Tem filme de guerra que te seduz com estratégia, heroísmo e mapa tático. O Tanque de Guerra faz o contrário: ele te tranca dentro do metal, te obriga a respirar o mesmo ar ruim da tripulação e vai apertando o parafuso moral até você perceber que, ali, o inimigo não é só o “lado de fora” — é a cabeça de quem continua obedecendo. No fronte oriental, 1943, uma equipe de um tanque Tiger é enviada numa missão além das linhas disputadas e, no processo, precisa encarar “o inimigo e seus próprios demônios internos”.
É um conceito simples e cruel: um filme de travessia em que a estrada vira liturgia de paranoia. E o tanque, mais do que um veículo, vira uma tese: proteção e prisão ao mesmo tempo.
Sobre o que é
Na frente oriental da Segunda Guerra, cinco soldados alemães partem em missão secreta num Tiger e se afastam cada vez mais de território “amigo”, entrando num espaço inimigo que parece não terminar nunca. A jornada vai corroendo o grupo por dentro — medo, culpa, fé na hierarquia, e aquela obediência que continua mesmo quando a realidade já gritou “deu errado” faz tempo.
Dirigido por Dennis Gansel (aqui num modo bem mais sufocante do que “espetaculoso”), com roteiro dele e de Colin Teevan, o filme escala David Schütter (tenente Philip Gerkens) e um elenco que segura bem a ideia de “homens comuns presos numa máquina monstruosa”.
O que o filme acerta (e acerta forte)
1) Claustrofobia como linguagem, não como truque
O Tanque de Guerra entende um ponto essencial: guerra também é rotina. Não é só a explosão — é o rangido, o tempo, o barulho mecânico que nunca desliga, a repetição que desgasta. A câmera vive perto demais, como se o espectador fosse mais um ali espremido.
2) A melhor tensão é a que nasce da dúvida
O filme brinca com uma sensação persistente de “tem algo errado com essa missão”. Não precisa fazer discurso; basta plantar desconfiança e ver como cada personagem reage: tem o que endurece, o que começa a questionar, o que se apega ao Reich como se fosse bóia em mar revolto.
3) Anti-guerra sem glamour (quase sempre)
O mérito aqui é delicado: humaniza sem inocentar. Não é “coitadinhos”; é “olha o tipo de justificativa que alguém fabrica pra continuar”. Isso é incômodo do jeito certo.
Onde ele escorrega
O filme é muito melhor quando observa do que quando explica. Em alguns trechos, a narrativa verbaliza conflitos que já estavam estampados no enquadramento e no silêncio. E existe um risco estrutural: a jornada vira uma sequência de “pontos no mapa” e, se você não estiver comprado pela química do grupo, pode sentir a repetição.
Além disso, o desfecho tem aquela energia de “agora vai!” — só que certas cartas parecem ser reveladas tarde demais, o que dá um gosto de anticlimax para parte do público.
Elenco e direção
O elenco funciona justamente por evitar o teatrinho. David Schütter segura o papel central sem transformar o filme em vitrine, e o resto do time (Laurence Rupp, Leonard Kunz, Sebastian Urzendowsky, entre outros) cria um microecossistema crível de tensão e convivência forçada.
E Gansel dirige com precisão quando confia na claustrofobia e no desconforto como motores — o tanque vira cenário, personagem e sentença.
Veredito
O Tanque de Guerra é um filme que incomoda do jeito certo: tenso, sufocante, moralmente pegajoso. Quando tenta explicar demais, perde potência. Quando volta ao método (confinamento + desgaste + paranoia), vira uma experiência que gruda.
Nota: 3,5/5 — sólido, provocador e tecnicamente competente, com momentos realmente brutos.
Onde assistir
Está disponível no Prime Video.

