O Caso dos Estrangeiros (I Was a Stranger, 2024), primeiro longa do ativista e produtor Brandt Andersen, conhecido por sucessos como Feito na América (American Made, 2017) e Silêncio (Silence, 2016), é um filme que tensiona situações para tentar dar um panorama da luta de refugiados por sua sobrevivência.
Segmentado em cinco partes, o longa se divide entre Síria, Turquia, Grécia e Estados Unidos, mostrando uma possível trajetória de pessoas que vivem em situações extremas, passando por fronteiras, campos de refugiados e botes jogados ao mar. Em cada segmento, há um personagem que conduz a história – A Médica, O Soldado, O Traficante de Pessoas, O Poeta e O Capitão -, o que nos dá acesso apenas a uma parte da história, em uma narrativa fragmentada, nos atentando que, para que as guerras aconteçam, há vários lados que não se comunicam, impedindo os envolvidos de ver a totalidade dos fatos.
Retratando conflitos atuais, o filme abre com uma citação de William Shakespeare, que já trata questões dos estrangeiros no século XVI, que carregam sua vida nas costas, à espera da decisão de alguém poderoso para que possam sobreviver: infelizmente, versões dessa história continuam a se repetir ao longo dos séculos.
De forma quase didática, a primeira sequência do filme passa pelas águas – principal local a ser ultrapassado pelos refugiados por sua sobrevivência – e enquadra uma Trump Tower, em Chicago, em uma referência clara à maior voz contra refugiados nos últimos anos, o atual presidente dos EUA, Donald Trump.
O Caso dos Estrangeiros estreou no Festival de Berlim em 2024 e foi um projeto que surgiu a partir do curta Refugee (2020), primeira direção de Andersen e pré-selecionado ao Oscar de Melhor Curta-Metragem em Live Action. Sem poupar o espectador, o filme tenta reproduzir cenas que frequentemente aparecem nos noticiários, como bombardeios, cidades em ruínas, crianças abandonadas, ameaças e mortes. O diretor nos lembra, com algumas imagens chocantes, em como em situações limites, o ser humano perde a sua humanidade e os seus valores, já que, quem perde tudo, luta apenas pela sobrevivência.
Na primeira história, a médica Amira Homsi (Yasmine Al Massri, Miral, 2010), na exaustão de 72 horas de plantão em um hospital recebendo feridos, é ameaçada ao tentar salvar um paciente, sendo questionada por um soldado. “Se você salva o inimigo, você é o inimigo”, ele diz. Inimigo este que se revela como uma criança ou um idoso que tentam protestar contra os excessos de uma ditadura armada e salvar pessoas na vizinhança. Mais a frente, no segundo segmento, o soldado Mustafa (Yahya Mahayni, O Homem que Vendeu sua Pele, 2020), a serviço de uma Síria Unida, começa a questionar as ordens que vêm recebendo, ao se deparar com a brutalidade das ações contra cidadãos comuns.
Na terceira parte, Omar Sy (Intocáveis, 2011), é Marwan, um traficante que cobra caro de refugiados desesperados na travessia do mar a caminho da Europa. Sem escrúpulos, seu personagem afirma que o seu trabalho se dá a partir de uma demanda criado pelos Governos a partir das guerras. Em determinado momento, abandonando os refugiados e com 30 mil em mãos, ele afirma que se eles conseguirem chegar ou não, o dinheiro continua o mesmo. No entanto, apesar da crueldade, Andersen não tenta demonizar Marwan e nos dá a sua perspectiva: em dificuldade, ele faz tudo para salvar o filho; todos têm o seu lado e estão tentando apenas sobreviver.
Nas duas últimas partes do longa, “O Poeta” e “O Capitão”, o diretor nos oferece um contraponto ao ato anterior e reafirma que, mesmo em zonas de conflito, ainda há quem não perdeu a sua humanidade e arrisca a própria vida para salvar o outro. Nas partes finais do longa, cenas angustiantes de refugiados no mar expõem o problema crescente que o mundo vem enfrentando nas últimas décadas.
Embora a escolha do diretor de fragmentar a história funcione para dar um panorama da individualidade das trajetórias, por vezes, o sentimento é de que o fluxo da narrativa se perde. Ainda, a inserção de vários personagens em cada segmento torna confusa a identificação das histórias nos cruzamentos das cenas seguintes. Ao escolher privilegiar cinco pontos de vista, para tentar, de forma acertada, não cair no maniqueísmo de eleger apenas um lado, falta tempo de tela para um desenvolvimento maior das narrativas.
Falado em vários línguas e com vários momentos difíceis de assistir, no entanto, essa fragmentação no filme mostra de forma crua a dificuldade de comunicação presente em zonas de conflito e reitera que, todos, com exceção de grandes empresas e governos, têm a perder. O fechamento, na “América”, terra das oportunidades, é de cortar o coração, já que, mesmo quem chega, perde quase tudo.

