Quer saber o que acontece no final do filme Ilha do Medo?
Ilha do Medo (Shutter Island) é o thriller psicológico que Martin Scorsese dirigiu em 2010, estrelando Leonardo DiCaprio no papel que muita gente considera a melhor atuação da carreira dele. Baseado no romance de Dennis Lehane, o filme se passa em 1954 e acompanha o agente federal Teddy Daniels investigando o desaparecimento de uma paciente num hospital psiquiátrico isolado numa ilha.
Só que, spoiler gigante: Teddy Daniels não existe. O protagonista é na verdade Andrew Laeddis, paciente mais perigoso do hospital, internado depois de matar a esposa que afogou os três filhos do casal. A investigação inteira foi terapia experimental encenada pelos médicos na última tentativa de trazê-lo de volta à realidade antes da lobotomia.
O filme termina com uma das frases mais debatidas do cinema:
“O que seria pior: viver como um monstro ou morrer como um homem bom?”
Essa frase deixa ambíguo se Andrew fingiu recaída para escolher a lobotomia e escapar da culpa, ou se realmente regrediu ao delírio e perdeu a sanidade de vez.
Scorsese nunca confirmou qual interpretação está certa. E é exatamente essa ambiguidade que transforma Ilha do Medo em obra-prima.
Sinopse de Ilha do Medo
Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) é agente federal dos EUA que chega à Ilha Shutter em 1954 acompanhado do parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo). Missão: investigar o desaparecimento de Rachel Solando, paciente do hospital psiquiátrico Ashecliffe que sumiu de cela trancada por dentro.
A ilha é isolada, sombria, cercada de penhasco e mar violento. O hospital é sinistro, cheio de pacientes perigosos trancados em alas de segurança máxima. O clima é opressivo. Algo está errado.
Teddy tem segunda motivação secreta: ele acredita que Andrew Laeddis, homem que incendiou o prédio onde morava matando sua esposa Dolores, está preso na ilha. Teddy quer vingança.
Durante a investigação, as coisas ficam cada vez mais estranhas:
- Rachel Solando reaparece misteriosamente sem explicação
- Pacientes escrevem “RUN” (corra) no bloco de notas de Teddy
- Chuck desaparece
- Tempestade isola a ilha completamente
- Teddy tem enxaquecas constantes e alucinações com Dolores
- Paciente na ala C (George Noyce) avisa que tudo é armadilha, que fazem experimentos de controle mental no farol
Teddy fica paranoico. Ele acredita que o hospital está fazendo lobotomias ilegais e experimentos com psicotrópicos para desenvolver técnicas de controle mental estilo Guerra Fria.
Ele encontra mulher escondida numa caverna que se apresenta como “Rachel Solando verdadeira”, ex-psiquiatra que descobriu os experimentos e foi transformada em paciente para ser silenciada.
Teddy decide invadir o farol (onde supostamente fazem as lobotomias) para expor a conspiração. Sobe os penhascos, entra no farol…
E descobre Dr. Cawley (Ben Kingsley) esperando por ele.

Final explicado Ilha do Medo: como acaba?
Vamos lá.
A grande revelação: Teddy é Andrew
No farol, Dr. Cawley revela a verdade:
“Você não é Teddy Daniels. Você é Andrew Laeddis, paciente mais perigoso desta instituição.”
Cawley explica tudo:
- Andrew Laeddis era policial/ex-militar traumatizado pela Segunda Guerra (libertou campo de concentração de Dachau, massacrou guardas nazistas em vingança)
- Casou com Dolores Chanal, que desenvolveu depressão maníaca severa após incêndio que matou o apartamento deles
- Andrew ignorou os sintomas da doença mental da esposa, focando no trabalho e na bebida
- Dolores afogou os três filhos (Rachel, Edward e Daniel) no lago da casa de campo
- Andrew voltou do trabalho e encontrou as crianças mortas na beira do lago
- Ele matou Dolores com um tiro
- Foi preso e internado em Ashecliffe como criminoso insano
Andrew criou identidade alternativa — Teddy Daniels, agente federal herói — para escapar da realidade insuportável. No delírio dele:
- Dolores morreu num incêndio (não assassinada por ele)
- Andrew Laeddis é outro homem, o incendiário que matou a esposa dele
- Rachel Solando é paciente desaparecida (não sua filha morta)
Os nomes são anagramas:
- Teddy Daniels = rearranjo de Andrew Laeddis
- Rachel Solando = rearranjo de Dolores Chanal
- Os nomes dos filhos (Rachel, Edward, Daniel) viraram componentes da identidade falsa
A terapia experimental
Todo o filme foi encenação terapêutica.
Dr. Cawley e Dr. Sheehan (que fingia ser Chuck) criaram role-play elaborado permitindo Andrew viver a fantasia dele por alguns dias, na esperança de que ele confrontasse a realidade ao chegar no clímax.
Funcionários do hospital atuaram como coadjuvantes:
- Enfermeira fingiu ser Rachel Solando
- Pacientes cooperaram no teatro
- Até George Noyce (que Andrew atacou por chamá-lo pelo nome real) participou
Andrew já tinha regredido antes: 9 meses atrás, ele aceitou a realidade, mas recaiu rapidamente no delírio. Esta é a última tentativa antes da lobotomia ser obrigatória.
As enxaquecas de Teddy eram sintomas de abstinência — tiraram os remédios dele durante o experimento.
A “Rachel Solando da caverna” era alucinação/parte da terapia.
Andrew aceita a verdade… temporariamente
Após a revelação, Andrew reconhece quem é.
Numa conversa com Cawley e Sheehan, ele demonstra plena consciência:
- Sabe que matou Dolores
- Sabe que os filhos foram afogados por ela
- Sabe que inventou Teddy Daniels
- Responde perguntas coerentemente
Os médicos comemoram: o tratamento funcionou!
Mas…
A frase final que muda tudo
No dia seguinte, Andrew e Sheehan (Mark Ruffalo) estão sentados nos degraus fumando cigarro.
Andrew diz:
“Chuck, acho que precisamos sair desta ilha. Coisas ruins estão acontecendo aqui.”
Ele voltou a chamar Sheehan de “Chuck”. Regrediu ao delírio de ser Teddy Daniels.
Sheehan faz sinal discreto para Cawley. Cawley gesticula para os enfermeiros: levem-no para lobotomia.
Andrew se levanta para ir com os enfermeiros. Antes de sair, ele vira para Sheehan e pergunta:
“O que seria pior: viver como um monstro ou morrer como um homem bom?”
Sheehan, atordoado, chama: “Teddy?”
Andrew não responde. Vai embora com os enfermeiros.
Créditos sobem.
Qual o significado de Ilha do Medo
A genialidade de Ilha do Medo está na ambiguidade proposital do final.
Interpretação 1: Andrew fingiu recaída (escolheu lobotomia conscientemente)
Evidências:
- A frase final demonstra lucidez filosófica incompatível com psicose
- Ele escolhe ser chamado de Teddy de novo
- Pergunta retórica sobre “viver como monstro vs. morrer como homem bom” indica decisão consciente
Significado: Andrew entendeu tudo, mas decidiu que não aguenta viver com a culpa de ter matado a esposa e falhado em salvar os filhos.
Ele prefere lobotomia (morte da personalidade = “morrer como homem bom”) a viver consciente dos crimes (“viver como monstro”).
É suicídio assistido emocional. Ele escolhe apagar a própria mente para não sofrer mais.
Esta é a interpretação mais aceita por críticos e pela maioria dos espectadores.
Interpretação 2: Andrew realmente regrediu (perdeu a sanidade de vez)
Evidências:
- Cawley disse que Andrew já tinha aceitado a realidade 9 meses antes e rapidamente regrediu
- Transtorno psicótico severo com delírio persistente não se cura em 3 dias de role-play
- Ele genuinamente não responde quando chamado de “Teddy” — porque realmente acha que é Teddy
Significado: O tratamento falhou. Andrew voltou ao delírio. A mente dele não aguenta a realidade.
A frase final seria última manifestação lúcida antes de mergulhar completamente na psicose.
Ele será lobotomizado contra a vontade, não por escolha.
Interpretação 3: Ambiguidade proposital (não existe resposta certa)
Scorsese e DiCaprio nunca confirmaram qual interpretação é a correta.
A genialidade está em deixar aberto. O filme funciona nas duas leituras:
Se Andrew fingiu: é tragédia sobre peso insuportável da culpa e escolha de “morrer” mentalmente para não sofrer mais.
Se Andrew regrediu: é tragédia sobre limites da mente humana e traumas que quebram a psique irreparavelmente.
Qualquer uma das opções é devastadora. Não existe final feliz. Só diferentes tons de horror.
O simbolismo de fogo vs. água
O filme usa simbolismo visual consistente:
Fogo = fantasia / negação
- Dolores sempre aparece cercada por fogo nas alucinações
- Andrew inventou que ela morreu num incêndio (negação do assassinato)
- Flashbacks de Dachau mostram fogo (trauma de guerra que alimenta psicose)
Água = realidade / trauma
- Os filhos foram afogados
- Andrew vê as crianças mortas na beira do lago (verdade)
- Toda vez que tem alucinação com água, está se aproximando da realidade
- Dolores encharcada diz: “você deveria ter me salvado” (culpa real)
Andrew teme água no início (enjoa no barco) porque água o conecta ao trauma verdadeiro.
Teddy/Andrew é vítima ou vilão?
Ambos.
Andrew é vítima de:
- PTSD severo da Segunda Guerra (massacrou guardas nazistas desarmados, viu atrocidades em Dachau)
- Sistema que não tratou a saúde mental da esposa a tempo
- Tragédia familiar devastadora (esposa doente matou os filhos)
Andrew é culpado de:
- Negligência: ignorou sintomas óbvios de Dolores, focou no trabalho e bebida
- Homicídio: matou a esposa (ainda que em contexto de trauma extremo)
- Violência: atacou George Noyce no hospital
O filme não absolve Andrew, mas também não o condena simplesmente. Ele é humano destruído por circunstâncias além do controle, mas que também fez escolhas ruins que contribuíram para o desastre.
Scorsese mostra compaixão sem romantizar. Andrew merece tratamento, não punição — mas também não é herói trágico inocente.
A crítica aos hospitais psiquiátricos dos anos 50
Ilha do Medo também funciona como crítica ao tratamento psiquiátrico da era pré-medicamentos modernos.
Anos 50 = era das lobotomias, eletrochoques brutais, prisão perpétua em manicômios isolados.
O filme mostra duas abordagens:
Dr. Cawley (progressista): acredita em terapia pela fala, role-play, tratamento humanizado. Contra lobotomia exceto em último caso.
Sistema hospitalar (conservador): quer lobotomia imediata. Vê pacientes como animais perigosos a serem neutralizados.
A terapia experimental de Cawley falha (ou Andrew escolhe que falhe), então o sistema vence: lobotomia.
A ironia brutal: tratamento “humanizado” leva ao mesmo resultado que abordagem brutal. Andrew será lobotomizado de qualquer jeito.
O filme pergunta: até onde é ético forçar alguém a lembrar trauma que o destruiu? Vale a pena “curar” se a cura significa sofrimento eterno?
O que acontece depois da lobotomia?
O filme não mostra, mas sabemos (por contexto histórico):
**Lobotomia transorbit
al** (método dos anos 50): inserem instrumento tipo picador de gelo pela órbita ocular, destroem conexões no lobo frontal do cérebro.
Resultado: paciente vira “zumbi emocional”. Perde personalidade, iniciativa, emoções complexas. Fica dócil, obediente, apático.
Andrew pós-lobotomia seria vegetal humano: não sente culpa, mas também não sente nada. Não é mais Andrew nem Teddy. É ninguém.
Se ele escolheu isso conscientemente, conseguiu o que queria: morte emocional sem morte física.
Se não escolheu, é tragédia médica: homem doente teve cérebro destruído porque tratamento falhou.
Onde assistir Ilha do Medo
Ilha do Medo está disponível em várias plataformas de streaming por assinatura ou aluguel.
O filme tem 68% no Rotten Tomatoes da crítica (recepção mista na época), mas 83% da audiência e virou cult absoluto ao longo dos anos. Muitos consideram obra-prima de Scorsese comparável a Taxi Driver e Touro Indomável.
Leonardo DiCaprio entrega atuação devastadora — possivelmente melhor que O Lobo de Wall Street e O Regresso. A cena dele segurando a filha morta encharcada é de partir o coração.
Vale muito a pena se você curte:
- Plot twists que reformulam filme inteiro
- Ambiguidade moral e narrativa
- Thrillers psicológicos densos
- Scorsese no auge
- Finais que geram debate eterno
Não vale a pena se você:
- Precisa de resposta definitiva clara
- Odeia finais ambíguos
- Não aguenta ritmo lento (primeira hora é buildup tenso)
- Quer thriller de ação (é drama psicológico disfarçado)
Mas sério: assista. Mesmo sabendo o twist, o filme funciona melhor na segunda vez quando você pega todas as pistas sutis (Andrew sempre molhado, arma dele nunca funcionando, cenas impossíveis que só fazem sentido como alucinação).
E prepare-se para discutir a frase final pelo resto da vida.
e é isso

