Jim Carrey e Nicole Kidman esnobados?” 5 vezes que o Globo de Ouro acertou em cheio e o Oscar errou feio.

No Cinema de Buteco, nós sabemos que as premiações são um jogo de política, timing e, às vezes, pura injustiça. O Globo de Ouro costuma ser o “primo festeiro” do Oscar: menos sisudo, dividido entre Drama e Comédia/Musical, o que permite que performances fora da curva ganhem o devido reconhecimento.

No entanto, o histórico mostra que vencer o Globo de Ouro nem sempre é passaporte carimbado para a estatueta dourada da Academia. De fato, existem casos em que o ator vence o Globo e sequer é indicado ao Oscar, um “esnobada” que reverbera por décadas nas mesas de bar dos cinéfilos.

Selecionamos 5 performances icônicas que triunfaram no Globo de Ouro, mas foram sumariamente ignoradas pela Academia. Confira:


1. Jim Carrey em ‘O Show de Truman‘ (1998)

Jim Carrey era o rei da comédia física nos anos 90, mas em 1998 ele chocou o mundo com uma transição dramática impecável. Como Truman Burbank, Carrey entregou uma atuação melancólica, sutil e profundamente humana sobre um homem cuja vida inteira é um reality show.

  • O Triunfo: Venceu o Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama, batendo nomes como Ian McKellen e Nick Nolte.

  • A Injustiça: O Oscar ignorou Carrey completamente. O mais bizarro? O diretor Peter Weir e o coadjuvante Ed Harris foram indicados. O “esnobe” se repetiu no ano seguinte com O Mundo de Andy, onde Carrey venceu o Globo de Comédia/Musical e novamente ficou de fora do Oscar. Parece que a Academia ainda não estava pronta para aceitar que o “Ace Ventura” sabia atuar de verdade.

2. Nicole Kidman em ‘Um Sonho Sem Limites‘ (1995)

Antes de se tornar a queridinha do Oscar, Nicole Kidman teve que lutar por respeito. Em Um Sonho Sem Limites (To Die For), ela interpreta Suzanne Stone, uma mulher obcecada pela fama televisiva capaz de cometer um assassinato para chegar ao topo. É uma sátira ácida e Kidman está fenomenal.

  • O Triunfo: Venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia ou Musical.

  • A Injustiça: Nem sinal de indicação ao Oscar. A Academia tem um histórico problemático com atuações cômicas ou satíricas, e o trabalho de Kidman foi considerado “leve” demais para os padrões dramáticos da época. Anos depois, ela ganharia por As Horas, uma atuação que muitos críticos consideram inferior ao seu trabalho visceral neste clássico cult de Gus Van Sant.

3. Sacha Baron Cohen em ‘Borat‘ (2006)

É difícil mensurar o impacto cultural de Borat Sagdiyev em 2006. Sacha Baron Cohen não apenas atuou; ele viveu o personagem em um estilo de guerrilha cinematográfica que borrou as fronteiras entre realidade e ficção. Foi uma das performances mais corajosas e influentes do século XXI.

  • O Triunfo: Venceu o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical.

  • A Injustiça: O Oscar indicou o roteiro, mas ignorou o ator. A resistência da Academia em premiar personagens puramente cômicos e caricatos (mesmo que brilhantes) impediu que Cohen fizesse história. Ele precisou interpretar um personagem “sério” em Os 7 de Chicago (2020) para finalmente ser indicado como ator coadjuvante.

4. Gene Hackman em ‘Os Excêntricos Tenenbaums’ (2001)

Wes Anderson tem um estilo visual tão forte que, às vezes, as atuações em seus filmes são deixadas de lado pelas premiações. No entanto, Gene Hackman entregou como Royal Tenenbaum uma das melhores e mais complexas atuações de sua carreira, equilibrando cinismo e redenção como o patriarca de uma família disfuncional.

  • O Triunfo: Venceu o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical.

  • A Injustiça: Nenhuma indicação ao Oscar. Hackman já tinha dois Oscars na estante (Operação França e Os Imperdoáveis), o que pode ter gerado certa complacência nos votantes. O fato é que sua ausência definiu um padrão negativo: até hoje, nenhum ator em um filme de Wes Anderson foi indicado ao Oscar, apesar de elencos sempre estelares.

5. George Clooney em ‘E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?’ (2000)

No ano 2000, George Clooney estava tentando provar que era mais do que um rostinho bonito de ER ou o cara que quase destruiu a franquia do Batman. Sob a direção dos irmãos Coen, ele revelou um timing cômico genial como Everett, um prisioneiro fugitivo obcecado com sua pomada de cabelo em uma versão sulista de A Odisseia.

  • O Triunfo: Venceu o Globo de Ouro de Melhor Ator em Comédia ou Musical.

  • A Injustiça: Esnobado pelo Oscar. A trilha sonora do filme foi um sucesso estrondoso (ganhando até o Grammy de Álbum do Ano), mas Clooney não conseguiu entrar na lista final. Ele viria a ganhar um Oscar de Coadjuvante por Syriana (2005), mas muitos fãs defendem que sua veia cômica nos filmes dos Coen é onde reside seu verdadeiro brilho.


Por que o Oscar ignora os vencedores do Globo de Ouro?

As estatísticas mostram que a discrepância ocorre principalmente nas categorias de Comédia e Musical. Dos 97 anos de história do Oscar, apenas em raras ocasiões o vencedor de Melhor Ator em Comédia no Globo de Ouro levou o Oscar (que possui apenas uma categoria geral de Melhor Ator).

Dados do setor indicam que cerca de 60% dos vencedores de Melhor Ator em Drama no Globo de Ouro acabam levando o Oscar, enquanto para a categoria de Comédia, esse número cai para menos de 15%. Isso reforça o viés da Academia contra gêneros que não sejam o drama puro.

Além disso, o corpo de votantes é muito diferente. O Globo de Ouro era decidido pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA) — cerca de 90 jornalistas (hoje o corpo aumentou para cerca de 300 votantes diversos). Já o Oscar é decidido por quase 10.000 membros da Academia, que são profissionais da própria indústria, o que gera uma dinâmica de escolha muito mais voltada para o prestígio técnico e dramas “pesados”.