Por Julie Ribeiro
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet, 2025), de Chloé Zhao, se baseia no livro homônimo da premiada autora irlandesa Maggie O’Farrell e ficcionaliza a vida do maior escritor de todos os tempos. Na obra, acompanhamos a vida de William Shakespeare (Paul Mescal) em seus primeiros passos como dramaturgo em Londres, a criação do Globen Theatre e o desenvolvimento da peça Hamlet (1599-1601), após um trauma familiar vivido pelo autor. No entanto, a narrativa se dá pela perspectiva de Agnes (Jessie Buckley), que entrega a performance mais impactante da sua irrepreensível carreira.
Ainda que livro e filme ficcionalizem a vida de Shakespeare, alguns acontecimentos reais são inseridos na narrativa e servem para borrar a linha entre realidade e ficção, fato usual nas questões relativas ao Bardo. Vale destacar que o nome verdadeiro da esposa de Shakespeare era geralmente grafado como Anne Hathaway, mas, em documentos legais aparece também Agnes, já que nomes com grafias alternativas eram comuns à época. Ainda, Hamnet e Hamlet eram registros de um mesmo nome, comumente utilizados nos séculos XVI e XVII – fato que Zhao nos informa no início do filme.
Após um duvidoso Eternos (Eternal, 2021), a diretora chinesa nos entrega uma obra-prima que nos lembra o filme mais destacado de sua filmografia, Nomadland (2020). Mesclando marcas de seu cinema, como silêncio, pausas contemplativas e planos abertos misturados aos minimalistas, com partes reconhecíveis da obra de Shakespeare, como elementos da natureza e misticismo, Zhao arquiteta brilhantemente uma obra que transforma a maior peça teatral de todos os tempos em um drama familiar sobre superação.
Já na primeira cena, o filme dá o seu tom contemplativo, com Agnes deitada encolhida na floresta em frente a um buraco. A mística shakespearena é incorporada no filme por meio de longos planos na floresta, utilização de ervas medicinais, bruxaria, sonhos premonitórios e elementos sobrenaturais que têm um forte impacto no destino. Enquanto isso, a apresentação do personagem de Mescal se dá entre recortes de vidros de uma janela, onde se vê o espelhamento de árvores ao fundo, remetendo à complexidade multifacetada do personagem, e contrapondo à enigmática Agnes, quase sempre vestindo vermelho.
Contemplativo, silencioso e misterioso, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é um filme de atmosfera, com trilha instrumental que inclui a tocante “On the Nature of Daylight”, de Max Richter. Ainda, Zhao nos presenteia com inúmeras referências às obras de Shakespeare para além de Hamlet, como falas reconhecíveis de outras obras, ou diálogos das três bruxas de Macbeth (1603-1607), representados pelos filhos de Agnes e Hamlet. Aliás, a dinâmica familiar é um ponto forte do filme, com uma elaborada composição de planos por Zhao, que constrói quadros da casa no jogo de claro e escuro, a depender da emoção que pretende refletir. No entanto, são os planos abertos externos que conferem maior beleza ao filme, como os que acontecem na floresta ou no teatro, em meio a luz e sombras.
Passando por inquietude ou morte de animais, como abelhas e falcão, até um sonho onde água transborda, o filme é carregado de signos e metáforas, e a morte se apresenta, por meio de sombra, peste ou representação física. A partir da segunda metade, a obra cresce em intensidade dramática e impacta com as excelentes perfomances de Buckley e Mescal, que mesclam a culpa e o luto de seus personagens em atuações dignas das premiações que vêm concorrendo.
A parte final é um deleite para os amantes de teatro e emula a realidade vivida pelos personagens até então, com destaque para a floresta pintada que representa a mística que envolve a história de Hamlet, bem como os jogos de sombra que representam os estados dos personagens. A própria diretora entra na brincadeira entre ficção e realidade, colocando sobrenomes reais dos atores na encenação da peça no Globe. Ainda, a versão traz um novo contexto para o monólogo mais famoso de todos os tempos e faz nos questionar se “To be or not be” seria uma indagação não sobre matar, mas, sim, sobre suicídio. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet não se esforça para ser grandioso, mas flui de forma tão natural que se torna monumental em sua atmosfera.

