review primata

Review Primata: 89 minutos de chimpanzé possuído pela pior ideia humana possível

poster primataPrimata entende uma verdade universal do terror de janeiro: quando o ano ainda está com cheiro de agenda nova e a sua energia mental está no modo economia, você não quer metáfora, quer adrenalina. E Johannes Roberts entrega exatamente isso: um slasher enxuto, sem firula, com a coragem moral de admitir que veio ao mundo para te divertir com a pior decisão possível — “vamos tratar um chimpanzé como membro da família”.

A história é simples do jeito que esse tipo de filme precisa ser. Numa mansão luxuosa e isolada no Havaí, Ben — o chimpanzé criado como “filho” por uma família marcada por luto — vira o centro de um colapso. O pai (Troy Kotsur) é um escritor bem-sucedido, a casa é grande demais, o sinal é inconvenientemente frágil e, claro, chega o fim de semana com jovens achando que estão num filme de conforto… até perceberem que estão no filme errado. Em meia hora, Primata aperta o botão do caos e não solta mais.

O maior trunfo do filme é a eficiência. São 89 minutos que passam como descida de montanha-russa: set-up rápido, uma desculpa funcional para isolar os personagens e uma sequência de tensão que se reorganiza o tempo todo conforme o espaço da casa vira tabuleiro. Roberts sabe filmar geografia. Ele esconde, sugere, atravessa corredor, brinca com ângulo e sombra, e faz você ficar esperando o “apareceu?” com aquele prazer meio idiota que o slasher bom provoca.

E tem um detalhe que eleva a brincadeira: o trabalho do “bicho” é bom demais. Mistura de performance física, efeitos práticos e CGI discreto cria um Ben assustador justamente por parecer real. Não é um monstro digital genérico; é uma presença. E isso muda tudo, porque a sensação é menos “criatura de filme” e mais “isso não devia estar aqui”.

Agora: os personagens são profundos? Não. E o roteiro faz concessões convenientes? Faz. Mas, honestamente, Primata não está fingindo que é um tratado sobre humanidade. É um B-movie que sabe o que é. A graça está na burrice funcional (as escolhas ruins que te fazem xingar a tela), no suspense bem encaixado e na inventividade de como o perigo se aproxima. É aquele terror que você assiste com a mão na cara e um sorrisinho no canto da boca.

Ainda assim, o filme flerta com uma tragédia pequena e interessante: a família tenta enxergar “o Ben de antes” quando tudo já saiu do trilho. Essa ideia — o afeto como negação — dá uma camada a mais sem atrapalhar o ritmo. Não vira drama, mas dá um tempero que impede Primata de ser só barulho.

No fim, Primata é o tipo de terror que você recomenda com uma frase curta e maldosa: “é ótimo… justamente porque não tenta ser melhor do que é”. Rápido, tenso, bem feito e suficientemente escroto pra abrir 2026 com um sorriso culpado. Se você quer um slasher direto ao ponto, aqui está.