review o mal que nos habita

Review O Mal Que Nos Habita: quando a possessão vira epidemia (e o roteiro pega carona na ambulância)

O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: esta crítica contém spoilers, fluidos verdes, decisões imbecis e um manual de “coisas que você não deve fazer perto de um possuído”.

Demian Rugna não veio brincar. O Mal Que Nos Habita abre com um estrondo noturno, uma meia carcaça no mato e um “limpador” (exorcista de aluguel) que virou isca — e, antes dos dez minutos, você entende a regra número zero deste universo: a possessão é contagiosa, espalha medo como praga de lavoura e transforma aldeia em zona de exclusão. É terror de estrada com espírito de filme de contágio, trocando padres por peões, água benta por bala calibre 12 e dogma por superstição rural. E, durante um bom tempo, funciona como um murro no estômago.

O ponto de partida é simples e cruel: os irmãos Pedro (Ezequiel Rodriguez) e Jimi (Demián Salomón) trombam com a consequência de um exorcismo que deu errado e com um “podre” (assim se chama o hospedeiro do demônio) que suplica por morte. Autoridades? Riem. Vizinhos? Querem tirar o problema da vista — literalmente jogando o corpo num caminhão para “desovar longe”. Resultado: a coisa espalha. E o filme entra em modo contaminação, com o mal saltando de sítio em sítio, reanimando cadáver, dominando bicho, criança e adulto, e impondo um conjunto de regras perversas (“não use luz elétrica, não atire, não pronuncie nomes”) que soam menos catecismo e mais trollagem demoníaca.

Rugna, que já tinha feito barulho com Aterrados, volta a exibir seu talento para set pieces que grudam na retina: a primeira visita à casa da família infectada é um pântano de pústulas e desespero; a sequência na fazenda vira massacre com lógica de contágio; e as cenas envolvendo crianças e animais — sim, ele não tem medo de atravessar essa linha — são tão brutais que parecem enviadas por correio com aviso de “conteúdo perturbador”. Mariano Suárez filma o campo argentino como não-lugar hostil, poeira, horizonte cortado e uma luz doentia que anuncia catástrofe. A trilha de Pablo Fuu rosna metal nas frestas, e a edição de Lionel Cornistein mantém a urgência no talo enquanto o roteiro deixa a corda bambear.

E é aí que começam as rachaduras. O Mal Que Nos Habita é um daqueles filmes que te agarra pela garganta no primeiro ato e depois troca de lado na luta. A narrativa se fragmenta, some com personagens por longos intervalos, reaparece em outra chave, muda o foco de família e perde densidade emocional no meio da correria. O conceito de “posse-epidemia” é ótimo, as regras do jogo são intrigantes, mas Rugna gosta tanto de desestabilizar que, em certo ponto, o conjunto parece uma coletânea de sustos de primeiríssima qualidade conectados por fita crepe. A front-load de choques é tão forte que o filme passa o restante perseguindo a própria sombra.

O texto também brinca perigosamente com “o que vale e o que não vale” no universo: armas e luz elétrica atraem o mal — até a próxima cena, quando alguém descarrega munição e o roteiro escolhe ignorar a regra porque a catarse pede; nomes não devem ser ditos — até o demônio decidir que tanto faz; mover um podre espalha a praga — mas a plotagem exige road movie, então vamos lá. Não chega a quebrar a suspensão de descrença, porque o clima manda mais do que o código, porém deixa a sensação de que o filme é menos cosmogonia fechada e mais vibe implacável.

No elenco, todo mundo compreende a missão: Ezequiel Rodriguez e Demián Salomón vestem a exaustão e a culpa como segunda pele; Luis Ziembrowski aparece como o vizinho que pensa com o bolso e acende o pavio do caos; Silvina Sabater surge tarde como “limpadora” veterana e entrega o tipo de pragmatismo sinistro que a história pedia desde o início. Não há camp, não há piscadela — o realismo das atuações é o cimento que permite engolir as maiores atrocidades.

Tecnicamente, o pacote é tão caprichado quanto sádico: efeitos práticos viscosos, make-up de virar estômago, design sonoro que range, grita, range de novo e te impede de respirar. O demônio de Rugna não filosofa: ele desmantela. O filme sabe disso e investe na materialidade da violência — o que, convenhamos, é refrescante num subgênero lotado de sermão e crucifixo.

Agora, a parte espinhosa: e quando a marreta para de bater? O terceiro ato tenta costurar tudo com a urgência de quem percebeu que tem muita ponta solta para pouco tempo de projeção. A sensação é de capítulo do meio de uma saga que ainda não foi escrita: backstory do mal fica nebuloso, regras seguem elásticas, e as perguntas grandes — “o que é essa entidade?”, “qual a lógica por trás das proibições?”, “há saída que não seja o extermínio?” — são adiadas com acenos a possíveis continuações. Entre a honestidade de não explicar o inominável e a comodidade de guardar tudo para a franquia, o filme escorrega mais para a segunda.

Mesmo assim, vou ser claro: prefiro mil vezes o risco sujo de Rugna ao terror pasteurizado de prateleira. O Mal Que Nos Habita é grosseiro, imprevisível e cruel — e isso é elogio —, com momentos que beiram o inesquecível (o desfecho na casa da ex-esposa, a violência seca sem preparação, a maneira como o mal usa as pessoas como alto-falantes). Falta-lhe a coerência cruel que elevaria a coisa de “experiência marcante” para “clássico instantâneo”. Sobra-lhe ferocidade cinematográfica — e um talento raro para encenar pavor sem rede.

Veredito

Quando Rugna aperta o pescoço, você não pisca. Quando ele solta para trocar de pista, você sente. O Mal Que Nos Habita é um filme-praga: pega rápido, deixa marcas e, mesmo com recaídas de roteiro, espalha o horror com confiança e estilo. Se vier continuação, que venha com menos fita crepe e mais bisturi.

Nota: 4 de 5 facões — um corte fundo, alguns pontos soltos, e um rastro de medo que não cicatriza fácil.