Quer saber o que acontece no final do filme A Bruxa?
A Bruxa (The Witch: A New-England Folktale) é o filme de estreia de Robert Eggers que virou marco do terror psicológico moderno. Lançado em 2015, o longa dividiu plateias: cinéfilos aplaudiram de pé, público geral saiu do cinema achando que tinha sido enganado. Stephen King disse que o filme o assustou “pra caralho”, enquanto o CinemaScore deu nota C- (basicamente o público falando “cadê os jump scares, Robert?”).
Ambientado na Nova Inglaterra de 1630, o filme acompanha uma família puritana expulsa da própria comunidade religiosa por ser religiosa demais (sim, você leu certo). Eles se mudam para uma clareira isolada na beira de uma floresta sinistra, onde tudo dá errado: bebê desaparece, colheita apodrece, cabras morrem, filho vomita maçã inteira antes de morrer. E no centro de tudo está Thomasin, a filha adolescente acusada de bruxaria pela própria família — até que ela decide que, se vão chamá-la de bruxa mesmo, melhor virar bruxa de verdade.
O final mostra Thomasin flutuando nua numa clareira cheia de bruxas, rindo histericamente enquanto levita acima das árvores. É libertação? É danação? Eggers não dá resposta fácil, e é exatamente por isso que o filme funciona.

Sinopse de A Bruxa
William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) são um casal de puritanos que moram com os cinco filhos numa comunidade religiosa da Nova Inglaterra. O problema: William é religioso demais até para os padrões puritanos. Ele chama os líderes da comunidade de “falsos cristãos” e acaba expulso por heresia.
A família — que inclui Thomasin (Anya Taylor-Joy), Caleb (Harvey Scrimshaw), os gêmeos Mercy e Jonas, e o bebê Samuel — se muda para uma clareira isolada na beira de uma floresta. Eles constroem uma fazenda tosca, plantam milho e criam cabras.
Ah, e tem Black Phillip, o bode preto sinistro que os gêmeos juram que sabe falar.
Tudo começa a desmoronar quando Samuel desaparece enquanto estava sob os cuidados de Thomasin. O filme mostra uma bruxa velha e nua levando o bebê para a floresta, esmagando o corpo dele num pilão e se lambuzando com uma pomada feita dos restos mortais da criança.
A família acredita que foi um lobo. Katherine entra em depressão profunda. William fica paranoico. Thomasin é culpada por tudo. Os gêmeos começam a acusar a irmã de bruxaria. E a situação só piora.
Caleb sai para caçar escondido e entra na floresta, onde encontra uma bruxa com aparência de mulher jovem e sedutora. Ela o beija (e provavelmente faz mais que isso, mas o filme corta). Caleb volta para casa nu, delirante, convulsionando violentamente. Ele vomita uma maçã inteira (simbolismo bíblico pesadíssimo do pecado de Adão e Eva) e morre proclamando amor por Cristo.
William, desesperado, prende Thomasin e os gêmeos no celeiro das cabras. Durante a noite, a bruxa invade o celeiro e devora as entranhas das cabras. Os gêmeos desaparecem. Thomasin desmaia.
Na manhã seguinte, William vai ao celeiro e encontra tudo destruído. Antes que possa acusar Thomasin, Black Phillip o ataca e mata, chifradas violentas seguidas de uma pilha de lenha caindo sobre o corpo dele.
Katherine, completamente enlouquecida, tem alucinações de que Caleb e Samuel estão vivos. Ela “amamenta” Samuel, quando na verdade um corvo está bicando e comendo seu seio. Quando vê Thomasin, Katherine a acusa de ser bruxa e tenta estrangular a filha. Thomasin pega uma faca e mata a mãe em legítima defesa.
Agora sozinha, Thomasin entra na casa e dorme, exausta. Ao acordar, ela vai até o celeiro e confronta Black Phillip.
Final explicado A Bruxa: como acaba?
Vamos lá.
Black Phillip revela sua verdadeira identidade
Thomasin, completamente destruída e sem ninguém mais vivo, vai até o celeiro onde Black Phillip está. Ela se ajoelha diante do bode e diz:
“Eu te conjuro a falar comigo. Fale comigo.”
E Black Phillip responde, com voz sibilante e sussurrante:
“Você gostaria de viver deliciosamente?”
O bode então se transforma numa figura humana (que o filme não mostra diretamente, apenas sugere). Ele oferece a Thomasin:
- Manteiga (luxo absoluto para quem estava passando fome)
- Um vestido bonito
- Laranjas (fruta exótica cara pra caramba na época)
- Viver deliciosamente
Em troca, ele pede que ela assine o nome no livro dele.
Thomasin, analfabeta, pega a pena e assina o nome no livro do Diabo. Ela oficialmente vende a alma e vira bruxa.
A cena final: levitação e sabbath das bruxas
Thomasin, agora nua, caminha pela floresta acompanhada por Black Phillip em forma de bode. Ela chega numa clareira onde um coven de bruxas está fazendo um sabbath ao redor de uma fogueira.
As bruxas (interpretadas por dançarinas de Butoh, criando coreografia própria) começam a levitar. Thomasin se junta a elas, rindo histericamente enquanto flutua acima das árvores.
A câmera mostra Thomasin se misturando aos galhos, como se estivesse se fundindo com a natureza. O sorriso dela é ambíguo: êxtase? Loucura? Liberdade?
O filme termina aí. Sem explicação. Sem julgamento moral claro.
Qual o significado de A Bruxa
A Bruxa é um filme sobre culpa cristã, repressão sexual e como fanatismo religioso destrói famílias de dentro para fora.
As bruxas são reais ou alucinação?
Essa é a grande questão que divide interpretações do filme.
Interpretação 1: As bruxas são REAIS
O filme mostra claramente:
- A bruxa esmagando Samuel num pilão
- A bruxa seduzindo Caleb na floresta
- A bruxa devorando as cabras no celeiro
- Black Phillip falando e revelando-se como o Diabo
- Thomasin levitando no sabbath
Nessa leitura, o sobrenatural é literal. O Diabo existe, bruxas existem, e a família está sendo sistematicamente destruída por forças demoníacas reais. Thomasin vende a alma e vira bruxa de verdade.

Interpretação 2: Tudo é alucinação causada por ergot (fungo)
Tem uma cena em que William descobre que a colheita está infestada com ergot (fungo do centeio que causa alucinações, convulsões e surtos psicóticos — historicamente associado aos julgamentos de Salem).
Nessa leitura:
- A família está envenenada pelo fungo, causando paranoia coletiva
- As “bruxas” são projeções da culpa cristã reprimida
- Caleb morre de envenenamento, não de bruxaria
- Katherine alucina com o corvo
- Thomasin tem um surto psicótico final e imagina que virou bruxa
Interpretação 3: Ambiguidade proposital
Robert Eggers deliberadamente não resolve essa questão. O filme funciona nas duas leituras simultaneamente:
- Sim, existem bruxas (é um conto folclórico, afinal)
- Mas a verdadeira maldição é a culpa cristã que corrói a família
A bruxa da floresta pode ser real, mas a família se destruiu sozinha através de:
- William mentindo sobre a taça de prata
- Katherine sendo incapaz de perdoar Thomasin
- Caleb reprimindo desejo sexual incestuoso pela irmã
- Os gêmeos acusando Thomasin de bruxaria por pura maldade infantil
A bruxa só acelerou o que já estava acontecendo.
Thomasin: vítima ou vilã?
Thomasin é a única personagem genuinamente inocente durante quase todo o filme.
Ela não:
- Roubou a taça de prata (foi William)
- Matou Samuel (foi a bruxa — ou ele simplesmente desapareceu)
- Corrompeu Caleb (ele tinha tesão nela sozinho, obrigado complexo de Édipo puritano)
- Fez pacto com Black Phillip (até o final)
Mas ela é sistematicamente culpada por tudo:
- Katherine a culpa por Samuel
- William a culpa por Caleb
- Os gêmeos a acusam de bruxaria
- Ninguém defende ela
No final, Thomasin mata a mãe em legítima defesa e assina o livro do Diabo porque literalmente não tem outra opção. Toda a família está morta. Ela está sozinha numa floresta hostil sem comida, sem abrigo, sem nada.
Black Phillip oferece a ela o que a família cristã nunca ofereceu: liberdade.
Virar bruxa é a única forma de Thomasin escapar da culpa, da repressão, do patriarcado, da fome, da solidão. É danação? Talvez. Mas também é libertação.
A sexualidade feminina como ameaça
O filme deixa bem claro que Thomasin é punida por estar virando mulher.
- Katherine tem ciúmes da filha adolescente
- Caleb sente atração sexual pela irmã (e morre por isso, vomitando a maçã do pecado)
- William não consegue controlar a sexualidade florescendo na casa
- Os gêmeos chamam Thomasin de bruxa porque ela está menstruando e desenvolvendo seios
Na lógica puritana, mulher sexualmente madura = bruxa em potencial.
A cena final, com Thomasin nua, rindo, levitando, é a vingança definitiva: ela abraça exatamente o que a família mais temia. Se vão tratá-la como bruxa perigosa, ela vira bruxa perigosa de verdade.
Culpa cristã como verdadeira maldição
Cada membro da família carrega culpa paralisante:
- William: expulso da comunidade, vendeu a taça, não batizou Samuel
- Katherine: confessa que Samuel é fruto de infidelidade (?) — essa parte é ambígua
- Caleb: deseja sexualmente a própria irmã
- Thomasin: culpada por estar viva enquanto todos morrem
O filme mostra como fanatismo religioso cria culpa impossível de pagar. Não importa o que você faça, você está condenado. Não existe graça, não existe perdão — só medo, culpa e punição.
Nesse contexto, o Diabo não precisa fazer nada. Ele só precisa esperar a família se autodestruir e depois colher Thomasin como fruto podre.
O que acontece com Thomasin depois do final?
O filme não mostra, mas ela vira bruxa oficialmente.
Se as bruxas são reais, Thomasin agora faz parte do coven que vive na floresta, provavelmente atacando outras famílias puritanas.
Se as bruxas são alucinação, Thomasin enlouqueceu completamente e vai morrer sozinha na floresta, nua e delirante.
Seja qual for a interpretação, não existe “final feliz” no sentido tradicional. Thomasin trocou a prisão cristã pela prisão demoníaca. Ou trocou a prisão cristã pela loucura total.
Mas pelo menos ela está rindo. E isso conta alguma coisa.
A Bruxa é filme feminista?
Sim e não.
Sim porque:
- Mostra como mulheres eram culpadas por tudo numa sociedade patriarcal
- Thomasin é punida por estar se tornando sexualmente madura
- O final pode ser lido como libertação feminina através da bruxaria
- Bruxas historicamente eram mulheres que rejeitavam papéis de gênero tradicionais
Não porque:
- O “empoderamento” de Thomasin vem através de vender a alma pro Diabo
- As outras bruxas do filme são monstros literais que matam bebês
- Não é exatamente progressista dizer “mulher livre = bruxa malvada”
A leitura mais honesta é que o filme é sobre como puritanismo transforma mulheres em bruxas — seja literal ou metaforicamente. Quando você reprime, culpa e demoniza mulheres o suficiente, eventualmente elas abraçam a demonização como única forma de sobrevivência.
Onde assistir A Bruxa
A Bruxa está disponível na Globoplay e pode ser alugado no YouTube e outras plataformas de streaming.
O filme ganhou 91% no Rotten Tomatoes, virou cult instantâneo e lançou a carreira de Anya Taylor-Joy (que depois estrelou O Gambito da Rainha, Fragmentado, Última Noite em Soho) e Robert Eggers (que dirigiu O Farol e O Homem do Norte).
Vale muito a pena se você curte terror atmosférico, psicológico, lento, denso, cheio de simbolismo e zero jump scares. Mas não assista esperando Invocação do Mal. Esse é terror arthouse, filmado só com luz natural e velas, diálogos em inglês arcaico do século XVII, ritmo de filme do Bergman.
Se você tiver paciência, o filme recompensa. Se não tiver, vai sair achando que foi enganado — assim como o público que deu nota C- no CinemaScore.
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