Durante o Super Bowl, a Netflix soltou discretamente — e de forma estratégica — o primeiro teaser de The Adventures of Cliff Booth, um projeto que ninguém pediu… mas que agora todo mundo quer entender. O motivo? Quentin Tarantino escreveu o roteiro, mas quem dirige é David Fincher. Sim. Tarantino + Fincher. No mesmo filme. E não é fanfic.
O longa funciona como sequência direta de Once Upon a Time in Hollywood e acompanha Cliff Booth em 1977, quase uma década após os eventos do filme original. Agora longe do sol californiano de 1969, o personagem entra em uma fase mais sombria da indústria: ele se torna um “fixer” de estúdio, um sujeito que resolve problemas que não podem chegar aos jornais — nem à polícia.
Brad Pitt de volta (e no centro)
O teaser confirma Brad Pitt reprisando o papel que lhe rendeu o Oscar. Mas o Cliff Booth de 1977 não é mais o mesmo dublê relaxado e silencioso. A estética muda completamente: sai o dourado nostálgico, entra o neon sujo dos anos 70, com violência mais explícita, paranoia e uma Hollywood em decadência moral.
Apesar dos rumores, Leonardo DiCaprio não aparece no teaser e, segundo informações de bastidores, recusou até mesmo um cameo como Rick Dalton. A ausência é simbólica: este não é mais um filme sobre estrelas — é sobre quem limpa a sujeira delas.
Elenco pesado e cara de prestige movie
Mesmo sem DiCaprio, o elenco é coisa de prêmio. O filme traz Elizabeth Debicki, Carla Gugino e Yahya Abdul-Mateen II em papéis ainda mantidos em segredo, mas com forte cheiro de personagens moralmente ambíguos — especialidade absoluta de Fincher.
Também aparecem Scott Caan, Karren Karagulian, além de Holt McCallany e Peter Weller, reforçando a vibe de crime, conspiração e decadência institucional.
Tarantino sem dirigir: traição ou evolução?
Aqui está o ponto que mais divide os fãs: Tarantino não dirige o filme. Ele escreveu o roteiro, participa como produtor e entregou o material a Fincher — algo impensável anos atrás. Mas faz sentido dentro do momento atual do cineasta.
Tarantino já deixou claro que pretende encerrar sua carreira como diretor com apenas dez filmes. Ao passar Cliff Booth adiante, ele expande seu universo sem “gastar” seu último cartucho. É quase como um autor literário permitindo adaptações oficiais de seu próprio cânone.
Fincher, por sua vez, é o diretor perfeito para esse tipo de transição: clínico, obsessivo, frio e obcecado por sistemas de poder, corrupção e bastidores — exatamente o subtexto que sempre esteve ali, meio escondido, em Era Uma Vez em… Hollywood.
O Cliff Booth “fixer” já existia
A ideia de Booth como resolvedor de escândalos não surgiu do nada. Ela já estava sugerida no livro que Tarantino escreveu após o filme de 2019, onde Cliff aparece envolvido com os cantos mais obscuros da indústria. O longa de 2026 apenas transforma isso em trama central.
O teaser sugere métodos pouco ortodoxos, silêncios comprados, violência discreta e uma Hollywood que prefere eliminar problemas do que resolvê-los. Tudo embalado por um orçamento monstruoso — US$ 200 milhões, o maior da carreira de Tarantino como roteirista/produtor.
Netflix jogando pesado
Para a Netflix, The Adventures of Cliff Booth é um movimento de prestígio claro. O estúdio reforça sua relação com Fincher (após Mindhunter e The Killer) e herda, de forma indireta, o capital simbólico de Tarantino.
O filme será lançado nos cinemas e no streaming, com estreia prevista para o verão de 2026. O fato de o teaser ter sido exibido no Super Bowl deixa claro: não é “filme de catálogo”. É evento.
Tarantino + Fincher: o que esperar?
Não espere diálogos infinitos sobre cultura pop ou explosões estilizadas como marca registrada de Tarantino. Também não espere a frieza absoluta de Zodíaco ou Garota Exemplar. O que surge aqui parece ser um meio-termo perturbador: personagens tarantinescos vivendo dentro de um mundo fincheriano.
É a fantasia suja de Hollywood finalmente olhando para o espelho.
Segundo análise publicada pelo The Playlist (fonte citada), o projeto representa menos uma “continuação” e mais uma mutação: o mesmo universo, outro ponto de vista — e outro bisturi.
Se funcionar, Tarantino pode ter criado algo ainda mais perigoso do que seu cinema dirigido: um mundo que sobrevive sem ele atrás da câmera.

