Vamos direto ao ponto: “Wuthering Heights“ (sim, COM aspas no título oficial) é a mais recente adaptação do clássico de Emily Brontë dirigida por Emerald Fennell, a mesma mente perturbada que nos deu “Promising Young Woman” e “Saltburn”.
Se você viu “Saltburn”, já sabe o que esperar: visuais deslumbrantes, tensão sexual sufocante, e pelo menos três cenas que vão fazer você pausar e pensar “caralho, ela realmente filmou isso?”
Lançado em 12 de fevereiro de 2026 (véspera do Dia dos Namorados nos EUA, porque nada diz “romance” como amor obsessivo e vingança), o filme estrela Margot Robbie como Catherine Earnshaw e Jacob Elordi como Heathcliff numa versão que promete ser “primitiva e sexual” – palavras da própria Fennell.
E antes que você pergunte: sim, teve polêmica. Muita.

A Trama: Amor Tóxico 200 Anos Antes de Red Flag Virar Trending Topic
Para quem pulou as aulas de literatura (sem julgamentos), aqui vai o resumo:
O Morro dos Ventos Uivantes é basicamente a história de amor mais tóxica da literatura inglesa. Catherine e Heathcliff se apaixonam na infância, mas a sociedade, o classismo e as próprias neuroses deles destroem qualquer chance de felicidade.
Catherine casa com o patricinha Edgar Linton por dinheiro e status. Heathcliff some por anos, volta rico e passa o resto da vida se vingando de TODO MUNDO – inclusive das gerações futuras que nem nasceram ainda.
É Game of Thrones sem dragões, mas com a mesma quantidade de sofrimento desnecessário.
Fennell descreveu o livro como desafiando “a validade de ser uma história de amor” por ser “chocante demais, cruel demais, narrativamente estranho demais”. Traduzindo: é uma história de amor, sim, mas do tipo que te faz questionar se amor é realmente algo bom.
A diretora deixou claro que não está fazendo uma adaptação fiel: “Você não pode adaptar um livro denso e complicado como este. Não posso dizer que estou fazendo O Morro dos Ventos Uivantes. Não é possível. O que posso dizer é que estou fazendo uma versão dele.”
Daí as aspas no título. É “Wuthering Heights” (versão Fennell), não O Verdadeiro Morro dos Ventos Uivantes™.
O Elenco: Barbie Encontra Elvis (Versão Gótica)
Margot Robbie como Catherine Earnshaw
Margot saindo direto de “Barbie” (2023) para interpretar uma das heroínas mais complexas e irritantes da literatura é a definição de range de atriz.
Catherine é mimada, manipuladora, apaixonada e completamente autocentrada. Ela ama Heathcliff visceralmente mas casa com outro cara porque “seria degradante” casar com alguém pobre. É personagem que você ama odiar ou odeia amar – não tem meio termo.
Margot também produziu o filme através da LuckyChap Entertainment (mesma produtora de “Barbie” e “Saltburn”). A mulher não só atua, ela ESCOLHE os projetos e faz acontecer.
Jacob Elordi como Heathcliff
Aqui mora a MAIOR POLÊMICA do filme.
No livro de Brontë, Heathcliff é descrito como tendo pele escura, possivelmente romani ou de origem asiática (“dark-skinned gipsy” ou “Lascar” no original). Escalar um ator branco australiano de 1,96m causou revolta justificada.
Fennell defendeu a escolha dizendo que Elordi “parecia exatamente com a ilustração de Heathcliff no primeiro livro que li”. Ela basicamente admitiu que escalou baseado na memória afetiva dela, não na fidelidade ao texto.
É problemático? Absolutamente. Faz sentido no contexto de Hollywood continuar embranquecendo personagens? Infelizmente sim, e isso não torna menos errado.
Curiosidade mórbida: Elordi quase tirou um hiato da carreira antes de Fennell oferecer o papel SEM AUDIÇÃO. Durante as filmagens, ele acidentalmente se queimou de segundo grau ao encostar numa maçaneta de bronze quente no chuveiro e foi parar no hospital. Método involuntário?
O Resto do Elenco (Todos Ótimos e Mal Aproveitados)
- Hong Chau (Everything Everywhere All at Once) como Nelly Dean, a narradora
- Shazad Latif como Edgar Linton (o marido chato)
- Alison Oliver (de “Saltburn”) como Isabella Linton
- Martin Clunes como Mr. Earnshaw
- Ewan Mitchell (Aemond de House of the Dragon) como Joseph
Três crianças estreantes interpretam as versões jovens: Charlotte Mellington (Catherine jovem), Owen Cooper (Heathcliff jovem) e Vy Nguyen (Nelly jovem).
A Produção: VistaVision, Yorkshire e Queimaduras de Segundo Grau
Filmagem
As filmagens rolaram de janeiro a abril de 2025 no Reino Unido, principalmente em:
- Yorkshire Dales (os vales de Arkengarthdale e Swaledale)
- Low Row (vila histórica)
- Sky Studios Elstree
Fennell escolheu filmar em 35mm VistaVision – o mesmo formato usado em “O Brutalista” (2024). É aquela vibe de filme clássico, grão de película, cores saturadas e profundidade de campo absurda.
O diretor de fotografia Linus Sandgren (La La Land, First Man) captou os pântanos sombrios de Yorkshire com aquela estética gótica que faz você querer morar lá e fugir ao mesmo tempo.
A Trilha Sonora Que Ninguém Esperava
Anthony Willis compõe a trilha (mesmo compositor de “Saltburn”), MAS o grande diferencial é que Charli XCX criou um álbum inteiro de músicas originais pro filme.
Sim, você leu certo. Pop hiperpop inglesa encontra romance gótico vitoriano.
Singles lançados:
- “House” (feat. John Cale) – lançado em 10/11/2025
- “Chains of Love” – lançado em 13/11/2025 junto com o trailer
- “Wall of Sound” – lançado em 16/01/2026
A fusão de synth-pop moderno com atmosfera gótica do século XIX deveria ser desastrosa, mas aparentemente funciona. Charli tem esse dom de fazer o absurdo soar inevitável.
As Influências: Fennell Fez a Lição de Casa
Emerald Fennell não chegou de paraquedas nesse projeto. Ela montou uma lista de “histórias de amor que colocam o romance sob pressão, que enfiam uma agulha na torta de morango, que mostram amor em todos seus detalhes monstruosos”.
Filmes que inspiraram a visão dela:
- Random Harvest (1942) – Mervyn LeRoy
- A Matter of Life and Death (1946) – Powell & Pressburger
- Far From the Madding Crowd (1967) – John Schlesinger
- Donkey Skin (1970) – Jacques Demy
- The Night Porter (1974) – Liliana Cavani (ESSE AQUI É PESADO)
- Drácula de Bram Stoker (1992) – Coppola
- Crash (1996) – Cronenberg (sexo + acidentes de carro = amor?)
- Romeu + Julieta (1996) – Baz Luhrmann
- The Handmaiden (2016) – Park Chan-wook
- The Beguiled (2017) – Sofia Coppola
Basicamente: romances que te fazem questionar se amor é lindo ou uma doença mental.
O Marketing: Aspas, Polêmica e Vogue Australiana
O Título Com Aspas
“Wuthering Heights” (com aspas) virou meme instantâneo. Fennell explicou que “qualquer adaptação de romance deveria vir entre aspas” porque você não pode realmente adaptar algo tão denso.
É pretensioso? Sim. É inteligente? Também. É irritante? Definitivamente.
Pôster Homenageando “E o Vento Levou”
O pôster oficial é uma releitura do icônico cartaz de “Gone with the Wind” (1939) – Heathcliff carregando Catherine nos braços, fundo vermelho dramático.
A arte do título foi feita pelo estúdio Chips (Brooklyn) baseada num pôster de 1920 da adaptação silenciosa com Milton Rosmer.
A Capa da Vogue Austrália
Em janeiro de 2026, Margot e Jacob estamparam a Vogue Australia. As fotos são lindas, a química palpável, e os dois vendendo o filme como “o romance mais intenso que você vai ver”.
A Recepção: Misto Como Esperado
Crítica
Rotten Tomatoes: 73% (52 críticos)
Metacritic: 60/100 (28 críticos) – “Avaliações mistas”
Traduzindo: metade da crítica amou, metade achou pretensioso demais.
Os elogios focam em:
- Fotografia deslumbrante
- Atuações comprometidas (especialmente Margot)
- Ousadia estética
- Trilha sonora inesperada mas eficaz
As críticas atacam:
- Decisão de casting (Heathcliff branco)
- Ritmo irregular
- Estilo sobre substância
- Fennell tentando ser “too much”
Bilheteria
Projeção de abertura: 40 milhões de dólares (fim de semana de estreia nos EUA).
Para um drama de época gótico lançado no Dia dos Namorados, não é ruim. Mas também não é “Barbie”.
A Warner Bros pagou 80 milhões pelos direitos (vencendo a Netflix que ofereceu 150 milhões) porque Fennell e Margot exigiram lançamento teatral e campanha de marketing robusta.
As Controvérsias: Porque Nenhum Filme da Fennell Escapa Ileso
1. Whitewashing do Heathcliff
A maior e mais legítima. Heathcliff é explicitamente descrito como não-branco no romance. Escalar Jacob Elordi perpetua 200 anos de adaptações embranquecendo o personagem.
Contrapontos defendidos por fãs do filme:
- Fennell não está fazendo adaptação fiel (daí as aspas)
- É “versão” dela, não tradução literal
- Elordi e Margot têm química absurda
Contra-argumento: Nada disso justifica apagar a identidade racial de um personagem icônico. Hollywood tem centenas de atores não-brancos incríveis que dariam conta do recado.
2. Margot Robbie “Velha Demais”
Alguns reclamaram que Margot (34 anos durante filmagem) está velha para Catherine, que no livro tem 18-19 anos quando morre.
Resposta: Catherine é personagem complexa que precisa de range emocional. Margot entrega. Próximo.
3. Fennell “Sexualizando” Demais o Romance
Críticos conservadores reclamaram que Fennell está transformando romance literário em “soft porn gótico”.
Resposta da diretora: O livro SEMPRE foi sexual. Vocês que fingiram não perceber por 200 anos.
Outras Adaptações: Wuthering Heights Já Foi Tudo
Esse romance de 1847 já ganhou DEZENAS de adaptações. As principais:
- 1939 – Laurence Olivier como Heathcliff (clássico em preto e branco)
- 1970 – Timothy Dalton como Heathcliff (Timothy SEMPRE foi Heathcliff)
- 1992 – Ralph Fiennes e Juliette Binoche (subestimada)
- 2011 – Kaya Scodelario e James Howson (FINALMENTE um Heathcliff negro, mas o filme é lento demais)
A versão de Fennell é a primeira dirigida por mulher desde… nunca? É literalmente a primeira adaptação cinematográfica dirigida por uma mulher de um livro escrito por uma mulher.
Vale a Pena Assistir?
SIM, se você curte:
- Emerald Fennell (Saltburn, Promising Young Woman)
- Romances tóxicos esteticamente lindos
- Fotografia de tirar o fôlego
- Charli XCX fazendo trilha gótica pop
- Margot Robbie fazendo QUALQUER COISA
NÃO, se você:
- Quer adaptação fiel ao livro
- Se incomoda com decisões problemáticas de casting
- Odeia filmes “estilo sobre substância”
- Espera romance água com açúcar de Dia dos Namorados
Onde Assistir “Wuthering Heights” (2026)
Nos cinemas – Lançamento 12 de fevereiro de 2026
IMAX disponível – Para aproveitar a fotografia VistaVision em tela grande
Streaming – Provavelmente Max (Warner) alguns meses depois
Veredito Final: Quando o Hype Vira Fumaça (Literalmente)
Vou ser brutalmente honesto com vocês: “Wuthering Heights” é o equivalente cinematográfico de acreditar em propaganda de perfume importado do Paraguai.
Promete paixão avassaladora, erotismo gótico, transgressão estética. Entrega revista Capricho edição picante com filtro Instagram vintage.
Emerald Fennell, a mesma diretora que filmou Barry Keoghan dançando pelado por cinco minutos em “Saltburn”, aparentemente perdeu todo o tesão criativo nesse projeto. É como se ela tivesse ficado tão intimidada pelo clássico de Emily Brontë que resolveu fazer a versão comportada da própria filmografia.
O Que Prometeram vs. O Que Entregaram
Prometeram: Romance “primitivo e sexual” que desafia convenções
Entregaram: Duas horas de gente bonita olhando intensamente um pro outro enquanto murmura “eu te amo” 200 vezes
Sério, o filme bate o recorde de “eu te amo” por minuto. É tipo “Scarface” (1983) com seus 200+ “fuck”, mas sem a violência catártica. Pelo menos Al Pacino tinha motivo pra xingar tanto. Aqui é só romantismo raso disfarçado de profundidade.
As Cenas de Sexo Que Não Existem
Para uma diretora que nos deu plano-sequência de pênis balançando ao som de Sophie Ellis-Bextor, faltou ousadia absurda aqui.
As cenas “quentes” são tão tímidas que fariam Stephenie Meyer (autora de Crepúsculo) corar de orgulho. Tem sugestões excitantes? Sim, se você considerar olhares lânguidos e uma cena de masturbação na montanha como transgressão.
O máximo de nudez que você vai ver é Jacob Elordi sem camisa – o que só me fez pensar em como Guillermo del Toro aproveitou melhor o shape dele em “Frankenstein”.
Margot Robbie está completamente desperdiçada. Fora reforçar que Cathy é mimada (coisa que a gente entende nos primeiros 10 minutos), ela não tem NADA para trabalhar. Zero exposição, zero camadas, zero razão para estar ali além de vender ingresso.
Heathcliff: O Batman dos Pântanos
Jacob Elordi interpreta Heathcliff como se fosse o Batman. O cara simplesmente BROTA nos lugares sem fazer barulho, sem aviso prévio. É tipo jumpscare gótico.
Não sei se é escolha de direção ou Elordi está praticando para audição da DC, mas Heathcliff ganha uma “força sobrenatural desconfortável” que mais parece personagem de terror psicológico que interesse romântico.
E o mistério de como ele ficou rico? Mais instigante que os anos de Jesus no deserto. Minha teoria: jogou no Tigrinho. Faz tanto sentido quanto qualquer explicação que o roteiro não dá.
Problemas Técnicos Embaraçosos
Os créditos iniciais têm lettering tão estilizado que é IMPOSSÍVEL ler quem trabalhou no filme. Não é exagero – você literalmente não consegue identificar os nomes.
Minha teoria: a equipe ficou tão envergonhada do resultado final que pediu pra Fennell tornar seus nomes ilegíveis. É o equivalente cinematográfico de deletar o LinkedIn depois de ser demitido por justa causa.
O Que Funciona (Porque Nem Tudo É Desastre)
Olha, vou dar crédito onde é devido:
✅ Fotografia é LINDA – Linus Sandgren entregou. Os pântamos de Yorkshire nunca pareceram tão cinematicamente deprimentes
✅ Trilha de Charli XCX funciona – Synth-pop gótico é bom apesar do filme
✅ Elordi e Robbie são bonitos – Pelo menos seus olhos não sofrem
✅ Figurino impecável – As roupas merecem filme melhor
Mas beleza visual sem substância é tipo carro importado sem motor. Impressiona na foto, decepciona na prática.
Para Quem Esse Filme Funciona?
Sinceramente? Para quase ninguém.
Não funciona para fãs do livro – É raso demais
Não funciona para fãs de Fennell – Falta a ousadia de “Saltburn”
Não funciona como erotismo – É tímido demais
Não funciona como romance – Os personagens são irritantes demais
Não funciona como drama de época – É genérico demais
É tipo “musical da Xuxa” gótico: promete fogo do inferno, entrega gelo seco e cortes pro TikTok.
A Verdade Nua e Crua
Emerald Fennell conseguiu a proeza de transformar um filme estrelado por dois dos atores mais atraentes de Hollywood numa experiência completamente broxante.
“Bela Vingança” (2020) era afiado e raivoso.
“Saltburn” (2023) era excessivo e sem vergonha.
“Wuthering Heights” (2026) é… comportado? Genérico? Medíocre?
Medíocre talvez seja elogio generoso demais.
Fennell caiu em grande estilo e entregou um dos fortes candidatos a piores filmes de 2026. É um romance adolescente cheio de pudores, sugestões mal-resolvidas, personagens subdesenvolvidos e propaganda enganosa.
Se você esperava transgressão, prepare-se para tédio bonito.
Se você esperava erotismo, prepare-se para tensão sexual resolvida com olhares.
Se você esperava “Saltburn” em roupas vitorianas, prepare-se para decepção monumental.
Nota: 4/10 – Visualmente competente, emocionalmente vazio, narrativamente preguiçoso.
Assista APENAS SE:
- Você é completista de Margot Robbie ou Jacob Elordi
- Precisa de wallpaper bonito de pântano inglês
- Quer dormir em ambiente climatizado com ar-condicionado
Pule SE:
- Valoriza seu tempo
- Esperava algo minimamente ousado
- Já viu “Saltburn” e quer manter a fé em Fennell
A verdade dói, mas alguém tinha que falar: esse filme é bonito, chato e completamente desnecessário.
Emerald Fennell nos deve desculpas. E Jacob Elordi merece papel melhor que “Batman dos Pântanos Apaixonado”.
Fica a lição: nem todo clássico literário precisa de adaptação. Principalmente quando a diretora coloca aspas no título pra se isentar da responsabilidade de fazer algo bom.
3/10 seria mais honesto. Dei 4 por pena da fotografia.




