review telefone preto 2

Review Telefone Preto 2: quando a sequência resolve atender do além (e, contra todas as probabilidades, dá linha)

Ligue de volta para 1982: Finney (Mason Thames), sobrevivente oficial do primeiro filme, ainda tenta decifrar como se volta a ser adolescente depois de matar um boogeyman de máscara sorridente e dormir com o barulho do telefone que só toca para quem já morreu. Pois bem, Scott Derrickson e C. Robert Cargill escolhem a única rota que parecia fadada ao ridículo e fazem o que todo estúdio com medo de fracasso não faz: abraçam o sobrenatural de vez. O Grabber de Ethan Hawke retorna “do outro lado” (sim, literalmente), mais poderoso, menos humano e interessado em revanche — enquanto Gwen (Madeleine McGraw) segue como antena mediúnica da franquia, agora recebendo ligações oníricas que a levam a um acampamento de inverno chamado Alpine Lake, onde três garotos são perseguidos por uma presença que conhece cada trilha, cada brecha de gelo, cada respiração.

O ponto é: trazer o assassino de volta poderia afundar qualquer continuação num pântano de muletas fáceis; aqui, curiosamente, expande a gramática do original. Derrickson troca a claustrofobia do porão por uma mitologia de beira de lago gelado, sonhos que parecem cenas deletadas de Dream Warriors, ecos de giallo na composição cromática e um flerte descarado com o horror religioso (a culpa, as visões, o pecado que retorna como dívida pendurada na linha). Há coragem em deslocar o eixo do terror do “serial killer grounded” para o “fantasma que joga em múltiplos tabuleiros”, e o filme se diverte com as expectativas: quando você acha que virá o susto óbvio, entra uma virada de regra; quando espera a explicação pasteurizada, a narrativa prefere o desenho de sensação — e é aí que o segundo ato engrena.

Tecnicamente, o filme tem personalidade. Pär M. Ekberg fotografa a neve e o negrume como se a tela estivesse sempre à beira de estourar, Patti Podesta preenche os espaços com simbologias discretas (enfeites, máscaras, objetos que “guardam memória”), e a trilha de Atticus Derrickson (sim, o filho) dá aquele empurrão de pulsação fria sem o vício do drone eterno. Na hora H, Derrickson mostra que ainda sabe dirigir tensão com geografia: a sequência no lago congelado é um manual de como fazer clima, ritmo e payoff sem precisar gritar no ouvido do espectador.

O elenco entrega o que precisa. Hawke volta ainda mais malicioso por trás da máscara — menos corpo, mais presença. Thames carrega Finney com um desgaste crível de trauma (tem cansaço, tem raiva, tem o peso de “ter sido o escolhido” que não pediu para ser), e McGraw continua a bússola emocional da franquia, agora com sonhos que são praticamente chamadas a cobrar do submundo. Entre os novos, Demián Bichir surge e some com competência, cumprindo a cota de adulto que cheira perigo e história mal resolvida.

Nem tudo toca perfeito. O filme tem pequenas estáticas — uma montagem ocasionalmente ansiosa, um ou outro diálogo que soletra tema (não precisava, a imagem dá conta), e uma tentação de “bater cartão” em sustos que funcionam melhor pelo acúmulo do que pelo pique individual. Mas, ao contrário do glutão de jumpscares do mercado, Telefone Preto 2 constrói atmosfera; quando a violência vem, ela vem com sentido de cena, não como alarme de carro.

A melhor surpresa é que funciona como continuação e como porta de entrada. Quem viu o primeiro vai reconhecer o eco das “ligações dos mortos” e o nó na garganta da culpa; quem chegar agora encontra um filme que sabe brincar com o parque de diversões do horror sem virar pastiche. E, sim, é mais sangrento e mais amplo — uma expansão que, no papel, parecia o momento “levar a franquia para o espaço”, mas aqui encontra um limite saudável: avança um passo, não três.

No mundo em que continuações correm para virar franquia em três atos e um spin-off, o telefonema mais inteligente talvez seja encerrar a ligação por aqui. Há material para prequel? Claro. Deve? Nem sempre o que pode, deve. Telefone Preto 2 atende, assusta, e desliga na hora certa — qualidade rara em 2025.

Veredito: um sequel que amplia o medo em vez de explicá-lo, com direção segura, set piece memorável no lago e um Ethan Hawke que transforma máscara em teologia do mal. Não reinventa o aparelho, mas deixa o toque na cabeça por dias.