Você já teve a sensação de que os filmes modernos de ação ou suspense parecem todos seguir um mesmo ritmo frenético, quase como se estivessem tentando desesperadamente capturar sua atenção a cada segundo? Se a resposta é sim, você não está imaginando coisas. Segundo Ben Affleck, essa é a nova realidade de Hollywood, ditada não por diretores visionários, mas por planilhas de dados e algoritmos de retenção.
Em uma conversa reveladora no podcast The Joe Rogan Experience, Affleck — que além de ator é um diretor e produtor premiado — abriu a “caixa-preta” dos grandes serviços de streaming, como a Netflix, e explicou como o comportamento do usuário está forçando uma mudança drástica na forma como as histórias são escritas e editadas.
A Regra dos 5 Minutos: O Gancho ou a Morte
Antigamente, um filme podia se dar ao luxo de um “cozimento lento” (slow burn), estabelecendo personagens e atmosfera nos primeiros 20 ou 30 minutos. Hoje, isso é considerado um suicídio comercial no streaming.
Affleck revelou que os estúdios possuem métricas exatas de “desistência” (drop-off rates). “Eles têm dados que mostram que, se nada explosivo ou extremamente impactante acontece nos primeiros cinco minutos, uma porcentagem enorme de pessoas simplesmente desliga o filme e volta para o menu inicial”, explicou o diretor.
Essa pressão cria o que Affleck chama de “Algoritmo do Medo”. Cineastas são forçados a sacrificar o desenvolvimento gradual de seus protagonistas em prol de uma cena de ação barulhenta ou um mistério chocante logo na abertura. O resultado? Filmes que começam no volume máximo, mas que muitas vezes perdem o fôlego e a profundidade emocional no segundo ato.
O Roteiro para quem está no Instagram
Outro ponto alarmante levantado por Affleck é a chamada repetição narrativa. Se você sente que os diálogos dos filmes atuais são excessivamente explicativos, há uma razão técnica: o seu celular.
Os dados mostram que a maioria das pessoas assiste a filmes em casa com o smartphone na mão, dividindo a atenção entre a TV e as redes sociais. Sabendo disso, os estúdios agora exigem que os roteiristas incluam “recapitulações” constantes dentro dos diálogos.
“Eles sabem que você está no telefone, então o filme precisa te contar o que aconteceu três vezes através da fala dos personagens”, lamentou Affleck.
Basicamente, o roteiro moderno é escrito para que você consiga entender a trama mesmo se ficar 10 minutos sem olhar para a tela. Isso elimina o subtexto e a sutileza, transformando o cinema em algo mais próximo de um audiobook com imagens de fundo do que uma obra de arte visual onde “mostrar é melhor que falar” (show, don’t tell).
O Fim da Narrativa Desafiadora?
Para Affleck e seu parceiro Matt Damon, essa dependência excessiva de métricas está matando o cinema que exige paciência e inteligência do espectador. Quando o algoritmo dita que cada cena deve ser curta, explicativa e cheia de estímulos, o espaço para a ambiguidade e para a conexão humana real diminui.
A grande ironia é que, enquanto a Inteligência Artificial começa a ser vista como uma ameaça aos roteiristas, o próprio modelo de negócio atual já está tratando os roteiros como se fossem gerados por máquinas: fórmulas matemáticas projetadas para maximizar o tempo de tela, em vez de tocar a alma do público.
E você? Já sentiu que um filme estava “explicando demais” a própria história ou que o ritmo parecia acelerado artificialmente? A luta entre o algoritmo e a arte está apenas começando.

