Review A Empregada: Adaptação se afunda no clichê, mas é parcialmente salva por boas atuações e história com alguma dose de propósito

poster a empregada Seja catapultando promessas da literatura ao topo da lista dos mais vendidos do New York Times, ou adaptando best sellers com um público já cativo e ansioso por ver suas narrativas preferidas ganhando vida nas telas, o cinema sempre encontrou nos livros uma fonte muito prolífica para produção. E eis que agora em janeiro chega às telonas a mais nova adição ao grupo das adaptações de fenômenos editoriais – A Empregada, do diretor Paul Feig.

A julgar apenas pelas mais de 6 milhões de cópias vendidas (até o momento) e tradução para 45 idiomas, o livro da norte-americana Freida McFadden parece chegar aos cinemas com parte do jogo ganho. Na história acompanhamos Millie (Sydney Sweeney), uma jovem ex-detenta em busca de emprego para manter não apenas seu sustento, como também sua liberdade condicional. Ela continua passando as noites em seu carro e usando banheiros públicos para fazer sua higiene pessoal, até que consegue uma oportunidade como empregada doméstica na casa da rica e abastada família Winchester. Nina (Amanda Seyfried), a matriarca da família, parece ser a patroa gentil e perfeita em um lar que inspira a mesma perfeição. Mas nada de fato é o que parece ser e, como era de se esperar, máscaras vão caindo, segredos acenam dos cômodos, e um clima de estranheza e desconforto vai se instalando no ambiente familiar outrora aparentemente perfeito.

Paul Feig, diretor responsável pelos bem-sucedidos “Missão Madrinha de Casamento” e “Um Pequeno Favor”, entrega aqui um suspense doméstico pautado no arroz com feijão narrativo, sem grandes ambições, básico, mas ainda assim irregular em ritmo, com um início apressado que se faz sentir na interação inicial entre as duas protagonistas. Aliás, a película consegue ser irregular de outras formas ao longo de suas 2 horas e 11 minutos de duração: na falta de um desenvolvimento progressivo e cuidadoso ao abordar a mudança de comportamento de Nina; nas narrações em off introduzidas sem nenhum lastro e quase que aleatoriamente em algumas cenas (em mais de um momento fiquei em dúvida se era uma narração ou se um personagem em cena é quem estava falando); na montagem, que em certo momento cria confusão ao tentar estabelecer o lugar de uma cena na cronologia dos acontecimentos… Tudo feito de forma tão brusca que me pergunto se o diretor estava realmente com paciência para tocar o projeto.

Não é incoerente dizer que “A Empregada” é como se fosse o filho mais novo de produções como “Cinquenta Tons de Cinza” e “Como Eu Era antes de Você”, modernizado com uma roupagem de suspense psicológico aguado, alguma dose de violência e sangue. Muita coisa evoca os filmes anteriormente citados, principalmente 50 Tons: o envolvimento da moça com poucos recursos e necessitada com o gostosão sexy, rico e influente; o uso de música sensual com bpm envolvente e sedutor de alguma diva pop da atualidade durante as cenas de sexo; os momentos de deslumbre da protagonista que se vê vivendo um sonho de princesa após o gostosão rico intervir em sua vida; enfim, “A Empregada” é um filme forjado em clichês da indústria, talvez de forma proposital para de fato se posicionar ao lado de seus antecessores que serviram de inspiração, almejando assim o mesmo sucesso de bilheteria.

O maior mérito fica mesmo por conta da performance do elenco principal. Sydney Sweeney entrega uma performance redonda, na medida certa; a perfeita menina aparentemente doce e frágil tentando sobreviver enquanto se esforça para manter guardados a sete chaves seus próprios segredos; qualquer polêmica sobre ela é esquecida ao vê-la em cena. Amanda Seyfried entrega uma Nina Winchester muito convincente em seus ataques de psicose e oscilações de humor; uma pena que tenha sido prejudicada pela falta de esmero da direção em conduzir as nuances da sua personagem. Confesso que a beleza de Brandon Sklenar se torna uma distração durante o exercício de analisar sua performance, mas ele consegue ir além dos atributos físicos e serve a contento na sua interpretação do charmoso e inquietantemente perfeito Andrew Winchester.

Em última análise, pode-se dizer que o segundo grande mérito de A Empregada é abordar – nos seus próprios termos enquanto uma ficção/suspense para as massas – a sororidade, o apoio mútuo e colaboração entre mulheres, a quebra de ciclos de violência e o combate à rivalidade feminina imposta pelo machismo. O resultado final, se não chega ao status de incrível ou subversivo, deve pelo menos servir aos anseios dos fãs do livro e dos espectadores menos exigentes.