review desejo de matar 2018

Review Desejo de Matar: vigilante dad rock com cheiro de naftalina e pólvora

O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: contém spoilers, trocadilhos ruins (do filme, juro) e alto teor de testosterona marombada.

desejo de matar - melhores filmes de ação de 2018Eli Roth pegou o clássico reacionário do Bronson, passou no WD-40 e serviu como se 1974 fosse ontem. Bruce Willis é um cirurgião que vira justiceiro da madrugada depois que a esposa é assassinada e a filha entra em coma. Até aí, você pensa: “ok, fantasia de vingança básica, vai doer mas desce”. O problema é que Desejo de Matar (2018) quer brincar de crítica social enquanto massageia a espingarda — e acaba parecendo um clipe de “Back in Black” dirigido pelo Datena.

McClane de jaleco

Bronson, na fase original, tinha cara de quem cortava lenha com a testa. Aqui, Willis começa tropeçando em arma, literalmente (o roteiro admite duas gafes de principiante) e, duas cenas depois, está dando headshot em motorista em movimento e pregando mão de bandido no balcão do bar com faca como se fosse terça-feira no Nakatomi Plaza. Não há arco de transformação, há um botão “ativar Rambo”. Aperta e pronto.

Roth até finge nuance: intercala close nos instrumentos de cirurgia retirando balas com close na mão lustrando pistola, prometendo dizer algo sobre o ciclo da violência. Promete. Na sequência, vem golpe com bola de boliche e o famigerado trocadilho do macaco hidráulico: “Eu não vou te matar… mas o Jack vai.” A plateia ri, a inteligência pede exoneração.

Chicago de telejornal e o justiceiro influencer

A mudança de Nova York para Chicago não traz contexto, traz cenário de programa policial: vans brancas suspeitas, bandidagem genérica, cidade em colapso seletivo. O filme não está interessado em gangues matando gangues, a não ser para deixar uma Glock “sem papel” cair no colo do Doutor Paul — e aí, meu amigo, o juramento de Hipócrates vira “primeiro atire”.

Para parecer 2018, a produção cola memes e YouTube no roteiro: o justiceiro vira “Ceifador” de capuz, trending topic de rádio AM, e celebra a própria fama na TV. É quase interessante ver o personagem notar que estava morto por dentro até a matança dar sentido à vida. Quase. Porque, logo em seguida, o filme volta ao que importa pra ele: o balé da bala.

Mulheres? Motivações. Policiais? Figurantes. A cidade? Telão.

Elisabeth Shue entra só para morrer com dignidade; a filha serve de gatilho emocional; os policiais (Dean Norris e Kimberly Elise) existem para fazer piada com “violência cu de cu” e explicar que o caso “especial” é o do nosso herói branco de subúrbio. A “discussão” sobre armas e justiça privada pisca e some. Quando a coisa ameaça virar sátira, o filme amarelo dobra a aposta no fetiche.

Eli Roth, Joe Carnahan e um exército de talentos enxugando gelo

Tem cérebro envolvido (Carnahan, Alexander & Karaszewski), tem Vincent D’Onofrio mastigando cenário com gosto, e Willis, profissional, entrega um Paul Kersey contido quando não o obrigam a recitar slogans de stand your ground. Mas o elástico ideológico arrebenta: a cada “graça” metalinguística, vêm dez minutos de culto à bala. E bala, no cinema, é como guerra no Truffaut: filmar é enaltecer, por mais que finja o contrário.

O veredito (depois dos tiros)

Desejo de Matar é vigilante dad rock: fantasia de justiça para quem dirige a SUV ouvindo AC/DC e acha que a solução do mundo é uma Glock e um tutorial no YouTube. Como entretenimento de ação? Engole-se com gelo. Como comentário do presente? Curiosamente datado. Como remake? Tira o pó, mas espalha mofo.

Nota: (2/5) — duas caipirinhas pelo ritmo e pelo profissionalismo do elenco. O resto é wish-fulfillment suburbano com cheiro de pólvora e discurso de WhatsApp.