente, que a metalúrgica Szopienice Nonferrous Metals Smelter emitia níveis de chumbo no mg/kg) solo e no ar muitíssimo acima da média nacional (18mg/kg), entre 8.000 e 12.000 mg/kg. A partir da luta travada pela médica pediatra Jolanta junto ao governo da época, foi possível enviar aproximadamente 150 crianças para sanatórios em regiões de montanhas, um dos tratamentos preventivos para a condição, evitando mortes e consequências mais graves. Em 1998, muitos anos depois do evento emblemático, uma pesquisa com 211 crianças de Katowice detectou níveis de chumbo no sangue até quatro vezes superiores ao limite considerado seguro para o desenvolvimento cognitivo. Esse caso permanece como referência em relação à contaminação industrial na Europa Central.

Fato curioso: A médica pediatra Jolanta desenvolveu a sua tese de doutorado baseada nos seus achados sobre a intoxicação por chumbo em crianças em Szopience, mas não foram autorizados a serem publicados por pressão do governo da época, inclusive as cópias do trabalho foram perdidas. Porém no ano de 2021, a Universidade da Silésia em Katowice concedeu a ela o título de doutor honoris causa não apenas por suas conquistas como médica, como também por sua contribuição à saúde da população.