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Entre o cinismo e a esperança, Tessa Thompson escolhe o caminho mais difícil: o otimismo

Em uma indústria que aprendeu a confundir cautela com covardia criativa, Tessa Thompson faz exatamente o oposto: pisa fundo no desconforto, encara as contradições e, no fim, decide acreditar. A atriz e produtora vive um dos momentos mais densos e simbólicos de sua carreira com Hedda, adaptação radical da peça de Henrik Ibsen, e com a série His & Hers, da Netflix — dois projetos que dialogam diretamente com temas como identidade, poder, trauma e escolha.

Em entrevista recente ao programa Fresh Air, da NPR ser dito — e, nesse caso, havia.

Sob a direção de Nia DaCosta, Hedda deixa de ser apenas uma mulher aprisionada por convenções sociais do século 19 e passa a ser uma mulher queer, mestiça, deslocada dentro de estruturas que ainda ecoam no presente. O texto não é apenas reinterpretado; ele é desmontado e remontado com outra carne, outro sangue e outra urgência.

Thompson descreveu a primeira leitura do livro como algo físico, quase violento. Disse que o material “rasgou por dentro”. E, para ela, esse tipo de impacto é inegociável. Se uma história não provoca esse tipo de reação visceral, talvez ela não mereça existir de novo.


“Sexy” não como provocação, mas como pulsão criativa

Ao comentar que interpretar Hedda foi “pretty sexy”, Thompson não falava de erotismo óbvio. Falava de risco. De entrega. Da sensação rara de estar envolvida em algo que vibra, que ameaça sair do controle, que exige tudo do ator.

O curioso é que, apesar do peso do material — luto, repressão, frustração existencial —, o set era tudo menos sombrio. Segundo ela, Nia DaCosta manteve um ambiente leve, quase celebratório. Em alguns dias, figurantes vestidos com roupas elisabetanas dançavam ao som de Rihanna. Um contraste que define bem o projeto: dor sem solenidade, profundidade sem pompa.


Identidade racial, cabelo e a importância da escolha

Grande parte da firmeza de Thompson vem de casa. Filha de mãe branca-mexicana e pai afro-panamenho, ela cresceu em ambientes majoritariamente brancos, muitas vezes hostis. Sua mãe percebeu cedo o impacto disso e tomou decisões radicais: tirou a filha da escola, optou por homeschooling e, acima de tudo, ensinou que identidade não é concessão.

Quando jovem, Thompson quis alisar o cabelo. A mãe não proibiu. Investigou o processo, explicou, deixou a decisão nas mãos da filha. No fim, Tessa escolheu manter o cabelo natural. E essa escolha — livre, informada — se tornou um alicerce. Anos depois, em sets de Hollywood, ela saberia dizer “não” quando tentavam moldá-la demais.


Quase desistir de tudo — e encontrar um novo caminho

Antes de Dear White People, Thompson pensou seriamente em abandonar a atuação. Não por falta de talento, mas por excesso de papéis vazios, problemáticos, limitadores. Quando leu o roteiro, algo mudou. Pela primeira vez, ela não era objeto da narrativa, mas o centro dela.

Esse momento redefiniu sua relação com a profissão. A partir dali, cada projeto passou a ser filtrado pela mesma pergunta: isso amplia ou reduz a forma como pessoas como eu são vistas?


Hollywood recua — e ela avança

Thompson reconhece que Hollywood vive um momento de retração. Menos filmes falando diretamente sobre raça, gênero e política. Mais medo. Mais cálculo. Ainda assim, ela recusa a ideia de estagnação permanente. Para ela, a indústria funciona como um pêndulo. O recuo de agora pode estar gestando a próxima explosão criativa.

É nesse ponto que sua frase mais forte ganha peso: ser otimista hoje é um ato radical. Não um otimismo bobo, mas um compromisso consciente com histórias audaciosas, desconfortáveis e necessárias.


Dizer “sim” ainda importa — mas o “por quê” importa mais

A carreira de Tessa Thompson nunca foi sobre agradar. Foi sobre insistir. Insistir em complexidade. Em contradição. Em personagens que não cabem em caixas fáceis.

Entre o cinismo — compreensível — e a esperança — arriscada —, ela escolhe a segunda. Não porque seja mais confortável, mas porque é a única capaz de produzir algo vivo.

E, em um momento em que tanta gente prefere se proteger, talvez não exista gesto mais subversivo do que esse.