tempo de violência review

Review Tempo de Matar: o thriller que te envolve no júri… e depois te deixa pensando no sistema

O CINEMA DE BUTECO ADVERTE: esta crítica contém spoilers e um barril de dilemas morais.

Joel Schumacher nunca foi bobo. Em Tempo de Matar (1996), ele coloca a câmera no nosso colo e empurra os botões certos: crime hediondo, pai devastado, jovem advogado branco com brilho de herói, Ku Klux Klan de cosplay macabro, cidade sulista fervendo — e um tribunal como arena de catarse nacional. Funciona? Funciona muito bem enquanto você assiste. O problema é o gosto que fica depois, quando o calor das palmas cede lugar à coceira das perguntas.

A trama é conhecida: dois racistas estupram uma menina negra de 10 anos no Mississippi; o pai, Carl Lee Hailey (Samuel L. Jackson, gigante), executa os monstros no fórum; sobra pra Jake Brigance (Matthew McConaughey, à beira do estrelato) defender o indefensável — não o gesto, mas a legalidade dele — enquanto a cidade vira caldeirão de ódio, cruzes queimadas e oportunismo político. No asfalto, a multidão; no plenário, o teatro. É Grisham em estado puro: suspense jurídico como parque de atrações morais.

Schumacher dirige com mão firme e olho comercial: ritmo que não desaba, casting de luxo (Sandra Bullock, Ashley Judd, Kevin Spacey, Donald Sutherland, Kiefer Sutherland, Oliver Platt), fotografia dourada que mitifica o sul e trilha de James Newton Howard carregando o pathos no colo. É o melhor pacote “Grisham no cinema”? Provavelmente sim. O filme tem pulso, suor e lágrimas — e McConaughey entrega o closing argument da carreira (à época), daqueles que inflam plateia e convencem jurado cético (e espectador também).

Mas aí vem a conversa incômoda: de quem é a história? O roteiro faz questão de colocar um crime contra uma menina negra no centro — para, em seguida, pivotar a dramaturgia para o olhar e a redenção do advogado branco. Os personagens negros, salvo Carl Lee, orbitam como “atmosfera”: a mãe da vítima mal existe, lideranças comunitárias surgem como nota de rodapé e o conflito racial vira combustível para o arco do herói. É o pacote clássico do white savior em corte premium: bem interpretado, bem filmado, emocionalmente irresistível — e politicamente confortável.

O momento-chave disso é a famosa frase de Brigance no júri: “Agora imaginem que ela é branca”. A construção dramática é eficiente, mas revela a ferida: o filme (e o sistema que ele representa) admite, sem rubor, que a empatia da banca depende da pigmentação da vítima. Em vez de confrontar esse abismo, a narrativa usa-o como alavanca de vitória. É um joguinho perigoso: o público chora, a consciência se alivia, e voltamos pra casa com a sensação de que a justiça triunfou — quando, na prática, triunfou uma exceção habilmente argumentada.

Ainda assim, seria desonesto fingir que Samuel L. Jackson não carrega o filme nos ombros. Seu Carl Lee é dor, furor e cálculo — humano antes de virar símbolo. Nos melhores momentos, o duelo íntimo entre ele e Jake reduz o circo àquilo que interessa: um pai esmagado pela certeza de que o Estado falharia com sua filha. É ali que o filme toca o nervo. E é por isso que a catarse final, mesmo com atalhos (o veredito gritado por uma criança como se “inocente” e “não culpado por insanidade temporária” fossem sinônimos), consegue comover.

Nos arredores, Sandra Bullock faz a estagiária rica idealista com carisma de sobra, mas a personagem existe para servir ao mito Brigance; Kevin Spacey compõe um promotor frio e teatral, um antagonista de vitrine; Kiefer Sutherland lidera a Klan como cartilha de vilão; Donald Sutherland e Oliver Platt embebedam seus mentores com dignidade. Todo mundo entrega. O circo funciona.

E é justamente por funcionar tão bem que Tempo de Matar merece o aftertaste crítico. O filme dá a sensação de “vitória moral sem custo estrutural”: vencemos aquele júri, naquela cidade, naquele caso — e vida que segue. Não há interesse em discutir por que Carl Lee tinha certeza da impunidade dos estupradores, ou como um sistema que depende da cor da vítima pode se chamar Justiça. A Klan vira inimigo midiático conveniente, enquanto o racismo cotidiano, institucional, fica fora de quadro. É cinema que faz a digestão por você. Delicioso — e indigesto depois.

Dito isso: como thriller jurídico, é exemplar. Como drama de tribunal, hipnótico. Como retrato do Sul e de suas tensões, é um cartão-postal inflamado que escolhe mito e melodrama em vez de fissura e ferida. Há honestidade no choro? Há. Há manipulação na trilha? Também. E é nesse casamento que o filme morou por quase três décadas no imaginário: no território onde o cinema te faz sentir certo antes de te fazer pensar certo.

Veredito

Tempo de Matar é um baita entretenimento de tribunal com performances matadoras e perguntas que chegam atrasadas. Você sai eletrizado — e depois, se tiver bom senso (e um pouco de azia), volta para revisitar o que, afinal, foi salvo ali: a consciência da plateia ou a justiça para quem sempre precisa imaginá-la branca para ser ouvida?

Nota:3,5 de 5 caipirinhas — um brinde à força dramática… e um gole amargo pra lidar com o resto.