Se você sente falta de filmes policiais que parecem um ataque de ansiedade filmado, Dinheiro Sujo chega para resolver esse problema. O novo thriller da Netflix, dirigido por Joe Carnahan, aposta em suor, paranoia, decisões ruins e uma regra simples que transforma rotina em pesadelo: ninguém pode sair da sala.
Já disponível no catálogo da Netflix, o filme reúne um elenco que parece um pôster de festival — Matt Damon, Ben Affleck, Steven Yeun, Teyana Taylor, Kyle Chandler e Scott Adkins — para contar uma história que parece pequena no papel, mas cresce como um incêndio em espaço fechado.
A trama acompanha um grupo de policiais encarregado de contar uma enorme apreensão de dinheiro dentro de uma casa privada. Um procedimento padrão. Até o momento em que eles percebem que o dinheiro os transformou em alvos. O que era protocolo vira cerco. O que era confiança vira suspeita. E o que era apenas trabalho vira um teste moral sem saída.
Cinema policial como panela de pressão
Joe Carnahan nunca escondeu sua obsessão por histórias que colocam personagens contra a parede. Desde Narc até Smokin’ Aces, seu cinema funciona melhor quando não há espaço para respirar. Em The Rip, essa ideia chega ao limite.
O diretor explica que o conceito central nasceu de um detalhe real: na vida real, policiais não podem abandonar o local enquanto uma contagem de dinheiro apreendido não termina. Para Carnahan, isso foi o gatilho criativo imediato.
A impossibilidade física de sair do espaço transforma o filme em algo quase teatral — mas sem a sensação de estagnação. O suspense vem menos da ação externa e mais do colapso interno das relações: quem mente, quem trai, quem cede primeiro.
Um filme nascido da dor real
Apesar da energia nervosa, The Rip não surgiu de um exercício estilístico vazio. Carnahan revelou que a base emocional do filme vem de uma experiência profundamente pessoal, ligada a um amigo próximo que enfrentou a perda devastadora de um filho.
Essa dor foi incorporada à narrativa com extremo cuidado. O diretor deixou claro que não queria explorar o sofrimento, mas construir um espaço simbólico onde esse luto pudesse existir. A partir disso, o thriller ganha peso: não é só sobre dinheiro ou perigo, mas sobre como o trauma afeta escolhas, ética e lealdade.
Segundo Carnahan, essa ancoragem humana foi o que permitiu empurrar o suspense até o limite sem transformar o filme em um exercício cínico.
Matt Damon e Ben Affleck como escudo criativo
Além de atuarem, Damon e Affleck também entram como produtores — e, segundo o diretor, não para controlar, mas para proteger o filme.
Carnahan descreve a parceria como uma das experiências mais livres de sua carreira. A dupla ofereceu suporte, blindagem e confiança, permitindo que o diretor executasse sua visão sem interferência constante.
Em uma indústria cada vez mais obcecada por testes de audiência e ajustes algorítmicos, esse tipo de autonomia é quase uma raridade.
Steven Yeun e o peso do coletivo
Entre os destaques do elenco, Carnahan faz questão de sublinhar o trabalho de Steven Yeun. Para o diretor, o ator atua sempre pensando no filme como um organismo vivo — não como vitrine individual.
Essa postura se reflete nos momentos finais do longa, quando arrependimento, medo e resignação aparecem mais no olhar do que em diálogos explicativos. É um tipo de atuação que reforça a proposta do filme: ninguém sai ileso, nem emocionalmente.
Por que Joe Carnahan foge de franquias (mas não totalmente)
Durante a conversa, o diretor também falou abertamente sobre seu distanciamento de grandes franquias de super-heróis. Embora admire cineastas como Christopher Nolan, Carnahan admite que não quer passar anos preso a um único projeto.
Ele chegou a flertar com Daredevil no passado, mas reconhece que seu impulso criativo pede movimento constante. Ainda assim, confessou haver uma exceção que mexe com sua imaginação: ROM: Spaceknight, personagem clássico da Marvel ligado à sua infância.
Ou seja: nunca diga nunca — mas também não espere um Carnahan domesticado pelo sistema.
Por que The Rip chama atenção antes mesmo da estreia
Em um mercado saturado de thrillers “seguros”, The Rip se destaca por assumir riscos claros:
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espaço único e claustrofóbico
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personagens moralmente instáveis
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tensão construída em relações, não em explosões
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um diretor disposto a incomodar
O filme não promete conforto, redenção fácil ou respostas limpas. Ele promete pressão.The Rip não quer reinventar o cinema policial — quer lembrar por que ele funciona tão bem quando ninguém consegue sair da sala.
A entrevista original com Joe Carnahan foi publicada pelo The Playlist.

