O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: esta review pode causar taquicardia em Swifties. Respira, conta até 13 e vem.
“É nosso trabalho fazer parecer fácil”, diz Taylor em off. Perfeito: a docussérie da Disney+ também faz parecer fácil vender seis episódios de gestão de marca como se fosse “a alma por trás da maior turnê da história”. The End of an Era é o equivalente audiovisual a um press-kit milionário: emocionante nos lugares certos, lacrimejante quando convém e, acima de tudo, seguro. Quando os bastidores realmente ameaçam virar bastidores — logística caótica, decisões impopulares, política interna, dinheiro, contratos, Ticketmaster, impactos ambientais, burnout, relações de poder — a câmera dá meia-volta e corre para o abraço quentinho do “nós somos uma família”. Bonito? É. Honesto? Nem de perto.
No que funciona, funciona muito. O recorte das ameaças em Viena e do ataque em Southport desloca o espetáculo para o campo da vulnerabilidade real — e aí a série acerta o tom. Ver a artista pausar a engrenagem para acolher famílias e retomar os shows sob vigilância máxima humaniza. Do outro lado do palco, o relato do bailarino Kameron Saunders sobre corpo, persistência e pertencimento dá densidade que o roteiro, em geral, evita. A construção secreta do bloco de The Tortured Poets Department (ensaio no clique sem música) mostra um time de elite operando com precisão absurda. O problema? O que é humano surge como exceção. O pacote principal continua a ser controle de narrativa.
E aí mora o ronco do motor: The End of an Era quer ser “a história por trás da história”, mas se contenta em ser uma memória curada da própria Taylor. O fandom vai dizer que a série é sobre comunidade, segurança e catarse (é, em parte); eu digo que é sobre parasocialidade premium. Transformar telefonema com Travis Kelce em epílogo de episódio não é “vida íntima”, é engajamento. O formato semanal? Dose homeopática para manter trend ativa. E, quando o texto toca em trabalho — coreografia, cenografia, hidráulica, crono de troca de eras — a direção encena como se fosse making-of de comercial: tudo lindo, nada fricciona. Cadê a conversa dura sobre precificação de ingressos, cadeia de fornecedores, cidades sitiada por turismo de evento, carbono de deslocamento, saúde mental de equipe? A maior artista do planeta poderia pautar isso com o mesmo alcance com que pauta pulseirinha da amizade. Escolhe não.
Antes que alguém pergunte: não, eu não queria um tribunal. Queria arte ou jornalismo — ou os dois. O que recebo são tropos: roda de oração pré-show, ritual backstage, “somos perfeccionistas porque amamos os fãs”, depoimentos em tom de TED Talk, clímax em câmera lenta, fade em gliter. É o MCU da auto-mitologia pop: tudo canonizado, zero risco. A série de concerto de 2023 já havia cumprido o papel de monumento. Esta, vendida como “a pele por trás do monumento”, acaba virando verniz.
“Ah, mas te emocionou?” Sim — e é justamente por isso que irrita. Quando a maior máquina cultural do nosso tempo decide emocionar sem revelar, é porque confia (com razão) que o público vai preencher lacunas com devoção. Taylor entende o jogo melhor do que ninguém. E a série prova isso na prática: sofisticação industrial travestida de confissão. Não é crime. É estratégia. Só não me venda estratégia como catarse.
Veredito do Buteco: The End of an Era é impecável como propaganda, eficiente como ventilador de lágrimas e tímido como documentário. Vai fazer Swiftie chorar de novo? Vai. Vai irritar quem queria tirar a maquiagem do mito? Também. E é aí que a coisa fica interessante: você quer ver a Taylor ou quer ver a verdade sobre o fenômeno Taylor? Escolhe teu veneno e comenta aqui embaixo — vale xingar com criatividade, vale defender com argumento. Só não vale dizer que é profundo porque ficou bonito em 4K.
Nota: ½/5 — Spritz de gliter: doce, cintila, tira foto linda… mas tem mais gás do que substância.

