O vício em qualquer substância é algo muito difícil de ser mostrado nas telas porque cada pessoa tem as suas particularidades e lida com isso de maneira própria, mas alguns comportamentos são comuns a cada pessoa que sofre com isso. Em (Des)controle, filme que chega aos cinemas nesta quinta-feira (Semana do Cinema, com ingressos que custam a partir de R$10,00), Carolina Dieckmann dá vida a Kátia Klein, uma escritora sobrecarregada que tem diversas coisas para resolver o tempo todo, como desenvolver o próximo livro aguardado pela editora, providenciar o Bar Mitzvah do filho mais novo e lidar com os pais. Tudo isso enquanto o marido, interpretado por Caco Ciocler, recomenda que pela manhã ela faça exercícios de respiração (e quem faria o café da manhã das crianças?) e quer atenção da esposa para fazer uma viagem romântica.
Kátia ainda sustenta uma pessoa diferente para cada um que precisa dela: é a mãe e responsável pelos filhos, amiga e agenciada por Léo (Júlia Rabello), filha preocupada e presente (seus pais são interpretados por Irene Ravache e Daniel Filho) e autora e ídolo de diversas adolescentes que a veem como uma adulta descolada e que conhece os seus gostos. Todas essas Kátias decepcionam as pessoas ao seu redor.
Kátia tem ciência do seu passado com o álcool e está sóbria há 15 anos, mas sucumbe diante de tanta pressão que vem de todos os lados e, a partir daí, perde o controle sobre todos os aspectos de sua vida.
No primeiro momento, se entregar ao consumo parece fazer com que os seus problemas sumam. A Kátia embriagada não tem preocupações, quer apenas se divertir, mas quando ela vai embora, os problemas voltam potencializados pela ausência momentânea da sobriedade.
Tudo tem um peso ainda maior pelo fato de Kátia ser uma mulher em uma sociedade que julga as mulheres por toda e qualquer ação. Se engravida ou não engravida, é julgada, se pede divórcio, é julgada, mas se continuar insatisfeita em um casamento, também é julgada. Porém quando falamos de entorpecimento, nosso alerta fica também para a integridade física do corpo feminino.
Quando Kátia volta a beber e seu mundo desmorona, ela precisa começar uma nova jornada de autoconhecimento e de entender o que quer, o que precisa e quem ela será para cada um que faz parte de sua vida. Só que essa jornada não é fácil.
O alcoolismo é uma das dependências mais complexas de se analisar porque o consumo de álcool é socialmente aceitável e, muitas vezes, incentivado, mas quando se torna um problema para alguém, toda a credibilidade do indivíduo vai pelo ralo. Trata-se também de uma dependência que testa o dependente em recuperação quase diariamente porque o álcool está tão presente na sociedade e expõe como, muitas vezes, somos pouco empáticos com o próximo quando percebemos que não vai faltar uma cerveja gelada na mesa do almoço de domingo com a família, mesmo que um dos membros esteja em recuperação. É como se as pessoas próximas dissessem “Boa sorte aí com a sua questão, eu vou continuar aqui com a minha cervejinha”.
Ao mesmo tempo, dá o “direito” das pessoas questionarem o caráter e a credibilidade do dependente, algo que não se vê quando falamos sobre o tabagismo, por exemplo.
Kátia se vê em situações onde a recusa por álcool demanda explicações. É “engraçado” ter que justificar a recusa por algo, todo mundo deveria ter a opção de negar e encerrar o assunto. O vício atinge não somente o dependente, mas também as pessoas ao seu redor. A preocupação de Kátia, em muitos momentos, é sobre os filhos, a amiga e os pais.
Carolina Dieckmann está totalmente entregue ao papel de Kátia. Ela transmite no olhar os sentimentos antagônicos de quem acaba vencido pela dependência, passa pela euforia e chega à culpa e à cobrança.
(Des)controle poderia ter se tornado um filme indigesto, mas a direção de Carol Minêm e Rosane Svartman fez dele algo mais sóbrio sem cair na armadilha do dramalhão. O filme é uma produção Midgal Filmes e tem distribuição da Sony Pictures.
Se você precisa de ajuda para superar a dependência de álcool, procure o Alcoólicos Anônimo e, se alguém próximo sofre com isso, procure Al-Anon.

