Dwayne Johnson se dissolve (quase) no papel de Mark Kerr num filme que recusa clichês de superação, observa à distância e provoca o público — ainda que perca força quando precisa emocionar.
Benny Safdie transforma Coração de Lutador num anti-filme de esporte. Em vez de grua mergulhando no octógono e trilha “levanta-plateia”, ele observa de fora: planos do lado de fora das cordas, ângulos altos, cortes secos. A trilha, entre pop/rock e um jazz incessante, lembra o tempo todo que estamos vendo um filme, não uma catarse pronta.
Essa distância dialoga com a escalação meta: Dwayne Johnson vivendo Mark Kerr (1997–2000), ícone subestimado do MMA. A maquiagem chamativa não esconde o astro — sublinha o artifício. Safdie sabe que ligações mentais com “The Rock” virão, e as usa como fricção: a fama que Johnson alcançou contrasta com a anônima dureza de Kerr.
O roteiro acompanha a ascensão caótica do MMA (UFC ainda modesto, Pride no Japão com regras nebulosas), a espiral de analgésicos e drogas, o relacionamento turbulento com Dawn (Emily Blunt, eficaz como parceira/codependente) e a amizade/competição com Mark Coleman (Ryan Bader). O mundo ao redor é povoado por rostos reais do esporte (Bas Rutten, Satoshi Ishii, James Moontasri, Oleksandr Usyk), turvando a fronteira entre ficção e doc — reforçada pela fotografia verité de Maceo Bishop, como se houvesse uma câmera só no vestiário.
No centro, Johnson entrega um trabalho contido e surpreendente: um Kerr manso na voz e brutal no estalo, capaz de reclamar do “tummy sensível” e, segundos depois, arrebentar uma porta. É uma dualidade que o filme insinua com força — e que poderia explorar mais. Safdie evita “dar flores” ao atleta: treinos, táticas e minutagem de lutas aparecem o suficiente para contexto, não para hagiografia.
Quando o roteiro precisa enfim subir a música — com comeback, Grand Prix, brigas domésticas —, a proposta perde novidade. O distanciamento que antes era arejado vira frieza; os conflitos de 3º ato, mais funcionais do que comoventes. Ainda assim, há uma leitura possível que engrandece o gesto: protelar os clichês para, quando eles chegam, expor sua insuficiência. Não há pedestal no epílogo: Safdie encerra com imagens do Kerr real, uma vida ordinária que dispensa monumento.
Veredito
★★★☆☆ (3/5) — Ambicioso e provocador, Coração de Lutador é menos sobre vitória do que sobre encenação e olhar. Pode frustrar quem busca catarse esportiva, mas oferece um The Rock raro e uma forma filmada que desafia o padrão “superação a qualquer custo”.
Pontos fortes
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Direção observacional que foge do manual do gênero
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Dwayne Johnson contido e convincente como Kerr
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Elenco de apoio com atletas reais, textura semi-documental
Pontos fracos
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Terceiro ato perde impacto emocional
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Pouca ênfase em técnica/estratégia pode deixar neófitos órfãos
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A maquiagem de Johnson às vezes grita mais do que ajuda

