Dupla Perigosa (The Wrecking Crew) tem aquela cara de filme que você acha que já viu… e é exatamente por isso que funciona. Ele pega a cartilha do buddy movie — o certinho e o desajustado, a rivalidade virando afeto, a investigação que escala para conspiração — e executa com competência, carisma e uma quantidade saudável de explosões para te lembrar que isso aqui é entretenimento de sexta-feira à noite.
A dinâmica central é o motor: Dave Bautista faz James Hale, o irmão mais velho “organizado por fora, tenso por dentro”, ex-militar, pai de família, vida estabilizada perto de Honolulu. Jason Momoa é Jonny, o meio-irmão caótico, policial impulsivo, bebida, sarcasmo e um histórico emocional claramente mal resolvido. Eles passaram décadas afastados e se reencontram do jeito mais clássico possível: a morte do pai, Walter, um detetive particular meio canalha, morto num “acidente” que obviamente não é acidente. A partir daí, o filme faz o que sabe fazer: junta os dois num mesmo trilho e vai apertando o acelerador até virar perseguição, tiroteio, porrada e reconciliação.
O roteiro não reinventa a roda — e nem tenta. O mistério tem aquele perfume de “Chinatown com gravata frouxa”: grana, terra, gente poderosa, um esquema que sobe até o topo, com governador suspeito, magnata de imobiliária, capangas aos montes e um vilão estiloso o suficiente para parecer que saiu de uma balada errada e foi parar num filme de ação. É tudo bem reconhecível, mas a montagem é esperta: cada sequência empurra a próxima e o filme evita o erro mortal do streaming moderno, que é esticar plot como chiclete até perder o gosto.
O que levanta Dupla Perigosa acima do “ok, mais um” é o uso dos dois protagonistas. Momoa e Bautista entendem que o buddy movie depende menos da quantidade de bala e mais do atrito entre personalidades. O humor vem do jeito fraterno (às vezes cruel) de se cutucar, da hostilidade que esconde afeto e daquela química de “a gente se odeia, mas se reconhece”. E quando o filme desacelera, ele acerta em cheio: as melhores cenas não são as explosões, são as pausas em que os dois deixam a máscara cair e a história de família aparece com peso. Existe trauma ali, existe ressentimento antigo, existe um pedido de perdão que nunca foi dito — e é raro ver isso num filme que também quer te entregar carros voando.
Na direção, Angel Manuel Soto dá um acabamento mais caprichado do que o gênero costuma ganhar em “filme de plataforma”: ação bem coreografada, lutas com impacto (sem virar videogame), e um senso de lugar que ajuda. O Havaí aqui não é só cartão-postal: o filme tenta costurar cultura local, tensões de especulação imobiliária e um elenco com presença polinésia/indígena de forma menos decorativa do que o normal. Nem tudo é profundo, mas dá textura — e textura é exatamente o que falta em muito filme de ação feito no piloto automático.
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Claro: o tom oscila. Às vezes ele quer ser piadinha suja, às vezes quer ser melodrama de irmãos feridos, e nem sempre a costura é elegante. E a “fórmula” aparece com força no terceiro ato: capangas surgindo em ondas, revelações bem convenientes, e aquela sensação de que o filme está seguindo checkpoints. Mas como a dupla central segura a tela, você perdoa. Você veio pelo espetáculo, fica pela relação.
No fim, Dupla Perigosa é o tipo de filme que não finge ser arte elevada e por isso mesmo acerta o alvo: entrega ação R-rated com carisma, coração inesperado e uma dupla de protagonistas que realmente sabe atuar no meio do caos. Não é revolucionário. É melhor: é eficiente, divertido e feito por gente que entende que buddy movie não é sobre resolver crime — é sobre dois homens quebrados aprendendo a não se abandonar de novo.

