FILMES LANÇAMENTOS foi apenas um acidente

Lançamento: Ex-prisioneiros iranianos, um torturador com perna mecânica e um cachorro: Jafar Panahi volta com tudo em Foi Apenas um Acidente

“Foi apenas um acidente”, diz aquele que atropela um cachorro, quebra a lanterna do carro e segue com a vida como se nada tivesse acontecido. Mas e quando o “acidente” envolve tortura, memória traumática e um país inteiro fingindo que não viu? Pois é exatamente aí que entra Foi Apenas um Acidente, o novo e corajoso (leia-se: feito às escondidas) filme de Jafar Panahi, o cineasta iraniano que já deve ter um cartão fidelidade no setor de censura do governo do Irã.

Vencedor da Palme d’Or em Cannes 2025 e gravado clandestinamente com a tensão de um sequestro real, o longa estreia envolto em polêmica, mistério e um clima de thriller que faria Hitchcock largar o dry martini pra prestar atenção. Mas, afinal, vale a pena assistir? É só mais um drama político indie ou uma obra-prima que vai te deixar repensando o conceito de justiça até o fim dos tempos?

Spoiler (sem spoiler): esse acidente aqui foi tudo, menos simples.

️ Sobre o que é Foi Apenas um Acidente?

Se você acha que todo filme político precisa ser um tratado de tédio, Jafar Panahi está aqui para te provar o contrário — de novo. Em Foi Apenas um Acidente, um homem atropela um cachorro e acaba sendo sequestrado por um mecânico que acredita tê-lo reconhecido como seu torturador de tempos de prisão política. Sim, um filme começa com um cão morto e termina com uma reflexão sobre o ciclo de violência, justiça e arrependimento no Irã contemporâneo. Só que contado como um thriller tenso digno de Hitchcock… com um roteiro assinado por Kafka.

O longa acompanha o personagem Vahid, interpretado com intensidade contida por Vahid Mobasseri, em sua busca por justiça — ou vingança? — enquanto tenta confirmar a identidade do tal “Eghbal”, um homem com uma perna mecânica, talvez o mesmo que o torturou anos atrás. A trama se desenrola como um quebra-cabeça moral onde ninguém está completamente certo — e isso é o que a torna tão poderosa.


Para quem é?

Se você gosta de cinema político que te trata como um ser pensante, Foi Apenas um Acidente é um banquete. Fãs de Asghar Farhadi, Michael Haneke ou de um bom episódio de Black Mirror (sem as telinhas, mas com dilemas éticos hardcore) vão se sentir em casa. Agora, se você espera explosões ou justiceiros com frases de efeito, melhor seguir para o catálogo da Netflix e dar play em qualquer coisa com o Liam Neeson.


Quem está no elenco?

  • Vahid Mobasseri entrega uma atuação contida e potente como o mecânico que busca respostas.

  • Mariam Afshari brilha como Shiva, a fotógrafa que compartilha o passado sombrio com o protagonista.

  • Ebrahim Azizi é o suposto torturador — um vilão que talvez não seja tão vilão assim. Ou talvez seja pior.

  • Participações fortes também de Hadis Pakbaten, Majid Panahi e Mohammad Ali Elyasmehr completam esse elenco que diz mais com o silêncio do que muito filme diz com trilha épica.


️‍♂️ Um thriller com alma política

Dirigido clandestinamente por Jafar Panahi, que basicamente transformou a ilegalidade em gênero cinematográfico, o filme é um grito silencioso contra a repressão estatal iraniana. Mas longe de ser um panfleto, Foi Apenas um Acidente é um suspense psicológico que questiona: “o que é justiça quando a verdade é turva e a memória falha?”

As cenas são tensas como corda de violino em filme de Kubrick. E mesmo com recursos limitados, a narrativa constrói um clima de paranoia crescente, com uma fotografia que transforma o deserto iraniano num espelho da alma dos personagens — seco, vasto, inescapável.


Prêmios e polêmicas: Cannes, Oscar e caos diplomático

Ganhador da Palme d’Or em Cannes 2025, o filme virou manchete até no noticiário político. A França aplaudiu, o Irã gritou, e Panahi apareceu pessoalmente no festival, desafiando tudo e todos. Foi também selecionado como representante francês ao Oscar de Melhor Filme Internacional — uma ironia deliciosa.

E claro, o governo iraniano não ficou feliz. Mas quando 150 artistas e ativistas assinam uma carta dizendo que sua arte é um ato de resistência, não é mais só cinema — é história.


Onde assistir?

O filme já está disponível em alguns cinemas europeus e estreou nos EUA em outubro de 2025. Deve chegar ao Brasil pelo streaming da MUBI, que comprou os direitos internacionais. E sim, vale a pena ativar as legendas — cada silêncio aqui grita mais que um monólogo do Al Pacino.


Veredicto: Foi Apenas um Acidente é bom?

Foi Apenas um Acidente é um soco elegante no estômago da indiferença. Um thriller sutil, mas explosivo, que usa o suspense como ferramenta para debater memória, trauma e perdão. É cinema de autor com alma e nervo, onde até o som de uma perna mecânica se torna mais aterrorizante do que qualquer trilha de terror genérica.

Se você está pronto para sair da sessão com mais perguntas do que respostas — e com o coração em frangalhos —, esse é o seu filme.


Nota David: 9.3/10
Um dos filmes mais relevantes do ano — e talvez da década.
Panahi não apenas faz cinema. Ele o transforma em resistência silenciosa.