Você liga achando que é só “sobrevivência em ilha deserta”. Aí The Castaways faz aquele movimento típico de thriller britânico: te dá areia, sol, sede… e enfia um complô corporativo-romântico no meio, como se Lost tivesse feito intercâmbio com Linha Direta.
A premissa já nasce com veneno: duas irmãs, uma briga feia, uma viagem para Fiji e um avião que “some”. Meses depois, o mundo segue em frente — menos Erin, que vira a única pessoa que se recusa a enterrar a irmã sem corpo, sem destroços, sem prova.
E quando a série decide explicar o “o que aconteceu”, ela não economiza: não foi só acidente. Foi gente.
Por que o avião caiu?
Oficialmente, a história “limpa” é: tempestade, falha no motor, avião no mar, todo mundo morto.
A história suja é bem mais humana (logo, mais nojenta): o piloto Mike Brass desvia a rota de propósito, como parte de um plano para ajudar um homem rico a eliminar a amante, que ameaçava expor o caso. A ideia era pousar “fora do plano”, criar uma janela de tempo e resolver o problema no chão. Só que a tempestade transforma o teatro em tragédia — e o pouso improvisado vira queda real. (A série basicamente diz: “parabéns, gênios, vocês conseguiram piorar a natureza”.)
E o detalhe que deixa tudo mais ácido: alguns sobrevivem, mas o mundo é convencido do contrário.
A treta entre Lori e Erin: não era só “perdi o voo”
A série segura isso até o final porque sabe que culpa é combustível narrativo.
A briga definitiva vem quando Lori descobre a traição do marido e, pior, descobre que Erin sabia e ficou calada. Lori explode — e solta aquela frase que só se diz quando você quer destruir uma pessoa por dentro: joga na cara da irmã anos de dependência, de “eu virei tua mãe”, e até usa o desejo de ter filhos como arma.
Erin sai. Essa vira a última conversa antes do avião.
O resultado: a busca da Erin não é só amor. É pedido de desculpa atrasado com juros, correção monetária e penitência.
Quem sobrevive na ilha — e por que vira um inferno
Depois da queda, sobra um grupo pequeno. E aí entra o ponto mais perverso da história:
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tem gente tentando sobreviver,
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e tem gente tentando controlar a narrativa do que aconteceu ali.
O “núcleo explosivo” é o triângulo Lori / Daniel / Amber (e o bebê Sonny):
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Amber é a amante.
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Daniel é o homem rico (ou o peça-chave do esquema, dependendo de como você lê).
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Sonny é o filho — e, portanto, a âncora emocional e também a “prova viva” de tudo.
Quando você coloca um bebê, a série faz uma pergunta cruel: quem manda? a moral ou o instinto? E cada personagem responde com um tipo diferente de violência.
O final explicado: Erin encontra Lori? Daniel morre? Lori volta pra casa?
Sim, Erin e Lori finalmente se reencontram — e o reencontro tem a energia de duas pessoas que queriam chorar, mas não podem porque ainda tem um predador solto na praia.
1) O piloto Mike: o covarde com GPS moral quebrado
Mike foge da ilha num raft, se esconde em Fiji com outra identidade e não avisa ninguém que há sobreviventes (porque, claro, ele escolhe a opção “salvar a própria pele e chamar isso de destino”).
Só que ele comete o erro clássico do criminoso moderno: deixa rastro financeiro. Quando usa o cartão (ou é rastreado por isso), Erin encontra a pista e chega nele. E aí o thriller muda de marcha: Erin chantageia o piloto para levá-la até a ilha.
E tem uma camada extra de crueldade: a série revela que Mike também teria sido o motivo de Erin ter perdido o voo (o tipo de “coincidência” que não é coincidência — é roteiro dizendo: o universo foi adulterado por um homem).
2) O golpe das irmãs: as duas mentem melhor do que qualquer homem do elenco
Para tirar o bebê dali e derrubar Daniel, as duas fazem o que o mundo sempre disse que mulher não faz: atuam friamente.
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Lori finge estar do lado do Daniel.
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Erin finge ser “alguém ligado à esposa dele”, como se o cerco estivesse fechando.
Daniel engole — porque homens como Daniel sempre acham que controlam a história até quando estão sendo escritos como vilões.
Elas fazem Daniel “limpar evidências”… e fogem com Sonny.
3) O confronto final e a morte de Daniel
Daniel tenta impedir. A praia vira tribunal sem juiz.
No confronto, Daniel morre (morto pelas irmãs, no limite do instinto + justiça + desespero), justamente quando a possibilidade de resgate começa a chegar. É o timing irônico que thriller ama: a lei aparece quando o dano já foi resolvido à mão.
4) E Lori? Volta pra civilização?
Aqui está o sabor agridoce que deixa o final marcante:
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Felix decide não voltar. Ele já era um homem “fora do mundo”, e a ilha vira o único lugar onde ele não precisa fingir que pertence.
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Lori escolhe ficar com Felix. Não por síndrome de Estocolmo turística — mas porque, pra ela, voltar significa voltar a ser a mulher que sempre segurou todo mundo nas costas.
Ela finalmente escolhe uma vida que é dela.
Erin, por outro lado, volta como a “sobrevivente oficial” da história — e faz um pacto com a realidade:
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garante que Sonny vá para um lar seguro,
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declara Lori como morta (uma morte social, para dar à irmã a única coisa que ela nunca teve: paz),
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e amarra as pontas financeiras/morais do estrago do Mike.
Última imagem, última mensagem
A série fecha com Lori viva, sorrindo na praia — e com um símbolo que não é sutil: ela finalmente grávida, vivendo o futuro que o passado roubou.
É um final que parece feliz… até você lembrar do preço.
O que The Castaways está realmente dizendo
No fundo, a ilha é só cenário. O tema é outro:
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culpa (a da Erin),
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controle (o do Daniel),
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covardia (a do Mike),
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e liberdade (a da Lori).
E a pergunta final é venenosa: o que é “sobreviver”? voltar pra casa… ou sumir do mapa e finalmente respirar?
Onde assistir The Castaways
A minissérie é um original Paramount+ (lançada por lá no Reino Unido) e também teve exibição em TV aberta no Reino Unido (Channel 5, em esquema semanal, dependendo da programação local). Atualmente em exibição na TV Globo.

