Quero Ser Grande é daqueles filmes que moram na memória afetiva de quem cresceu vendo Sessão da Tarde. Você lembra da cena do piano gigante, do sorriso do Tom Hanks, do tom leve, da fantasia impossível. Mas o tempo passa, a cabeça muda — e o filme também muda quando você revê.
E isso não é defeito. É justamente o que torna Quero Ser Grande interessante hoje.
A história todo mundo conhece: um garoto de 13 anos, frustrado com as limitações da infância, faz um desejo impulsivo para “ser grande”. Acorda no dia seguinte adulto, preso no corpo de um homem, mas com a cabeça — e o coração — de um menino. A partir daí, o filme vira uma espécie de conto de fadas urbano, em que a lógica importa menos do que a mensagem.
E aqui está o ponto-chave: Quero Ser Grande nunca quis ser realista. Ele é uma fábula. Uma fantasia exagerada. Um “e se?” levado às últimas consequências. Quando você tenta analisar o filme como se fosse um drama realista, ele desmorona. Mas quando você aceita o jogo, ele funciona — e muito.
A direção de Penny Marshall deixa isso claro o tempo todo. A câmera nunca nos deixa esquecer que, por trás daquele adulto, existe uma criança. O corpo é de homem, mas o olhar, o espanto, a forma de reagir ao mundo são infantis. Tom Hanks constrói um personagem que não “finge” ser criança: ele é criança. E isso faz toda a diferença.
O filme também usa o mundo corporativo como sátira. A ascensão do protagonista dentro da empresa acontece não porque ele é genial, mas porque ele não perdeu a capacidade de brincar. Ele entende brinquedos porque ainda pensa como alguém que brinca. É quase um tapa na cara do adultismo corporativo: quem cresce demais esquece o básico.
É aí que o filme revela sua camada mais forte. Quero Ser Grande não é sobre virar adulto. É sobre o preço de virar adulto rápido demais. Sobre como a vida adulta exige que você abandone a leveza, a curiosidade, a espontaneidade — e como isso pode ser profundamente triste.
Sim, existe hoje um incômodo inevitável em torno do relacionamento amoroso do personagem. É impossível ignorar. O filme foi feito em outro tempo, com outra sensibilidade, e certas situações hoje soam problemáticas. Apontar isso é válido. Mas reduzir Quero Ser Grande apenas a essa polêmica é perder o essencial: o filme não celebra isso, ele simplesmente usa a situação como parte da fábula absurda que está contando.
A personagem de Elizabeth Perkins, inclusive, ganha uma leitura mais rica quando vista com maturidade. Ela não é apenas “a adulta que se envolve com o garoto”. Ela é uma mulher perdida, insegura, tentando se apoiar emocionalmente em relações instáveis. O encontro entre os dois não é romântico no sentido clássico — é um choque de carências.
E no meio disso tudo está Tom Hanks, no papel que praticamente definiu sua carreira. Não à toa, foi esse filme que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar. O carisma, a inocência, o humor físico e o olhar encantado para o mundo já estavam todos ali, prontos para explodir nos anos seguintes.
Rever Quero Ser Grande hoje é uma experiência curiosa:
você ri menos,
pensa mais,
e talvez sinta um certo aperto no peito.
Porque o filme continua dizendo a mesma coisa de sempre — só que agora você entende melhor:
crescer não é exatamente virar adulto. É aprender o que vale a pena não perder.
🎬 Veredito Cinema de Buteco
Uma fábula imperfeita, datada em alguns pontos, mas ainda irresistível. Um filme que não pede lógica, pede entrega — e recompensa quem aceita brincar.
❓ FAQ – Perguntas frequentes sobre Quero Ser Grande
Quero Ser Grande envelheceu mal?
Em alguns aspectos, sim. Em outros, envelheceu surpreendentemente bem. Depende do olhar.
O filme é uma comédia ou um drama?
É uma comédia fantástica com fundo melancólico. A graça vem junto com um certo incômodo.
Vale a pena rever hoje?
Vale — desde que você aceite que não é mais a mesma pessoa que viu o filme pela primeira vez.
O que faz o filme funcionar até hoje?
Tom Hanks. Sempre Tom Hanks. E a simplicidade honesta da mensagem.
É um filme infantil?
Não exatamente. É um filme sobre infância — feito para adultos que já a perderam.

